Falar sobre o climatério de mulheres negras é reconhecer que as mudanças hormonais não acontecem separadas das condições sociais, econômicas, familiares e culturais que atravessam a vida de cada mulher.
Fogachos, alterações no sono, cansaço, ansiedade, dores, mudanças na menstruação, dificuldades de concentração e desconfortos íntimos podem aparecer durante essa fase. Mas nem todas as mulheres encontram a mesma facilidade para reconhecer esses sintomas, procurar ajuda e receber um cuidado atento.
Neste 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, a proposta não é apenas celebrar uma importante liderança histórica. É também refletir sobre por que tantas mulheres ainda precisam insistir para que profissionais e serviços de saúde escutem seus relatos quando percebem mudanças no próprio corpo.
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Por que falar sobre o climatério de mulheres negras em 25 de julho?
A Lei nº 12.987, sancionada em 2 de junho de 2014, instituiu o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. A data também coincide com o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
Tereza de Benguela foi uma liderança quilombola do século XVIII. Durante mais de duas décadas, esteve à frente do Quilombo do Quariterê, na região do atual estado de Mato Grosso, organizando formas próprias de produção, proteção e governança para pessoas negras e indígenas.
Sua história simboliza liderança, resistência e construção coletiva. No campo da saúde, essa memória também convida a perguntar: por que tantas mulheres negras ainda precisam insistir para receber informação, diagnóstico, acompanhamento e tratamento adequados?
O reconhecimento da data ganha sentido quando ajuda a transformar as condições vividas pelas mulheres negras no presente.
Climatério de mulheres negras: uma experiência atravessada por desigualdades
O climatério é a fase de transição entre o período reprodutivo e o não reprodutivo. Ele engloba a perimenopausa, a menopausa — confirmada após 12 meses consecutivos sem menstruação — e os anos seguintes.
As alterações hormonais fazem parte desse processo. Porém, outros fatores individuais também influenciam a maneira como cada mulher vivencia o climatério:
- condições de trabalho;
- renda e segurança financeira;
- acesso à alimentação e atividade física;
- qualidade da moradia;
- responsabilidades familiares;
- exposição à violência;
- estresse crônico;
- disponibilidade de serviços de saúde;
- experiências de preconceito e discriminação;
- possibilidade de pagar por consultas, exames e tratamentos.
O Ministério da Saúde reconhece que populações negras podem enfrentar barreiras de acesso aos serviços e que a redução das desigualdades raciais deve envolver acesso, atenção e resultados em saúde. A Estratégia Antirracista para a Saúde inclui, especificamente, a saúde integral e a saúde mental da mulher negra.
Isso não significa que todas as mulheres negras viverão o climatério da mesma maneira. Mulheres negras não formam um grupo homogêneo: território, renda, escolaridade, identidade, história familiar, condições de saúde e rede de apoio também modificam cada experiência.
A cor da pele não determina, sozinha, quais sintomas uma mulher terá. Mas o racismo e as desigualdades podem influenciar como profissionais, serviços de saúde e a sociedade percebem, acolhem e tratam esses sintomas.
Para compreender melhor essa relação, leia também: Menopausa e racismo: por que essa conversa importa.
O que as pesquisas mostram sobre o climatério de mulheres negras?
Estudos realizados principalmente nos Estados Unidos identificaram diferenças na experiência da transição menopausal entre grupos raciais e étnicos.
O Study of Women’s Health Across the Nation, conhecido como SWAN, acompanha mulheres de diferentes origens há décadas. Suas análises indicam que, entre as participantes, mulheres afro-americanas relataram maior frequência e duração de fogachos e suores noturnos, além de diferenças relacionadas ao sono, à saúde mental e às condições cardiometabólicas.
Pesquisadores e profissionais de saúde não devem interpretar essas diferenças como uma consequência simples ou exclusivamente biológica da raça. Os próprios estudos discutem a influência de condições econômicas, estresse, discriminação, acesso aos serviços, doenças preexistentes e outros determinantes sociais acumulados ao longo da vida.
