Vergonha da perimenopausa: por que esse tabu existe?

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mulher 45+ refletindo sobre estar sentindo vergonha da perimenopausa, enquanto encontra-se isolada em um restaurante

Você esconde um fogacho durante uma reunião? Fica desconfortável ao dizer que está nessa fase? Ou sente que admitir mudanças no corpo, no sono ou na concentração fará as pessoas enxergarem você de outra maneira? A vergonha da perimenopausa existe para algumas mulheres, mas talvez ela diga menos sobre o corpo feminino e muito mais sobre a forma como nossa sociedade aprendeu a enxergar o envelhecimento.

A perimenopausa é uma fase natural da vida. Ela corresponde ao período de transição em torno da menopausa e pode durar alguns anos, trazendo mudanças menstruais e, em algumas mulheres, sintomas físicos, emocionais e cognitivos. Ainda assim, falar sobre ela continua sendo difícil em muitas famílias, relacionamentos e ambientes de trabalho. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que normas de gênero e fatores familiares e socioculturais influenciam a maneira como essa fase é vivida.

Se você está percebendo mudanças no corpo ou no bem-estar e não sabe se elas têm relação com a perimenopausa, procure orientação individualizada. No Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa, você pode encontrar profissionais que atuam na saúde da mulher 40+.

Vergonha da perimenopausa existe e não é só individual

Sentir vergonha não é uma característica obrigatória da perimenopausa. Muitas mulheres atravessam essa etapa com naturalidade, e algumas até descrevem aspectos positivos relacionados a amadurecimento, liberdade e novas perspectivas sobre a própria vida.

Mas também existem mulheres que sentem constrangimento, insegurança ou medo de serem julgadas.

Em um estudo norte-americano com 214 participantes na peri e pós-menopausa, 37,4% relataram vergonha associada aos sintomas e 82,7% relataram algum nível de estigma. As pesquisadoras também observaram maior probabilidade de vergonha e estigma entre participantes mais jovens, especialmente aquelas que estavam entrando na perimenopausa.

Esses números não podem ser automaticamente transferidos para todas as mulheres nem para a realidade brasileira. Eles mostram, porém, que vergonha e estigma são fenômenos suficientemente presentes para serem estudados cientificamente.

Uma revisão publicada em 2025, que reuniu pesquisas qualitativas sobre as experiências femininas durante a transição menopausal, encontrou algo semelhante: estigma e estereótipos de gênero relacionados ao envelhecimento influenciam negativamente a experiência de algumas mulheres.

Ou seja, a pergunta não precisa ser apenas:

“Por que tenho vergonha da perimenopausa?”

Também podemos perguntar:

“O que aprendemos sobre mulheres que envelhecem para que uma fase natural da vida ainda possa causar vergonha?”

Por que a vergonha da perimenopausa ainda aparece?

A vergonha da perimenopausa não possui uma única explicação.

Ela pode surgir da combinação entre experiências pessoais, sintomas difíceis, desconhecimento e mensagens que recebemos durante a vida sobre idade, corpo, feminilidade, produtividade e sexualidade.

Etarismo feminino: quando envelhecer parece diminuir o valor da mulher

Etarismo é o preconceito baseado na idade.

Embora possa atingir qualquer pessoa, ele se cruza de maneira particular com expectativas sociais direcionadas às mulheres.

Durante décadas de vida, muitas mulheres recebem mensagens explícitas ou implícitas de que devem parecer jovens, manter determinado corpo, demonstrar energia, cuidar dos outros, permanecer produtivas e, ao mesmo tempo, esconder sinais do envelhecimento.

Nesse cenário, dizer “estou na perimenopausa” pode parecer, para algumas, quase o mesmo que anunciar publicamente:

“Estou envelhecendo.”

O problema não está em envelhecer. Está na ideia de que envelhecer reduziria beleza, competência, desejo, relevância ou valor social.

Pesquisas sobre experiências femininas na menopausa mostram justamente uma intersecção entre os estereótipos relacionados à fase e narrativas mais amplas sobre envelhecimento, feminilidade e valor social das mulheres.

Quando juventude vira sinônimo de valor

Cabelos brancos podem ser escondidos. Rugas, tratadas. Alterações corporais, combatidas.

Nada disso é necessariamente um problema quando faz parte das escolhas da própria mulher.

A questão aparece quando parecer mais jovem deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como uma exigência para continuar sendo considerada bonita, desejável, saudável ou competente.

Nesse contexto, a perimenopausa pode funcionar como um marcador simbólico de idade.

E não importa que uma mulher de 45, 50 ou 55 anos possa estar no auge da experiência profissional, construir novos relacionamentos, mudar de carreira, viajar, estudar ou começar novos projetos.

