A relação entre terapia hormonal e humor ganhou novos dados. Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista científica Menopause acompanhou 260 mulheres e encontrou melhora de sintomas como humor deprimido, irritabilidade, ansiedade, cansaço mental e problemas de sono depois do início da terapia hormonal sistêmica.
Um dos números chama especialmente a atenção: a proporção de participantes classificadas com sintomas psicológicos graves caiu de 62,3% antes do tratamento para 24,6% no acompanhamento. Mas há uma informação fundamental antes de transformar esse resultado em manchete: o estudo não demonstrou que terapia hormonal seja um antidepressivo.
O que os dados fazem é acrescentar uma peça importante a uma pergunta que a ciência ainda tenta responder: até que ponto as mudanças hormonais da transição menopausal participam das alterações de humor e sono, e quais mulheres podem se beneficiar quando a terapia hormonal já está clinicamente indicada?
Se mudanças de humor apareceram junto com outros sintomas do climatério e estão interferindo na sua rotina, não é preciso tentar interpretar tudo sozinha. No Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa você pode encontrar profissionais para uma avaliação individualizada.
Terapia hormonal e humor: o que os pesquisadores fizeram?
Para entender o estudo, vale começar sem complicar.
Os pesquisadores analisaram prontuários de 260 pacientes atendidas em um centro especializado em menopausa da NYU Langone Health, em Nova York, entre 2023 e 2025. Elas ainda não utilizavam terapia hormonal quando chegaram ao serviço e começaram o tratamento por indicações clínicas reconhecidas, e não especificamente para tratar depressão.
A idade média era de 52,1 anos. Havia mulheres na perimenopausa e na pós-menopausa, e o acompanhamento médio foi de aproximadamente 4,5 meses.
A grande maioria, 96,5%, recebeu estradiol transdérmico. Em termos simples, isso significa que o hormônio chegava ao organismo pela pele, principalmente por meio de adesivos e, em menor proporção, gel. A maioria das mulheres que precisava de proteção do útero também recebeu um progestagênio, sendo a progesterona micronizada a opção predominante.
Isso já traz uma primeira cautela: os resultados encontrados não significam que qualquer tipo, dose ou combinação de terapia hormonal produzirá exatamente o mesmo efeito.
Como o humor foi avaliado?
As participantes preencheram um questionário chamado Menopause Rating Scale, ou MRS.
Pense nele como uma régua utilizada para medir a intensidade de diferentes sintomas relacionados à menopausa. Uma parte específica do questionário avalia quatro aspectos psicológicos: humor deprimido, irritabilidade, ansiedade e esgotamento físico ou mental.
A pontuação dessa parte vai de 0 a 16. No estudo, valores a partir de 7 eram classificados como sintomas psicológicos graves.
Essa explicação é essencial porque dizer que uma participante tinha uma pontuação “grave” nessa escala não significa que ela recebeu diagnóstico de depressão grave.
São coisas diferentes.
Um questionário de sintomas ajuda a medir como a mulher está se sentindo. O diagnóstico de depressão exige uma avaliação clínica mais ampla, considerando duração, intensidade dos sintomas, impacto sobre a vida, histórico e outros critérios.
Terapia hormonal e humor: o resultado que chamou atenção
Antes de iniciar a terapia hormonal, 62,3% das participantes estavam na categoria de sintomas psicológicos graves da MRS.
No acompanhamento, essa proporção caiu para 24,6%. A pontuação psicológica média também apresentou melhora estatisticamente significativa.
A melhora foi maior entre as mulheres que começaram o estudo com sintomas psicológicos mais intensos.
Outro dado interessante é que 51% das participantes tinham histórico de ansiedade ou depressão, enquanto aproximadamente 24% utilizavam antidepressivos quando iniciaram o acompanhamento. Mesmo assim, os pesquisadores não encontraram diferenças significativas na melhora conforme o histórico psiquiátrico ou o uso de antidepressivos.
É tentador interpretar isso como prova de que a terapia hormonal funcionaria independentemente do tratamento psiquiátrico.
O estudo, porém, não permite chegar a essa conclusão.
Ele não foi desenhado para testar se a terapia hormonal substitui, complementa ou aumenta o efeito de antidepressivos.
Melhorar o humor não significa tratar depressão
Essa talvez seja a mensagem mais importante desta matéria.
A relação entre terapia hormonal e humor está sendo estudada há anos, e alguns ensaios clínicos anteriores já encontraram benefícios em determinados grupos de mulheres na perimenopausa.
Um ensaio clínico randomizado publicado no JAMA Psychiatry, por exemplo, acompanhou 172 mulheres na transição menopausal ou no início da pós-menopausa. Durante 12 meses, sintomas depressivos clinicamente relevantes apareceram em 17,3% das mulheres que receberam estradiol transdérmico associado à progesterona micronizada intermitente, contra 32,3% do grupo placebo.