Também é necessário cuidado ao aplicar esses resultados ao Brasil. Os estudos do SWAN analisaram sobretudo mulheres que vivem nos Estados Unidos, em um contexto social e de saúde diferente do brasileiro.
No Brasil, ainda são necessárias mais pesquisas que avaliem especificamente o climatério de mulheres negras, separando os resultados por raça ou cor e considerando diferenças regionais, sociais e econômicas.
Um estudo brasileiro recente sobre experiências da menopausa identificou barreiras como falta de conhecimento clínico, dificuldades para entrar e permanecer na rede de cuidado, custos dos tratamentos, estigma e desigualdades sociais. Embora esses problemas possam afetar mulheres de diferentes grupos, seus efeitos tendem a se acumular quando gênero, raça e vulnerabilidade econômica se encontram.
Climatério de mulheres negras: como os sintomas do climatério podem se tornar invisíveis?
A invisibilidade não significa que o sintoma não exista. Significa que ele pode não ser reconhecido, registrado, investigado ou tratado com a atenção necessária.
Essa invisibilidade pode acontecer em diferentes momentos.
Quando tudo é atribuído ao estresse
Cansaço, dificuldade para dormir, irritabilidade, alterações de memória e ansiedade podem ser atribuídos apenas à sobrecarga da rotina.
De fato, o estresse pode agravar esses sintomas. Mas também é possível que mudanças hormonais, distúrbios do sono, problemas da tireoide, deficiências nutricionais, anemia, depressão, ansiedade ou outras condições estejam presentes.
Quando a queixa é rapidamente reduzida a “estresse”, sem uma avaliação mais ampla, a mulher pode continuar sofrendo sem compreender o que está acontecendo.
Quando suportar tudo vira uma obrigação
Muitas mulheres negras convivem com a expectativa social de que precisam ser sempre fortes, produtivas, cuidadoras e capazes de enfrentar dificuldades sem demonstrar vulnerabilidade.
Essa cobrança pode dificultar o reconhecimento do próprio sofrimento. A mulher pode adiar a procura por ajuda porque acredita que deve continuar funcionando, mesmo dormindo mal, sentindo dor ou enfrentando mudanças emocionais importantes.
Ser forte não deveria significar permanecer em silêncio.
Quando as queixas são avaliadas separadamente
O climatério pode produzir sintomas em diferentes áreas do corpo. A mulher procura um atendimento para insônia, outro para palpitações, outro para dores, outro para alterações menstruais e outro para ansiedade.
Quando ninguém conecta essas queixas, o cuidado se torna fragmentado.
A avaliação do climatério precisa observar o conjunto: ciclo menstrual, sono, humor, memória, sexualidade, saúde vaginal, metabolismo, ossos, coração, rotina e qualidade de vida.
Quando o sintoma é considerado “normal para a idade”
O climatério é uma fase natural, mas isso não significa que todo sofrimento precise ser tolerado.
Dizer apenas que determinado sintoma “é da idade” pode impedir a investigação de condições tratáveis e fazer a mulher acreditar que não existe possibilidade de melhora.
Sintomas persistentes, intensos ou que prejudicam a rotina merecem avaliação individualizada.
Climatério de mulheres negras: acesso não é apenas conseguir uma consulta
Conseguir marcar um atendimento é apenas uma etapa.
O acesso real ao cuidado envolve:
- encontrar um serviço próximo e disponível;
- ser recebida com respeito;
- conseguir explicar os sintomas sem ser interrompida;
- ter as queixas registradas;
- receber informações em linguagem compreensível;
- realizar exames quando houver indicação;
- conseguir retornar ao serviço;
- receber encaminhamento quando necessário;
- participar das decisões sobre o próprio tratamento;
- ter condições financeiras e práticas para seguir o plano de cuidado.