O estereótipo insiste em contar outra história.

“Está hormonal?” também pode ser uma forma de desqualificação

Piadas e comentários cotidianos ajudam a manter o tabu.

“Está nervosa hoje. É a menopausa?”

“Isso é coisa da idade.”

“Agora tudo é hormônio?”

“Você está muito hormonal.”

À primeira vista, podem parecer brincadeiras inocentes.

Mas quando qualquer irritação, opinião firme ou dificuldade passa a ser automaticamente atribuída aos hormônios, existe o risco de reduzir a mulher à sua biologia.

Isso também ajuda a explicar por que algumas preferem esconder a fase.

Se dizer que está na perimenopausa significa correr o risco de ter suas emoções, decisões ou competências questionadas, o silêncio pode parecer uma forma de proteção.

Leia também: Menopausa nas redes: como identificar informações falsas

Vergonha da perimenopausa no trabalho: vou parecer menos capaz?

Imagine perceber um fogacho enquanto apresenta um projeto.

Ou esquecer uma palavra durante uma reunião importante.

Ou chegar ao trabalho exausta depois de uma noite interrompida por suor noturno.

A experiência pode ser desconfortável por si só. Mas existe uma segunda preocupação que algumas mulheres carregam:

“Será que vão achar que eu não dou mais conta?”

Esse receio aparece nas pesquisas.

Um estudo publicado em 2024 avaliou 351 mulheres norte-americanas de 40 a 65 anos que trabalhavam. Entre as participantes, 51,2% relataram preocupação em serem percebidas como menos capazes no trabalho devido aos sintomas da menopausa. Além disso, 77,7% mencionaram algum desafio profissional relacionado à fase.

Outra pesquisa publicada em 2025 descreveu como a transição pode ameaçar a identidade profissional de algumas mulheres, especialmente quando sintomas afetam confiança e quando existe receio de julgamentos relacionados à idade e ao desempenho. Maior conhecimento sobre a menopausa e melhor apoio social e profissional apareceram como fatores importantes na reconstrução dessa percepção.

Isso não significa que a perimenopausa torne mulheres menos competentes.

Sintomas como sono ruim, fogachos, fadiga ou dificuldade de concentração podem interferir temporariamente na experiência profissional de algumas mulheres. Mas uma dificuldade pontual não apaga décadas de conhecimento, experiência e capacidade.

E existe outro ponto fundamental: a mulher não deve carregar sozinha toda a responsabilidade de “se adaptar”. Organizações também podem construir ambientes em que conversar sobre saúde não signifique comprometer a credibilidade profissional.

Leia também: Burnout ou perimenopausa: como diferenciar os sinais?

Se alterações de sono, humor, memória, fogachos ou outros sintomas estiverem interferindo no trabalho ou na qualidade de vida, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo. Consulte o Diretório de Especialistas e agende uma consulta.

Vergonha da perimenopausa também pode entrar nos relacionamentos

Para algumas mulheres, falar sobre perimenopausa com um parceiro ou parceira também traz inseguranças.

Mudanças no corpo, irregularidade menstrual, ressecamento vaginal, desconforto durante as relações, oscilações no desejo ou alterações na resposta sexual podem fazer parte da experiência de algumas mulheres nessa fase.

Mas existe uma camada além dos sintomas:

“Será que ainda vou ser desejada?”

Essa pergunta não nasce exclusivamente da biologia.

Ela também pode refletir a associação cultural entre juventude, fertilidade, feminilidade e desejo.

A menopausa marca o fim dos anos reprodutivos, mas fertilidade não é sinônimo de feminilidade, e menopausa não significa o fim da sexualidade.

Intimidade, prazer, afeto, desejo e conexão podem continuar fazendo parte da vida, e podem assumir novas formas ao longo dos anos.

Leia também: Saúde sexual na menopausa: muito além da libido

Não falar sobre perimenopausa sempre significa vergonha?

Não.

Essa distinção é muito importante.

Uma mulher pode simplesmente considerar sua saúde uma questão privada.

Ela não precisa contar aos colegas de trabalho, familiares, amigos ou parceiros detalhes sobre seu ciclo menstrual, sintomas ou tratamentos apenas para provar que está confortável com a própria idade.

Privacidade é uma escolha. Vergonha é um sentimento.

Combater o tabu da menopausa não significa criar uma nova obrigação para que todas as mulheres exponham experiências íntimas.

Uma mulher pode falar abertamente sobre perimenopausa.

Outra pode conversar apenas com pessoas próximas.

Uma terceira pode preferir discutir o assunto exclusivamente com profissionais de saúde.

