A saúde do coração na menopausa merece uma atenção que vai muito além dos fogachos. No consultório, algumas mulheres chegam preocupadas porque o colesterol aumentou, a pressão começou a oscilar ou a gordura abdominal ficou mais evidente, mesmo sem uma grande mudança na balança.
Essas alterações não significam que toda mulher desenvolverá uma doença cardiovascular depois da menopausa. Mas a transição hormonal coincide com um período em que alguns fatores metabólicos podem mudar, enquanto idade, genética, alimentação, atividade física, sono e outros aspectos da saúde continuam exercendo influência.
Por isso, gosto de enxergar essa fase como uma oportunidade: não para ter medo do coração, mas para começar a cuidar dele mais cedo e de forma mais completa.
Se seus exames começaram a mudar depois dos 40 ou você quer avaliar sua saúde de forma preventiva durante o climatério. Agende agora uma consulta para avaliarmos seu caso de forma individual.
Saúde do coração na menopausa: por que olhar para isso?
A menopausa acontece pela redução progressiva da função ovariana e dos níveis circulantes de estrogênio. Ao mesmo tempo, a mulher está envelhecendo, e esses dois processos acontecem juntos.
Por isso, não é correto dizer que qualquer alteração no colesterol, na pressão ou no peso é simplesmente “culpa da menopausa”.
O que sabemos é que a transição menopausal pode ser acompanhada por mudanças na composição corporal, no perfil de colesterol e em outros fatores relacionados à saúde cardiovascular. A American Heart Association considera esse período uma oportunidade importante para identificar fatores de risco e fortalecer a prevenção.
Se você ainda tem dúvidas sobre em que momento essa transição começa, leia também Climatério ou menopausa: entenda a diferença.
O que o estrogênio tem a ver com o coração?
O estrogênio participa de vários processos do organismo, inclusive aqueles relacionados aos vasos sanguíneos, à distribuição da gordura corporal e ao metabolismo das gorduras no sangue.
Quando seus níveis diminuem, algumas dessas relações mudam.
Mas existe um cuidado importante aqui: o estrogênio não é a única explicação.
A saúde cardiovascular de uma mulher é resultado da combinação de muitos fatores:
- idade;
- genética e histórico familiar;
- pressão arterial;
- colesterol e triglicerídeos;
- glicemia;
- tabagismo;
- atividade física;
- alimentação;
- qualidade do sono;
- peso e distribuição da gordura corporal;
- presença de outras doenças.
É justamente a soma dessas informações que permite avaliar o risco de forma individual.
Saúde do coração na menopausa e colesterol
Uma das mudanças mais percebidas em exames de rotina é o colesterol.
O colesterol não é uma substância “ruim”. Nosso organismo precisa dele. O problema aparece quando algumas partículas circulam em quantidades inadequadas e favorecem, ao longo dos anos, o acúmulo de gordura na parede das artérias.
De maneira simplificada:
- LDL é uma das partículas mais relacionadas ao desenvolvimento de placas nas artérias quando está elevado;
- HDL participa do transporte do colesterol, embora sua interpretação seja mais complexa do que simplesmente chamá-lo de “colesterol bom”;
- triglicerídeos são outro tipo de gordura no sangue e também participam da avaliação metabólica.
Estudos acompanhando mulheres durante a transição menopausal encontraram mudanças em colesterol total, LDL e triglicerídeos especialmente ao redor da perimenopausa tardia e dos primeiros anos após a última menstruação.
Isso não significa que toda mulher precise de medicamento. Significa que vale acompanhar os números e interpretá-los junto aos demais fatores de risco.
A gordura abdominal também pode mudar
Aqui existe uma situação que ouço bastante:
“Doutor, meu peso nem mudou tanto, mas meu corpo mudou.”
E isso pode realmente acontecer.
Durante a transição menopausal, a composição corporal pode se modificar. Estudos do SWAN, um grande acompanhamento de mulheres na meia-idade, observaram aumento da massa de gordura e redução da massa magra durante essa fase, mesmo sem uma aceleração equivalente no peso corporal total.
Também pode ocorrer maior acúmulo de gordura visceral, aquela localizada mais profundamente na região abdominal e ao redor dos órgãos.