Pesquisas brasileiras já demonstraram desigualdades raciais no acesso de mulheres a serviços preventivos de saúde. O racismo institucional pode aparecer não apenas em atitudes explícitas, mas também na demora, na baixa qualidade da escuta, na falta de continuidade e na diferença entre quem consegue ou não chegar a determinados recursos.
Para entender melhor os desafios coletivos relacionados ao atendimento, leia: Menopausa e saúde pública: o que o Brasil precisa.

Climatério de mulheres negras: o que um cuidado equitativo precisa considerar?
Equidade não significa oferecer exatamente a mesma resposta para todas as mulheres. Significa reconhecer que algumas enfrentam mais obstáculos e podem precisar de estratégias específicas para alcançar um cuidado de qualidade.
No climatério de mulheres negras, uma consulta equitativa deve:
- escutar a mulher sem minimizar suas queixas;
- perguntar como os sintomas afetam sua rotina;
- considerar condições de trabalho, renda e rede de apoio;
- avaliar saúde mental e qualidade do sono;
- investigar fatores de risco cardiovasculares e metabólicos;
- observar histórico menstrual, ginecológico e familiar;
- considerar sexualidade e sintomas geniturinários com respeito;
- explicar possibilidades de cuidado sem pressupor que determinado tratamento é inacessível;
- construir um plano compatível com a realidade da paciente;
- organizar retorno e acompanhamento.
O tratamento do climatério deve ser individualizado. Dependendo dos sintomas, da história clínica e das preferências da mulher, o plano pode envolver mudanças no estilo de vida, cuidados com o sono, apoio psicológico, fisioterapia, tratamentos não hormonais ou terapia hormonal quando houver indicação e segurança.
A decisão não deve ser tomada com base em raça, estereótipos ou suposições sobre o que a paciente deseja ou consegue fazer.
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Climatério de mulheres negras: como se preparar para uma consulta sobre climatério?
Organizar algumas informações pode ajudar a tornar a conversa mais objetiva, especialmente quando o tempo da consulta é limitado.
Antes do atendimento, anote:
- quando os sintomas começaram;
- quais sintomas mais incomodam;
- quantas vezes eles acontecem;
- o que parece piorá-los;
- como está seu ciclo menstrual;
- como estão o sono, o humor e a memória;
- se houve impacto no trabalho ou na vida familiar;
- se existe dor, secura vaginal ou perda urinária;
- quais medicamentos e suplementos você utiliza;
- seu histórico de doenças e cirurgias;
- doenças importantes na família.
Algumas perguntas que podem ajudar:
- “Esses sintomas podem estar relacionados ao climatério?”
- “Há outras condições que precisam ser investigadas?”
- “Quais opções de cuidado existem para o meu caso?”
- “Quais são os benefícios e riscos de cada alternativa?”
- “Quando preciso retornar?”
- “Quais sintomas exigem atendimento mais rápido?”
Também é possível pedir que as queixas e orientações sejam registradas no prontuário.
No SUS, a Unidade Básica de Saúde costuma ser a principal porta de entrada. A equipe pode fazer a avaliação inicial, orientar cuidados, acompanhar a evolução e realizar encaminhamentos quando necessários. Veja o passo a passo em: Climatério no SUS: onde buscar ajuda na prática.
Climatério de mulheres negras: o que os serviços de saúde precisam mudar?
A responsabilidade de enfrentar desigualdades não pode ser colocada apenas sobre a paciente.
Não basta orientar a mulher a “falar mais”, “insistir” ou “procurar outro profissional”. Os serviços e as equipes também precisam rever seus processos.
Algumas mudanças importantes incluem:
- ampliar a formação sobre climatério e menopausa;
- incluir relações raciais na educação dos profissionais;
- registrar corretamente raça ou cor nos sistemas de saúde;
- analisar dados de atendimento e resultados por grupos populacionais;
- desenvolver protocolos que valorizem a escuta;
- facilitar a continuidade do acompanhamento;
- garantir acesso a informações claras;
- incluir mulheres negras na elaboração de políticas e materiais educativos;
- ampliar sua participação nas pesquisas clínicas e populacionais.
