Se você fez uma laqueadura e, alguns anos depois, começou a perceber ciclos irregulares, calorões, alterações no sono ou mudanças de humor, é compreensível surgir a dúvida: laqueadura causa menopausa? A resposta mais direta é: a laqueadura não provoca a menopausa da mesma forma que a retirada dos ovários.
Na laqueadura, o objetivo é impedir o encontro entre o óvulo e o espermatozoide. Os ovários permanecem no corpo e continuam produzindo hormônios. Por isso, fazer uma laqueadura não significa desligar o funcionamento hormonal dos ovários.
Ainda assim, a ciência encontrou alguns resultados que merecem ser explicados com cuidado. Há estudos que não observaram antecipação da menopausa e outros que identificaram pequenas associações com menopausa precoce ou marcadores de reserva ovariana. Associação, porém, não significa necessariamente que a cirurgia tenha causado o fenômeno.
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Laqueadura causa menopausa? A resposta curta é não
Para entender por que, vale lembrar o que acontece na menopausa.
A menopausa natural ocorre quando a função dos ovários diminui até que os ciclos menstruais terminem permanentemente. Em uma mulher que possui útero e não utiliza determinadas intervenções hormonais, os profissionais confirmam a menopausa retrospectivamente depois de 12 meses consecutivos sem menstruação.
Na laqueadura, os ovários não são retirados. O procedimento atua nas tubas uterinas, estruturas pelas quais o óvulo normalmente se deslocaria em direção ao útero.
Dependendo da técnica, o cirurgião pode cortar, bloquear, cauterizar, fechar com dispositivos ou remover parcialmente as tubas. O resultado desejado é impedir a fecundação, não interromper a produção hormonal dos ovários.
Em outras palavras:
- os ovários permanecem presentes;
- a produção hormonal continua enquanto houver função ovariana;
- a ovulação pode continuar;
- o útero permanece presente;
- a menstruação geralmente continua até a transição natural para a menopausa.
É justamente por isso que a pergunta “laqueadura causa menopausa?” precisa ser separada de outras cirurgias ginecológicas.
Laqueadura, salpingectomia e retirada dos ovários não são iguais
Os nomes podem parecer semelhantes, mas os procedimentos têm efeitos muito diferentes.
Laqueadura
A laqueadura tubária ou esterilização tubária bloqueia ou interrompe as tubas para impedir a gravidez.
Ela não tem como objetivo retirar os ovários.
Salpingectomia
A salpingectomia é a retirada de uma ou das duas tubas uterinas. Atualmente, a remoção bilateral das tubas também pode ser utilizada como método de esterilização permanente.
Como os ovários permanecem no organismo, a salpingectomia bilateral, por si só, não provoca menopausa cirúrgica. A maior parte dos estudos não encontra prejuízo importante da função ovariana no curto prazo, embora possíveis efeitos de longo prazo sobre a reserva ovariana continuem sendo investigados.
Ooforectomia
A ooforectomia é a retirada de um ou dos dois ovários.
Quando a cirurgia remove os dois ovários antes da menopausa natural, a produção hormonal cai de forma abrupta e a mulher entra em menopausa cirúrgica.
Portanto, retirar as tubas e retirar os ovários são situações completamente diferentes.
Por que pode parecer que a laqueadura causou menopausa?
Essa associação é particularmente comum quando a cirurgia acontece perto dos 40 anos.
Imagine uma mulher que fez a laqueadura aos 38 ou 40 anos e, nos anos seguintes, começou a ter ciclos mais curtos ou longos, períodos sem menstruar, calorões ou alterações no sono. É natural relacionar os dois acontecimentos.
Mas essa também é justamente a faixa etária em que a perimenopausa pode começar.
Durante a transição menopausal, os hormônios ovarianos passam a oscilar, e mudanças no ciclo frequentemente estão entre os primeiros sinais percebidos.
Outro fator pode confundir ainda mais essa percepção: a interrupção do anticoncepcional hormonal depois da laqueadura.
Pílulas e outros métodos hormonais podem tornar o sangramento mais regular e leve. Se a mulher deixa de utilizá-los depois da esterilização, o seu padrão menstrual natural reaparece — e ele pode parecer diferente daquele ao qual estava acostumada.
Isso não significa que toda mudança depois da cirurgia deva ser atribuída à idade. Miomas, adenomiose, alterações da tireoide, pólipos, mudanças na ovulação e outras condições também podem modificar o sangramento e precisam ser avaliadas de acordo com cada caso.