Todas essas escolhas são legítimas.

A questão é existir liberdade para falar sem medo de ridicularização ou perda de credibilidade, caso ela queira.

A vergonha da perimenopausa pode dificultar a busca por ajuda?

Pode contribuir, mas não explica todos os casos.

A OMS aponta que menopausa e perimenopausa ainda são pouco discutidas em famílias, comunidades, ambientes de trabalho e até serviços de saúde. Também reconhece que algumas mulheres podem sentir vergonha ou constrangimento para chamar atenção para seus sintomas e pedir apoio.

Mas existem vários outros motivos pelos quais uma mulher pode demorar a procurar orientação:

  • não reconhecer os sintomas;
  • acreditar que precisa simplesmente “aguentar”;
  • não saber quais profissionais procurar;
  • ter dificuldade de acesso ao sistema de saúde;
  • receber informações conflitantes;
  • pensar que determinada queixa não tem relação com a transição menopausal;
  • ter sintomas leves e não sentir necessidade de atendimento.

Portanto, não devemos concluir que toda mulher que não procura ajuda sente vergonha.

O ponto é outro: quando a vergonha da perimenopausa impede alguém de falar sobre algo que está causando sofrimento, ela pode se tornar uma barreira ao cuidado.

Mulher 40+ refletindo sobre vergonha da perimenopausa e o tabu relacionado ao envelhecimento feminino.

Perimenopausa não é sinônimo de instabilidade emocional

Existe um estereótipo particularmente persistente: o da mulher menopausada emocionalmente instável.

A ciência pede mais cuidado.

Uma revisão da série sobre menopausa publicada no The Lancet avaliou estudos prospectivos sobre saúde mental e concluiu que não existe evidência convincente de aumento universal do risco de depressão, ansiedade ou outros transtornos psiquiátricos para todas as mulheres durante a transição menopausal.

Alguns grupos apresentam maior vulnerabilidade, especialmente diante de fatores como histórico de depressão, sintomas vasomotores importantes, problemas de sono e eventos estressantes.

Isso é diferente de afirmar:

“Mulheres ficam emocionalmente instáveis na menopausa.”

A generalização pode ser prejudicial porque reforça justamente o estereótipo que muitas mulheres temem.

Se uma mulher apresenta tristeza persistente, ansiedade intensa, perda de interesse pelas atividades, sofrimento emocional importante ou outros sintomas de saúde mental, ela merece uma avaliação adequada, e não simplesmente ouvir que “são os hormônios”.

Como diminuir a vergonha da perimenopausa?

Resolver o estigma da menopausa não deve virar mais uma tarefa colocada exclusivamente sobre os ombros das mulheres.

Mudanças culturais também dependem de famílias, parceiros, profissionais de saúde, empresas, mídia e sociedade.

Ainda assim, algumas atitudes podem ajudar individualmente.

Informação reduz o espaço ocupado pelo tabu

Entender o que é perimenopausa ajuda a separar biologia de estereótipo.

A perimenopausa faz parte de uma transição biológica normal. Ela pode trazer sintomas, mas cada mulher vive essa fase de maneira diferente.

O The Lancet propõe justamente um modelo de cuidado baseado em conhecimento, confiança, autonomia e participação da mulher nas decisões sobre sua própria saúde, em vez de enxergar a menopausa apenas como deficiência ou declínio.

Escolha com quem conversar

Você não precisa transformar sua perimenopausa em assunto público.

Mas encontrar pessoas com quem possa conversar sem julgamento pode diminuir a sensação de isolamento.

Pode ser uma amiga, irmã, parceiro, parceira, colega ou profissional de saúde.

Questione piadas que transformam menopausa em insulto

Nem toda situação exige confronto.

Mas comentários como “está na menopausa?” usados para diminuir uma mulher ajudam a perpetuar o estigma.

Quando houver abertura, uma resposta simples pode ser suficiente:

“Menopausa não é xingamento.”

Ou:

“Discordar de você não é sintoma hormonal.”

Separe sintomas de identidade

Você pode estar mais cansada sem ser menos competente.

Pode esquecer uma palavra sem ter perdido sua inteligência.

Ter um fogacho sem precisar sentir vergonha do próprio corpo.

Pode perceber mudanças na sexualidade sem ter deixado de ser uma pessoa sexual.

Sintomas descrevem experiências.

Eles não definem quem você é.

Como falar sobre perimenopausa sem se sentir exposta?

Não existe uma fórmula correta.

Você pode escolher quanto deseja explicar de acordo com a situação.

No trabalho, por exemplo:

“Estou passando por uma questão de saúde que pode afetar temporariamente meu sono e preciso discutir um ajuste.”

