Quando se fala em anticoncepcional e terapia hormonal, uma preocupação costuma aparecer rapidamente: “usar hormônios aumenta meu risco de trombose?”. A dúvida é legítima, mas a resposta não cabe em um simples “sim” ou “não”.
Neste Dia Nacional de Combate e Prevenção à Trombose, vale começar justamente por essa diferença. Nem todo tratamento hormonal é igual, nem toda mulher apresenta o mesmo risco e, principalmente, anticoncepcional hormonal e terapia hormonal da menopausa não são a mesma coisa.
O tipo de hormônio, a dose, a forma como ele chega ao organismo e o histórico individual fazem diferença. Por isso, a melhor pergunta não é apenas “hormônio causa trombose?”, mas “qual é o meu risco e qual opção faz mais sentido para mim?”
O Dia Nacional de Combate e Prevenção à Trombose é lembrado em 16 de setembro e foi instituído pela Lei nº 12.629/2012 para ampliar a conscientização, melhorar a prevenção e reduzir casos não diagnosticados.
Está na perimenopausa e precisa conciliar contracepção, sintomas do climatério e seu histórico de saúde? O Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa reúne profissionais que podem ajudar nessa avaliação individualizada. Conheça o Diretório de Especialistas
Antes de falar em hormônios: o que é uma trombose?
Antes de perguntarmos se anticoncepcional e terapia hormonal causam trombose, precisamos entender a trombose. Ela acontece quando um coágulo se forma dentro de um vaso sanguíneo. Quando isso ocorre nas veias profundas, principalmente das pernas, chamamos de trombose venosa profunda, ou TVP.
O maior perigo ocorre quando parte desse coágulo se desprende e viaja pela circulação até os pulmões. Nesse caso, pode acontecer uma embolia pulmonar, uma complicação potencialmente grave e que exige atendimento rápido.
É importante lembrar que a trombose não tem uma única causa. Geralmente, diferentes fatores se somam: idade, imobilidade prolongada, cirurgias, determinadas doenças, predisposição individual e alguns tratamentos hormonais, entre outros.
Anticoncepcional e terapia hormonal são a mesma coisa?
Não. E essa é uma das mensagens mais importantes desta matéria.
Os anticoncepcionais têm como principal objetivo evitar a gravidez. Algumas formulações usam doses e tipos de hormônios diferentes daqueles empregados na terapia hormonal da menopausa.
Já a terapia hormonal tem outro propósito: tratar sintomas e consequências da deficiência hormonal associada ao climatério e à menopausa, quando existe indicação.
Isso significa que não podemos pegar os dados de risco de um anticoncepcional e simplesmente transferi-los para a terapia hormonal, ou fazer o caminho contrário.
Mesmo quando os dois tratamentos possuem estrogênio, o tipo de estrogênio, a dose e a via de administração podem ser diferentes.
E na perimenopausa?
Essa distinção é especialmente importante para mulheres na perimenopausa.
Nessa fase, os ciclos podem estar irregulares, mas ainda pode ocorrer ovulação. Portanto, ainda existe possibilidade de gravidez e algumas mulheres continuam precisando de contracepção. Anticoncepcional e terapia hormonal da menopausa, são diferentes. A terapia hormonal por si só, não funciona como anticoncepcional.
Leia também: DIU hormonal na perimenopausa: quando ajuda
Anticoncepcional e terapia hormonal aumentam o risco de trombose?
Podem modificar o risco, mas não da mesma forma.
Nos anticoncepcionais, a maior atenção recai sobre os métodos hormonais combinados, ou seja, aqueles que possuem estrogênio associado a outro hormônio chamado progestagênio.
Em linguagem simples: são métodos que usam dois tipos de hormônio juntos. Eles podem existir como comprimido, adesivo ou anel vaginal.
Estudos observacionais indicam que anticoncepcionais hormonais combinados aumentam o risco de tromboembolismo venoso em aproximadamente 3 a 3,5 vezes em comparação com mulheres que não usam esses métodos. Entretanto, olhar apenas para esse número pode parecer muito mais assustador do que compreender o risco absoluto.
O que significa risco absoluto?
Uma estimativa da European Medicines Agency, apresentada pela FSRH, calcula aproximadamente:
- 2 casos de tromboembolismo venoso a cada 10 mil mulheres por ano entre mulheres em idade reprodutiva que não usam anticoncepcional hormonal combinado e não estão grávidas;
- aproximadamente 5 a 12 casos a cada 10 mil mulheres por ano entre usuárias de anticoncepcional hormonal combinado, dependendo da formulação.