Leia também: Menstruação na pré-menopausa: o que muda no ciclo
Laqueadura causa menopausa mais cedo? O que a ciência diz
Aqui está a parte em que a resposta precisa ser mais cuidadosa.
Se perguntarmos se a laqueadura faz os ovários pararem de funcionar e provoca menopausa, a resposta é não.
Se a pergunta for se existe alguma possibilidade de a esterilização tubária estar associada a uma pequena alteração no envelhecimento ovariano ou na idade da menopausa, a literatura científica não é totalmente uniforme.
Estudos que não encontraram antecipação da menopausa
Um importante estudo publicado em Obstetrics & Gynecology analisou três grandes coortes. As médias de idade da menopausa ficaram muito próximas entre mulheres com e sem laqueadura, e os pesquisadores não encontraram diferença estatisticamente significativa.
O tipo de laqueadura também não modificou a idade da menopausa no grupo em que essa informação estava disponível.
Outro estudo, com 1.660 mulheres que chegaram à menopausa natural, também não encontrou diferença significativa de idade da menopausa entre quem havia feito laqueadura e quem não havia realizado o procedimento.
Esses resultados sustentam a interpretação de que não há evidência consistente de que a laqueadura antecipe a menopausa natural.
Mas existe um estudo grande que encontrou uma associação
Em 2021, pesquisadores analisaram mais de 106 mil participantes do Nurses’ Health Study II para investigar menopausa natural antes dos 45 anos.
Nesse estudo, ter realizado laqueadura esteve associado a um aumento relativo modesto do risco de menopausa precoce: HR de 1,17, com intervalo de confiança de 95% entre 1,06 e 1,28.
Isso merece atenção, mas precisa ser interpretado corretamente.
O estudo é observacional. Portanto, pode identificar uma associação, mas não consegue demonstrar que a laqueadura foi a causa da menopausa precoce. Além disso, seus resultados diferem de outros trabalhos que não identificaram alteração na idade da menopausa.
A própria International Menopause Society, ao comentar esses dados, destacou que os resultados disponíveis sobre função ovariana após laqueadura são contraditórios e não permitem conclusões definitivas sobre uma relação causal.
E o estudo mais recente, de 2025?
Uma análise publicada em 2025 no Scientific Reports, utilizando dados populacionais do estado de Bihar, na Índia, encontrou associação entre esterilização feminina e menopausa prematura.
Porém, há limitações importantes: o estudo foi transversal, utilizou informações autorreferidas, não conhecia as técnicas específicas de esterilização e não conseguiu controlar todos os fatores capazes de influenciar o resultado.
O próprio autor ressalta que a esterilização tubária não interfere diretamente na produção hormonal dos ovários e que os dados não permitem estabelecer causalidade. Fatores sociais, qualidade da assistência, seleção das mulheres submetidas ao procedimento e causalidade reversa podem ajudar a explicar a associação.
O que podemos concluir hoje? Não há base científica para afirmar que laqueadura causa menopausa. Existem sinais epidemiológicos que justificam continuar estudando possíveis efeitos de longo prazo, mas eles não demonstram que o procedimento desencadeie a menopausa.
Se os sintomas começaram cedo, são intensos ou você tem dúvidas sobre a sua fase de vida, encontre um profissional no Diretório de Especialistas.
Laqueadura altera hormônios e reserva ovariana?
Outra preocupação comum é se a laqueadura reduz estrogênio ou progesterona ou se “gasta” os óvulos mais rapidamente.
Os estudos sobre reserva ovariana ajudam a investigar essa hipótese.
Reserva ovariana é, de forma simplificada, uma estimativa da quantidade de folículos ainda disponíveis nos ovários. Um dos marcadores estudados é o hormônio anti-mülleriano, ou AMH.
Em um estudo prospectivo brasileiro, os pesquisadores avaliaram mulheres antes da laqueadura e novamente um ano depois Não houve redução estatisticamente significativa do AMH nem da contagem de folículos antrais. Os autores concluíram que os resultados não indicavam alteração relevante da reserva ovariana após o procedimento.
Por outro lado, outra análise do Nurses’ Health Study II encontrou níveis menores de AMH em mulheres submetidas a determinadas técnicas que utilizavam clipe, anel ou banda. Os pesquisadores ressaltaram que os resultados precisavam ser confirmados em novos estudos.