Você não é obrigada a mencionar perimenopausa se não quiser.

Com alguém próximo:

“Estou entrando na perimenopausa e algumas coisas estão mudando. Queria que pudéssemos conversar sobre isso sem transformar tudo em hormônio.”

Com amigas:

“Descobri que algumas coisas que venho sentindo podem ter relação com a perimenopausa. Você já passou por isso?”

Falar sobre o tema não precisa significar revelar tudo.

Você continua tendo controle sobre a própria história.

Quando a vergonha da perimenopausa merece atenção profissional?

Sentir um pouco de constrangimento diante de mudanças íntimas não significa necessariamente que exista um problema psicológico.

Mas vale procurar ajuda quando vergonha, ansiedade ou medo de julgamento começam a limitar sua vida.

Por exemplo, se você:

  • evita consultas por constrangimento;
  • deixa de falar sobre sintomas importantes;
  • começa a se isolar;
  • sente queda intensa da autoestima;
  • tem grande sofrimento com as mudanças corporais;
  • acredita que perdeu seu valor por estar envelhecendo;
  • evita relacionamentos ou intimidade por medo;
  • vive constantemente preocupada com o que colegas pensarão;
  • apresenta ansiedade, tristeza ou sofrimento emocional persistentes.

Ginecologistas, profissionais de saúde mental e outras especialidades podem participar do cuidado conforme as necessidades de cada mulher.

O Ministério da Saúde brasileiro também publicou, em julho de 2026, o Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, reforçando a necessidade de cuidado qualificado e integral nessa fase da vida.

Você não precisa descobrir tudo sozinha. Se sintomas físicos ou emocionais estão interferindo na sua rotina, consulte o Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa e encontre profissionais que possam ajudá-la a construir um cuidado individualizado.

Vergonha da perimenopausa: mudar a narrativa importa

Talvez você tenha aprendido que menopausa era assunto de “mulher velha”.

Ou nunca tenha ouvido sua mãe falar sobre isso.

Talvez tenha crescido vendo personagens menopausadas retratadas como irritadas, descontroladas ou pouco desejáveis.

E talvez, agora que a palavra começou a fazer parte da sua própria vida, ela carregue significados que você nunca escolheu conscientemente.

É justamente por isso que falar sobre vergonha da perimenopausa importa.

A perimenopausa pode trazer desafios reais. Não precisamos romantizá-la.

Também não precisamos transformar uma fase biológica em sinônimo de decadência.

Existem sintomas que merecem cuidado. Mudanças que exigem adaptação. Existem mulheres que atravessam períodos difíceis e outras que passam por essa fase com poucos sintomas.

Mas nenhuma dessas experiências determina o valor de uma mulher.

Conhecer o próprio corpo, procurar ajuda quando necessário e poder nomear o que está acontecendo são formas de autonomia.

E talvez uma das mudanças mais importantes aconteça quando “estou na perimenopausa” deixa de soar como algo que precisa ser confessado e passa a ser apenas uma informação sobre uma fase da vida.

Perguntas frequentes

É normal sentir vergonha da perimenopausa?

Algumas mulheres relatam vergonha ou estigma relacionados à menopausa e aos seus sintomas, mas isso não acontece com todas. Experiências pessoais, contexto cultural, expectativas sobre envelhecimento e medo de julgamento podem influenciar esse sentimento.

Por que a perimenopausa ainda é um tabu?

A experiência da menopausa é influenciada por normas sociais, gênero, cultura e pela forma como o envelhecimento feminino é percebido. A falta de informação e os estereótipos também podem dificultar conversas abertas sobre a fase.

Preciso contar no trabalho que estou na perimenopausa?

Não. Informações sobre sua saúde pertencem à sua esfera privada. Dependendo da situação e das regras locais, você pode optar por conversar sobre sintomas ou necessidades de adaptação sem necessariamente compartilhar detalhes que prefira manter em privacidade.

A perimenopausa deixa a mulher emocionalmente instável?

Não podemos generalizar dessa maneira. Algumas mulheres apresentam alterações de humor ou maior vulnerabilidade psicológica, enquanto outras não. Pesquisas não sustentam a ideia de que todas as mulheres tenham aumento universal de depressão, ansiedade ou instabilidade emocional durante a transição menopausal.

Como perder a vergonha de falar sobre perimenopausa?

Informação, conversas com pessoas de confiança e contato com outras experiências femininas podem ajudar. Mas você não precisa falar publicamente sobre a fase. O objetivo não é obrigar mulheres a se exporem, e sim criar condições para que possam conversar quando quiserem, sem estigma ou ridicularização.

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Referências

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