Em um estudo com 362 mulheres do SWAN Heart, a quantidade de gordura visceral começou a aumentar de maneira mais acelerada aproximadamente dois anos antes da última menstruação. Durante esse período, o aumento médio observado foi de cerca de 8% ao ano. Esse número representa uma média de uma população estudada e não significa que acontecerá dessa forma com cada mulher.
O ponto importante é que a região onde a gordura se acumula também importa para a saúde metabólica.
Glicemia e resistência à insulina entram nessa conversa
A insulina é o hormônio que ajuda a glicose presente no sangue a entrar nas células para ser utilizada como energia.
Quando o organismo precisa produzir cada vez mais insulina para obter o mesmo efeito, falamos em resistência à insulina.
Esse processo pode estar relacionado a:
- aumento da gordura abdominal;
- sedentarismo;
- genética;
- envelhecimento;
- qualidade da alimentação;
- sono inadequado;
- ganho de peso.
Por isso, glicemia e risco de diabetes também fazem parte da avaliação da saúde do coração na menopausa.
Não significa que a menopausa cause diabetes. Significa que essa fase é uma boa oportunidade para observar fatores metabólicos que muitas vezes estavam passando despercebidos.
E a pressão arterial?
A pressão também merece acompanhamento.
Hipertensão frequentemente não provoca sintomas claros. A mulher pode se sentir perfeitamente bem e apresentar pressão acima do ideal.
Por isso, medir a pressão regularmente é mais útil do que esperar dor de cabeça, tontura ou algum outro sinal aparecer.
Colesterol elevado, hipertensão e alterações da glicemia podem permanecer silenciosos durante anos. Quando se acumulam, aumentam o risco de problemas cardiovasculares como doença coronariana, infarto e AVC.
No mundo, as doenças cardiovasculares foram responsáveis por aproximadamente 19,8 milhões de mortes em 2022, cerca de 32% de todas as mortes registradas naquele ano. Infarto e AVC responderam pela maior parte dessas mortes.
Esse dado não deve assustar. Ele mostra por que prevenção cardiovascular merece espaço também dentro da saúde da mulher.

Saúde do coração na menopausa: o que vale acompanhar?
Não existe uma bateria de exames obrigatória e idêntica para todas.
Uma avaliação simples pode começar com:
| O que avaliar | O que ajuda a entender |
|---|---|
| Pressão arterial | Presença ou risco de hipertensão |
| Colesterol e triglicerídeos | Perfil de gorduras no sangue |
| Glicemia ou hemoglobina glicada | Metabolismo da glicose |
| Peso e circunferência abdominal | Mudanças corporais e metabólicas |
| Histórico familiar | Predisposição cardiovascular |
| Hábitos de vida | Fatores que podem ser modificados |
Dependendo dos resultados, sintomas, idade e histórico, o médico pode indicar outros exames ou encaminhar para avaliação complementar.
O objetivo não é transformar toda mulher na menopausa em paciente cardiológica. É reconhecer quando existe algo que merece ser acompanhado.
Se seu colesterol, glicemia, pressão ou circunferência abdominal começaram a mudar, leve esses dados para a consulta. Avaliar o conjunto é mais importante do que olhar um exame isoladamente. Agende uma consulta para uma avaliação individual do seu caso.
O sono também conversa com o metabolismo
Dormir mal não produz apenas cansaço.
Sono inadequado e irregularidade do ritmo biológico estão relacionados à saúde metabólica e cardiovascular. A American Heart Association inclui o sono entre os pilares fundamentais de saúde do coração, junto com alimentação, atividade física, ausência de tabagismo, peso, colesterol, glicemia e pressão arterial.
Isso é especialmente relevante porque problemas de sono são frequentes durante a perimenopausa.
Fogachos, suor noturno, ansiedade e despertares podem fragmentar a noite. Ao mesmo tempo, jornadas longas, excesso de telas e horários irregulares também entram nessa equação.
Se o sono se tornou um problema, leia Ritmo circadiano na perimenopausa: como ajustar o sono.
O que realmente ajuda a proteger o coração?
A boa notícia é que boa parte do cuidado cardiovascular passa por medidas que também protegem músculos, ossos, cérebro e metabolismo.