Esses números são estimativas populacionais para mulheres em idade reprodutiva e não calculam o risco individual de uma mulher específica de 40, 45 ou 49 anos. Idade, peso, histórico de trombose e outros fatores podem modificar bastante essa avaliação.
Esse é um bom exemplo da diferença entre dizer “o risco aumentou” e dizer “qual é a probabilidade real de isso acontecer comigo?”.
Anticoncepcional e terapia hormonal: todo anticoncepcional hormonal tem o mesmo risco?
Não.
Os métodos que contêm estrogênio merecem maior atenção quando falamos em trombose venosa.
Já os métodos que possuem apenas progestagênio geralmente não apresentam o mesmo perfil de risco dos anticoncepcionais combinados. Mesmo assim, existem particularidades entre eles. O anticoncepcional injetável à base de acetato de medroxiprogesterona, por exemplo, exige consideração especial em mulheres com histórico ou alto risco de trombose.
A leitora não precisa decorar nomes ou descobrir sozinha qual hormônio existe em cada método.
O importante é entender que perguntar “uso anticoncepcional, então meu risco aumentou?” é insuficiente. É preciso saber qual anticoncepcional.
E a terapia hormonal da menopausa?
Aqui aparece outra diferença fundamental.
Na terapia hormonal, a forma como o estrogênio é administrado importa bastante.
Quando o estrogênio é tomado por via oral, ele passa primeiro pelo sistema digestivo e pelo fígado. Essa passagem pode interferir em proteínas envolvidas na coagulação.
Quando o estradiol é administrado pela pele, como em adesivos, géis ou sprays, essa primeira passagem pelo fígado é evitada.
Diretrizes do NICE apontam que o risco de tromboembolismo venoso é maior com terapia hormonal oral do que com a transdérmica e recomendam considerar a via transdérmica quando a mulher apresenta maior risco de trombose. Nas doses terapêuticas usuais, a terapia transdérmica não mostrou aumento do risco de VTE em relação ao risco basal nas evidências consideradas pela diretriz.
Isso não significa que adesivo ou gel sejam automaticamente a melhor escolha para toda mulher.
A escolha depende de sintomas, idade, fase da menopausa, presença do útero, histórico médico, risco cardiovascular, risco de trombose, outros medicamentos e preferências individuais.
Leia também: Terapia hormonal e enxaqueca: o que avaliar?
Um detalhe importante: adesivo anticoncepcional não é igual a adesivo de terapia hormonal
Essa diferença pode gerar muita confusão.
Um adesivo anticoncepcional combinado continua sendo um anticoncepcional que contém estrogênio e progestagênio. Não devemos assumir que ele tem o mesmo perfil de risco do estradiol transdérmico utilizado na terapia hormonal da menopausa.
Em outras palavras: “passar pela pele” não torna todos os produtos hormonais equivalentes.
Formulação, dose e objetivo do tratamento também importam.
Anticoncepcional e terapia hormonal: quem precisa de uma avaliação mais cuidadosa?
Antes de prescrever anticoncepcional e terapia hormonal, o profissional precisa conhecer a história daquela mulher.
Entre os pontos importantes estão:
- trombose ou embolia pulmonar anteriores;
- história de trombose em mãe, pai ou irmãos;
- trombofilia conhecida;
- idade;
- obesidade;
- tabagismo;
- cirurgia recente;
- períodos prolongados de imobilidade;
- fraturas importantes;
- câncer ativo ou alguns tratamentos para câncer;
- outras doenças cardiovasculares ou condições que aumentem o risco de coagulação;
- medicamentos em uso.
Nenhum item deve ser analisado isoladamente.
Uma mulher pode ter um fator de risco e ainda possuir opções adequadas de contracepção ou de tratamento para a menopausa. O que muda é a necessidade de escolher com mais cuidado.
Leia também: Tabagismo e menopausa: impactos no corpo da mulher
Se você já teve trombose, possui familiares próximos com histórico de coágulos ou está em dúvida sobre qual opção hormonal é mais adequada, não precisa tentar interpretar o risco sozinha. Consulte o Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa para encontrar profissionais que possam avaliar seu caso. Encontre um especialista agora mesmo.
Anticoncepcional e terapia hormonal: o histórico familiar de trombose importa?
Sim, principalmente quando existe um histórico forte em parentes próximos, como mãe, pai, irmãos ou filhos.