Ainda assim, isso não transforma terapia hormonal em tratamento universal para depressão.
A posição de 2022 da The Menopause Society afirma que existem evidências de efeitos positivos do estrogênio sobre sintomas depressivos em algumas mulheres na perimenopausa, mas ressalta que os resultados dependem da fase da menopausa e que as evidências não são suficientes para recomendar terapia hormonal para prevenir depressão em mulheres assintomáticas.
Diretrizes específicas para depressão na perimenopausa também mantêm antidepressivos e psicoterapia entre os tratamentos estabelecidos quando existe um transtorno depressivo. A terapia hormonal pode entrar na discussão quando há também sintomas menopausais e indicação clínica apropriada.
Ou seja: terapia hormonal e humor podem estar relacionados, mas terapia hormonal não deve ser apresentada como “antidepressivo hormonal”.
Se quiser aprofundar essa diferença, leia também Sofrimento emocional no climatério: sinais de alerta.
Por que os hormônios podem mexer com o humor?
Durante a perimenopausa, o estrogênio não simplesmente “acaba”.
Antes de se estabilizar em níveis mais baixos, ele pode oscilar bastante. Imagine uma montanha-russa hormonal: em alguns períodos, os níveis sobem; em outros, caem rapidamente.
O cérebro possui receptores que respondem ao estrogênio. Esse hormônio participa de processos relacionados a substâncias envolvidas na comunicação entre os neurônios, incluindo serotonina e noradrenalina, além de sistemas ligados ao estresse, ao sono e à regulação emocional.
Isso oferece uma explicação biologicamente plausível para o fato de algumas mulheres perceberem alterações emocionais justamente quando as oscilações hormonais ficam mais intensas.
Mas é importante não inverter o raciocínio.
Saber que o estrogênio atua no cérebro não prova que toda irritabilidade, tristeza ou ansiedade depois dos 40 seja causada pelos hormônios.
Relacionamentos, trabalho, doenças, luto, sobrecarga, histórico de saúde mental, medicamentos, qualidade do sono e inúmeros outros fatores também participam dessa história.
E o sono? Ele também melhorou
O novo estudo encontrou melhora também no item que avaliava problemas para pegar no sono, permanecer dormindo ou acordar muito cedo.
A melhora foi estatisticamente significativa, embora mais modesta do que a observada no conjunto dos sintomas psicológicos.
E sono e humor não vivem em compartimentos separados.
Noites fragmentadas podem aumentar irritabilidade, fadiga, dificuldade de concentração e vulnerabilidade emocional. Ao mesmo tempo, ansiedade e sintomas depressivos também podem dificultar o sono. Revisões recentes descrevem justamente essa interação durante a transição menopausal.
Existe ainda outra possibilidade.
Uma mulher que acorda repetidamente por causa de fogachos e suores noturnos pode dormir melhor quando esses sintomas são tratados. Dormindo melhor, pode acordar menos exausta, ter mais energia e apresentar melhora no humor.
Então surge uma pergunta importante: o hormônio melhorou diretamente o humor ou o humor melhorou porque outros sintomas também melhoraram?
O novo estudo não consegue separar completamente essas possibilidades.

A progesterona também pode ter participado da melhora do sono
Há mais um detalhe que merece atenção.
A maior parte das participantes utilizou estradiol associado a um progestagênio, e a progesterona micronizada foi a opção predominante. Portanto, não é possível simplesmente atribuir toda a melhora observada ao estradiol.
Uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados encontrou melhora de alguns parâmetros do sono com progesterona micronizada, especialmente em estudos com mulheres na pós-menopausa. Os próprios autores ressaltaram, entretanto, que os resultados entre os estudos não foram completamente uniformes e que o uso concomitante de estradiol dificultava separar os efeitos.
Essa é mais uma razão para interpretar terapia hormonal e humor como uma questão mais complexa do que “estrogênio melhora o humor”.
No meio desse caminho existem tipo de hormônio, dose, via de administração, presença ou ausência de útero, sintomas predominantes, fase da menopausa e características individuais.
Se você está avaliando terapia hormonal e não sabe como essas variáveis se aplicam ao seu caso, o Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa pode ajudar a encontrar profissionais que trabalham com saúde da mulher 40+.
Terapia hormonal e humor: por que o estudo não prova causa e efeito?
Aqui entra uma expressão que aparece muito nas notícias científicas: estudo observacional.
Nesse tipo de pesquisa, os cientistas observam aquilo que aconteceu na vida real. Neste caso, verificaram como os sintomas estavam antes da terapia hormonal e como estavam meses depois.
O problema é que não havia um grupo semelhante de mulheres recebendo placebo para comparação.
Imagine duas situações.
Na primeira, 100 mulheres iniciam um tratamento e depois melhoram. Na segunda, outras 100 mulheres semelhantes não recebem aquele tratamento.
Se compararmos os dois grupos, fica mais fácil descobrir quanto da melhora provavelmente veio do tratamento.