Entre os pilares estão:
- manter atividade física regular;
- incluir exercícios de força;
- priorizar uma alimentação rica em verduras, legumes, frutas, leguminosas, cereais integrais e boas fontes de proteína;
- evitar tabagismo;
- moderar o consumo de álcool;
- cuidar do sono;
- acompanhar pressão, glicemia e colesterol;
- manter acompanhamento médico;
- tratar condições como hipertensão, diabetes e colesterol elevado quando necessário.
Não gosto da ideia de transformar essa lista em uma cobrança para a mulher fazer tudo perfeitamente.
Saúde é construída por repetição, não por perfeição.
Pequenas mudanças sustentáveis costumam ser mais úteis do que algumas semanas de rotina extremamente rígida.
E onde entra a terapia hormonal?
A saúde do coração na menopausa também faz parte da conversa quando avaliamos terapia hormonal.
Antes de indicar um tratamento, precisamos conhecer idade, tempo desde a menopausa, sintomas, pressão arterial, perfil metabólico, histórico pessoal e familiar, presença de fatores de risco e eventuais contraindicações.
Além disso, tipo de hormônio, dose e via de administração podem fazer parte dessa individualização.
Ou seja, não existe uma resposta única que sirva para todas as mulheres.
Se esse assunto gera dúvidas, recomendo continuar a leitura em Terapia hormonal na menopausa: o que entra na decisão.
Saúde do coração na menopausa: quando procurar avaliação?
Não é necessário esperar sintomas cardíacos para começar essa conversa.
Vale avaliar seu risco especialmente se houver:
- hipertensão;
- colesterol elevado;
- diabetes ou pré-diabetes;
- tabagismo;
- obesidade abdominal;
- sedentarismo;
- histórico familiar de doença cardiovascular precoce;
- menopausa precoce;
- histórico de complicações cardiovasculares durante a gestação;
- mudanças importantes nos exames após os 40.
E existe outro ponto importante: sintomas novos como dor ou pressão no peito, falta de ar importante, desmaio, fraqueza súbita de um lado do corpo ou dificuldade repentina para falar exigem avaliação médica imediata e não devem ser atribuídos simplesmente à menopausa.
Conclusão
Cuidar da saúde do coração na menopausa significa perceber que essa fase envolve mais do que sintomas ginecológicos.
Colesterol, pressão arterial, glicemia, composição corporal, sono e hábitos de vida começam a ganhar ainda mais importância na meia-idade.
Mas a mensagem não deve ser de medo.
A menopausa pode ser uma excelente oportunidade para revisar exames, reconhecer fatores de risco e construir estratégias que protejam a saúde para as próximas décadas.
No consultório, meu objetivo não é fazer a mulher sair preocupada com tudo que pode acontecer. É ajudá-la a entender o próprio corpo e mostrar onde realmente vale colocar atenção.
Se você está entrando no climatério ou já chegou à menopausa, aproveite sua consulta para revisar também sua saúde cardiovascular e metabólica. Prevenção começa entendendo o seu risco individual. Agende agora mesmo uma consulta
Referências
- World Health Organization. Menopause. Fact sheet. Atualizado em 16 out. 2024.
- World Health Organization. Cardiovascular diseases (CVDs). Fact sheet. Atualizado em 31 jul. 2025.
- El Khoudary SR, Aggarwal B, Beckie TM, et al. Menopause Transition and Cardiovascular Disease Risk: Implications for Timing of Early Prevention. Circulation. 2020. Scientific Statement from the American Heart Association.
- Greendale GA, Sternfeld B, Huang M, et al. Changes in body composition and weight during the menopause transition. JCI Insight. 2019.
- Samargandy S, Matthews KA, Brooks MM, et al. Abdominal visceral adipose tissue over the menopause transition and carotid atherosclerosis: the SWAN Heart Study. Menopause. 2021;28(6):626–633.
- El Khoudary SR, Greendale G, Crawford SL, et al. The menopause transition and women’s health at midlife: a progress report from the Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN). Menopause. 2019.
- American Heart Association. Life’s Essential 8. Atualizado em 2025.
- The Menopause Society. Heart Health. Menopause Topics.
Aviso: Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação médica individual.