Portanto, novamente, encontramos resultados que não são completamente uniformes.
E há outro detalhe importante: AMH não é um “exame da menopausa”. Embora seja um marcador de reserva ovariana, entidades como o ACOG consideram inadequado usar uma única dosagem de AMH para prever quando uma mulher entrará na menopausa.
Existe síndrome pós-laqueadura?
Talvez você já tenha encontrado esse termo nas redes sociais: “síndrome pós-laqueadura”.
As pessoas costumam utilizar esse termo para reunir sintomas como menstruação irregular, aumento do fluxo e cólicas, alterações hormonais, mudanças de humor e até sintomas semelhantes aos da menopausa.
O problema é que não existe uma definição clínica bem estabelecida dessa suposta síndrome.
Um dos maiores estudos sobre o tema acompanhou 9.514 mulheres submetidas à esterilização tubária e as comparou com 573 mulheres cujos parceiros fizeram vasectomia. Depois dos ajustes estatísticos, as mulheres esterilizadas não apresentaram maior probabilidade global de alterações menstruais persistentes.
Os próprios pesquisadores levantaram uma explicação muito relevante: muitas mulheres deixam de usar anticoncepcionais hormonais após a laqueadura. Como esses medicamentos modificam o padrão menstrual, sua retirada pode revelar um ciclo diferente e criar a impressão de que a cirurgia provocou a mudança.
Isso não significa que sintomas relatados por uma mulher devam ser ignorados. Significa que vale investigar a causa real, em vez de atribuir automaticamente qualquer alteração à laqueadura.
Laqueadura causa menopausa ou muda a contracepção?
A mudança mais clara provocada pela laqueadura está na contracepção, e não na menopausa.
A esterilização tubária é um método contraceptivo permanente e altamente eficaz. Uma vez realizado adequadamente o procedimento cirúrgico, geralmente não é necessário manter outro método apenas para prevenção da gravidez.
Entretanto, nenhuma esterilização é absolutamente infalível.
Gravidez depois da laqueadura é rara, mas pode acontecer. Quando ocorre uma gestação após esterilização, é importante considerar a possibilidade de gravidez ectópica, em que a implantação acontece fora do útero.
A laqueadura também não protege contra infecções sexualmente transmissíveis. Quando houver risco de IST, o preservativo continua sendo importante.
Leia também: Gravidez na perimenopausa: chances e cuidados

Posso continuar usando anticoncepcional depois da laqueadura?
Em algumas situações, sim.
Embora ele deixe de ser necessário como método contraceptivo principal após uma esterilização eficaz, anticoncepcionais hormonais também podem ser utilizados por outros motivos, como controle de sangramento, cólicas ou determinadas condições ginecológicas.
A indicação deve ser individualizada, especialmente depois dos 40 anos.
E terapia hormonal da menopausa?
Ter feito uma laqueadura, isoladamente, não determina se uma mulher pode ou não fazer terapia hormonal da menopausa.
Essa decisão depende dos sintomas, idade, momento da menopausa, histórico clínico e avaliação de riscos e benefícios.
Como a laqueadura mantém o útero, esse detalhe também precisa ser considerado na escolha do esquema hormonal. Em mulheres que permanecem com o útero, a terapia sistêmica com estrogênio geralmente requer proteção endometrial com progesterona ou progestagênio, conforme avaliação médica.
Quando investigar alterações no ciclo
Mudanças menstruais são frequentes durante a perimenopausa, mas nem todo sangramento diferente deve ser simplesmente atribuído aos hormônios.
Procure avaliação profissional especialmente diante de:
- sangramento muito intenso ou prolongado;
- sangramento frequente ou muito diferente do seu padrão habitual;
- sangramento depois de 12 meses completos sem menstruar;
- dor pélvica nova ou persistente;
- ausência inesperada de menstruação acompanhada de sintomas de gravidez;
- calorões ou outros sinais de deficiência estrogênica em idade muito jovem;
- sintomas que estejam comprometendo sono, sexualidade, trabalho ou qualidade de vida.
Na perimenopausa, alterações do ciclo são comuns, mas a avaliação ajuda a diferenciar mudanças esperadas de outras causas de sangramento anormal.
Mito ou verdade: laqueadura e menopausa
“Laqueadura faz os ovários pararem de funcionar.” — MITO
A cirurgia atua nas tubas. Os ovários normalmente permanecem funcionando.