No estudo novo, havia apenas a primeira parte dessa comparação.
Por isso, é possível que a terapia hormonal tenha contribuído para a melhora, mas outros fatores também podem ter participado: passagem do tempo, mudanças no sono, tratamento de fogachos, acompanhamento profissional, alterações em outros medicamentos ou até a tendência de sintomas muito intensos variarem naturalmente ao longo do tempo. Os próprios autores apontam a ausência de placebo, o autorrelato dos sintomas e o acompanhamento relativamente curto entre as limitações.
É por isso que, cientificamente, a frase correta é “a terapia hormonal esteve associada à melhora”, e não “a terapia hormonal causou a melhora”.
O que outras pesquisas dizem sobre terapia hormonal e humor?
O novo estudo não surgiu isoladamente.
Em julho de 2026, uma revisão sistemática e meta-análise reuniu 51 ensaios clínicos de terapia hormonal envolvendo mais de 41 mil participantes. Os pesquisadores encontraram sinais de benefício para diferentes sintomas psicológicos, incluindo humor, ansiedade e sono. Porém, os resultados variaram bastante conforme tratamento, população e duração da intervenção. Para depressão especificamente, algumas análises continuaram necessitando de confirmação em estudos maiores e mais padronizados.
Isso ajuda a entender por que sociedades científicas mantêm uma posição cuidadosa.
Existe um sinal de benefício, particularmente em alguns grupos e momentos da transição menopausal. Mas ainda não existe uma regra simples do tipo: “se o humor mudou, use hormônio”.
A decisão sobre terapia hormonal precisa considerar também os sintomas que motivam o tratamento, idade, tempo desde a menopausa, histórico clínico, riscos individuais, tipo de terapia e preferências da mulher.
Para entender esse processo com mais profundidade, leia Terapia hormonal na menopausa: o que entra na decisão.
Sono ruim também precisa de tratamento específico
Outro cuidado importante é não concluir que terapia hormonal seja a solução para qualquer insônia na menopausa.
Se os despertares estão ligados a fogachos e suores noturnos, tratar esses sintomas pode ajudar bastante.
Mas uma mulher também pode apresentar insônia crônica, apneia do sono, ansiedade, depressão, síndrome das pernas inquietas ou outros problemas que exigem estratégias específicas.
A terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida como TCC-I, por exemplo, possui respaldo científico próprio e não precisa ser encarada como concorrente da terapia hormonal.
Leia também: TCC-I na menopausa: terapia para melhorar a insônia.
O que este estudo muda para você?
Ele não significa que toda mulher com irritabilidade, ansiedade ou tristeza deva iniciar terapia hormonal.
Também não significa que uma mulher em tratamento para depressão possa abandonar antidepressivos ou psicoterapia.
O estudo acrescenta outra mensagem: quando mudanças emocionais aparecem durante a transição menopausal, elas merecem fazer parte da consulta.
Isso vale especialmente quando chegam junto de mudanças menstruais, fogachos, suores noturnos, piora do sono ou outros sintomas do climatério.
Em vez de separar “problemas emocionais” de “problemas da menopausa”, pode ser mais útil olhar para o quadro completo.
Não normalize sofrimento emocional
Oscilar emocionalmente em determinados momentos é parte da vida.
Mas sofrimento intenso, persistente ou que interfere no trabalho, nos relacionamentos, no sono e na capacidade de realizar atividades do dia a dia merece avaliação.
E se houver desesperança intensa, pensamentos de morte, ideação suicida ou sensação de que você não consegue se manter segura, a necessidade de ajuda é imediata. Esses sinais não devem ser explicados apenas como “hormônios”.
A terapia hormonal pode fazer parte do cuidado de algumas mulheres que já possuem indicação clínica para utilizá-la. Mas saúde mental continua merecendo investigação e tratamento próprios.
Terapia hormonal e humor: a ciência está montando o quebra-cabeça
O novo estudo não encerra a discussão sobre terapia hormonal e humor.
Ele acrescenta uma peça interessante: em uma clínica especializada, mulheres que iniciaram terapia hormonal por indicações apropriadas apresentaram melhora importante na pontuação de sintomas psicológicos e melhora do sono ao longo de alguns meses.
Ao mesmo tempo, o desenho observacional impede afirmar que o tratamento hormonal foi o único responsável pela mudança.
É justamente aí que uma boa notícia científica precisa terminar: não em uma promessa, mas em uma pergunta mais bem formulada.
As oscilações hormonais podem participar das mudanças de humor e sono durante a transição menopausal. Tratá-las adequadamente pode fazer diferença para algumas mulheres. Mas cada sintoma precisa ser entendido dentro de uma história individual.
Se você percebeu que seu humor, seu sono e outros sintomas mudaram nessa fase, vale levar todos eles para a consulta. No Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa, você encontra profissionais que podem ajudar a avaliar o quadro de forma integrada.
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Referências
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