Sem dados adequados, as desigualdades permanecem difíceis de medir. E aquilo que não é medido corre o risco de continuar fora das prioridades.
Climatério de mulheres negras: dar visibilidade é cuidar
O legado de Tereza de Benguela recorda que mulheres negras sempre construíram formas de resistência, liderança e cuidado coletivo, mesmo quando suas histórias foram apagadas.
No presente, dar visibilidade ao climatério de mulheres negras significa reconhecer sintomas, ouvir experiências e transformar estruturas que dificultam o acesso à saúde.
Também significa abandonar duas ideias perigosas: a de que mulheres negras suportam mais dor e a de que precisam enfrentar todas as mudanças sozinhas.
Nenhuma mulher deveria precisar provar que seu sofrimento é real para receber acolhimento.
O climatério pode ser vivido com mais informação, autonomia e qualidade de vida. Para isso, a escuta precisa ser respeitosa, a investigação precisa ser completa e o acesso ao cuidado precisa ser verdadeiramente equitativo.
Perguntas frequentes
Toda mulher negra terá sintomas mais intensos no climatério?
Não. A experiência é individual. Estudos internacionais encontraram diferenças médias entre grupos, mas isso não permite prever o que acontecerá com cada mulher. Saúde, genética, ambiente, sono, renda, estresse, histórico familiar e acesso ao cuidado também influenciam os sintomas.
Racismo pode afetar a saúde durante o climatério?
Sim. O racismo é reconhecido como um determinante social da saúde porque pode aumentar a exposição ao estresse e criar barreiras de acesso, escuta e continuidade do cuidado. Isso não significa que todo problema de saúde seja causado pelo racismo, mas que seus efeitos precisam ser considerados.
O que fazer quando os sintomas são minimizados?
Explique como eles afetam sua rotina, peça que sejam registrados no prontuário e pergunte qual será o plano de investigação e acompanhamento. Quando possível, procure uma segunda avaliação. Em situações relacionadas ao SUS, a Ouvidoria pode receber solicitações, reclamações ou denúncias sobre o atendimento.
Onde buscar atendimento para o climatério?
O acompanhamento pode começar na Unidade Básica de Saúde, com a equipe de Atenção Primária, ou em consulta com profissional habilitado. Dependendo das necessidades, o cuidado pode incluir ginecologia, clínica médica, enfermagem, psicologia, nutrição, fisioterapia pélvica, endocrinologia, cardiologia ou outras áreas.

Conclusão
O Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra não deve ser apenas uma homenagem simbólica. A data também pode mobilizar compromissos concretos com a dignidade, a saúde e os direitos das mulheres negras.
Reconhecer o climatério de mulheres negras é olhar para os sintomas, mas também para os caminhos que cada mulher precisa percorrer até ser ouvida.
Informação é parte do cuidado. Escuta é parte do cuidado. Equidade também é parte do cuidado.
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Referências
- Brasil. Lei nº 12.987, de 2 de junho de 2014. Institui o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.
- Ministério das Mulheres. 25 de julho: Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e de Tereza de Benguela celebra resistência e protagonismo. 2011.
- Ministério da Saúde. Saúde sem Racismo: Estratégia Antirracista para a Saúde. 2025
- Harlow SD et al. Disparities in Reproductive Aging and Midlife Health between Black and White Women. Women’s Midlife Health. 2022.
- Avis NE et al. Vasomotor Symptoms Across the Menopause Transition. Obstetrics and Gynecology Clinics of North America. 2018.
- Goes EF, Nascimento ER. Mulheres negras e brancas e os níveis de acesso aos serviços preventivos de saúde. Saúde em Debate. 2013.
- Benetti-Pinto C et al. Menopause in Brazil: lived experiences, inequities, and opportunities for inclusive care. Women & Health. 2026.