“Depois da laqueadura a mulher para de menstruar.” — MITO
A esterilização não retira o útero nem interrompe diretamente a função ovariana.
“Laqueadura causa menopausa precoce.” — NÃO ESTÁ DEMONSTRADO
Alguns estudos observaram associações, enquanto outros não encontraram diferença na idade da menopausa. Não existe evidência robusta de causalidade.
“Meu ciclo pode parecer diferente depois da cirurgia.” — VERDADE
Isso pode acontecer por vários motivos, inclusive suspensão de anticoncepcionais, envelhecimento reprodutivo ou condições ginecológicas independentes da cirurgia.
“Se fiz laqueadura, nunca mais posso engravidar.” — MITO
O risco é muito baixo, mas falhas são possíveis.
“Laqueadura impede o uso de terapia hormonal.” — MITO
A indicação da terapia hormonal depende da avaliação individual, e não do fato de a mulher ser laqueada.
Perguntas frequentes
Laqueadura causa menopausa imediatamente?
Não. A laqueadura não remove os ovários e, portanto, não provoca a queda hormonal abrupta característica da menopausa cirúrgica.
Por que comecei a ter calorões depois da laqueadura?
O momento pode ter coincidido com o início da perimenopausa, especialmente se a cirurgia foi realizada perto dos 40 anos. Outras causas também podem existir e devem ser consideradas conforme o quadro.
A laqueadura diminui o estrogênio?
Não há evidência consistente de que a laqueadura provoque uma redução clinicamente relevante e permanente da produção de estrogênio. Estudos sobre diferentes marcadores ovarianos apresentam alguns resultados divergentes, por isso a pesquisa continua.
Fiz laqueadura. Como vou saber que entrei na menopausa?
Se você ainda possui útero e menstrua espontaneamente, a menopausa natural é geralmente reconhecida depois de 12 meses consecutivos sem menstruação. O contexto muda quando há uso de medicamentos que alteram ou suspendem o sangramento.
Quem fez laqueadura precisa usar anticoncepcional na perimenopausa?
Quando a esterilização cirúrgica foi concluída e está funcionando adequadamente, outro método não costuma ser necessário apenas para evitar gravidez. Anticoncepcionais podem, entretanto, ter outras indicações clínicas.
Leia também: Climatério ou menopausa: entenda a diferença
Conclusão: laqueadura causa menopausa?
Não há evidência suficiente para afirmar que laqueadura causa menopausa.
A cirurgia impede a gravidez por atuar nas tubas uterinas, mas não retira os ovários e não foi criada para interromper sua produção hormonal. Estudos importantes não encontraram antecipação da idade média da menopausa após laqueadura.
Ao mesmo tempo, a pesquisa científica não deve ser simplificada: alguns estudos encontraram pequenas associações com menopausa precoce ou determinados marcadores de reserva ovariana. Esses achados ainda não demonstram que a laqueadura seja a causa e precisam ser analisados junto a resultados que apontam na direção oposta.
Se o seu ciclo mudou ou apareceram sintomas depois dos 40, não é preciso assumir automaticamente que “foi a laqueadura”. Pode ser o início natural da transição menopausal — ou outra condição que merece investigação.
Conhecer o que acontece no próprio corpo ajuda a fazer perguntas melhores, buscar orientação adequada e atravessar essa fase com mais segurança.
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Referências
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- Ainsworth AJ, et al. Tubal Ligation and Age at Natural Menopause. Obstetrics & Gynecology. 2019.
- Langton CR, et al. Association of oral contraceptives and tubal ligation with risk of early natural menopause. Human Reproduction. 2021;36(7):1989–1998.
- Langton CR, et al. Association of oral contraceptives and tubal ligation with antimüllerian hormone. Menopause. 2022;29(2):225–230.
- da Silva ALB, et al. Impact of tubal ligation on ovarian reserve as measured by anti-Müllerian hormone levels: a prospective cohort study. Contraception. 2013;88(6):700–705.
- Peterson HB, et al. The Risk of Menstrual Abnormalities after Tubal Sterilization. New England Journal of Medicine. 2000;343:1681–1687.
- American College of Obstetricians and Gynecologists. The Use of Antimüllerian Hormone in Women Not Seeking Fertility Care. Committee Opinion No. 773, reafirmado em 2024.
- Babbar K. Female sterilization paradoxical association with premature menopause in Bihar. Scientific Reports. 2025;15:19559.