Vale contar ao profissional:
- quem teve trombose;
- em que idade isso aconteceu;
- se havia uma situação que poderia ter desencadeado o problema, como cirurgia, gravidez ou imobilidade;
- se aconteceram episódios repetidos;
- se alguma trombofilia foi identificada na família.
O NICE recomenda avaliação especializada antes de considerar terapia hormonal para pessoas com alto risco de tromboembolismo, como aquelas com forte histórico familiar ou trombofilia hereditária.
Histórico familiar, porém, não significa automaticamente que você tenha uma trombofilia ou que todos os hormônios estejam proibidos.
O que é trombofilia?
Trombofilia é uma condição que faz o sangue apresentar maior tendência a formar coágulos.
Algumas trombofilias são herdadas geneticamente. Outras são adquiridas ao longo da vida.
Não é necessário decorar nomes como fator V de Leiden, mutação da protrombina ou deficiência de proteínas da coagulação. Para a maioria das mulheres, o mais importante é saber que essas alterações existem e que algumas delas podem modificar decisões sobre tratamentos hormonais.
Preciso fazer exames de trombofilia antes de usar hormônios?
Não necessariamente.
Fazer uma grande bateria de exames para todas as mulheres antes de iniciar anticoncepcional não é recomendado. O CDC afirma que o rastreamento rotineiro de trombofilias na população geral antes do início de contraceptivos não é indicado.
O tipo de investigação depende da história individual.
Por exemplo, uma mulher que nunca teve trombose, não possui histórico familiar relevante e não apresenta outros indícios pode seguir uma avaliação bastante diferente daquela que teve uma trombose jovem, episódios repetidos ou vários familiares afetados.
Quando há indicação, o profissional pode solicitar exames específicos para alterações hereditárias ou adquiridas da coagulação. Em algumas situações, a avaliação com hematologista também pode ser necessária.
Portanto, aqui vale evitar os dois extremos: nem todas precisam investigar tudo, nem um histórico suspeito deve ser ignorado.
E se eu já tive trombose?
Uma trombose ou embolia pulmonar anterior muda significativamente a conversa.
No caso dos anticoncepcionais combinados contendo estrogênio, determinadas situações de trombose prévia ou alto risco de recorrência tornam esses métodos inadequados segundo critérios internacionais de elegibilidade contraceptiva. Outros métodos podem continuar disponíveis dependendo do contexto.
Na menopausa, o raciocínio também precisa ser individualizado. Histórico de trombose não deve levar a mulher a iniciar ou descartar terapia hormonal por conta própria.
Em situações de risco elevado, diretrizes recomendam avaliação especializada e, quando uma terapia hormonal é considerada apropriada, a via de administração entra de forma importante na decisão.
Anticoncepcional e terapia hormonal: estrogênio vaginal também aumenta o risco de trombose?
O estrogênio vaginal utilizado em baixas doses para tratar ressecamento, dor, ardor ou sintomas urinários da menopausa é diferente da terapia hormonal sistêmica.
Esses produtos procuram agir principalmente nos tecidos vaginais e vulvares e apresentam absorção sistêmica muito menor. Por isso, a avaliação de risco não é igual àquela utilizada para estrogênio oral sistêmico. Dados revisados pelo ACOG também apontam ausência de efeito detectável sobre proteínas da coagulação nas formulações vaginais locais de baixa dose.
Ainda assim, histórico médico deve entrar na conversa, principalmente em situações clínicas mais complexas.

Quais são os sinais de alerta para trombose?
A trombose venosa profunda pode não causar sintomas. Quando aparecem, é comum que ocorram principalmente em uma das pernas.
Procure avaliação diante de sinais como:
- inchaço novo, principalmente unilateral;
- dor ou sensibilidade sem explicação clara;
- aumento da temperatura da região;
- vermelhidão ou mudança de cor da pele;
- sensação de endurecimento ou rigidez na região.
E caroços na perna?
Um caroço endurecido e doloroso ou uma veia que parece um cordão sob a pele pode aparecer em uma trombose de veias mais superficiais, chamada tromboflebite superficial.
Isso não é o sinal clássico de uma trombose venosa profunda e não permite fazer diagnóstico em casa. Como algumas tromboses superficiais precisam de avaliação para verificar sua extensão e proximidade das veias profundas, um nódulo doloroso associado a vermelhidão, calor ou inchaço merece atenção médica.
Embolia pulmonar: quando procurar atendimento imediatamente?
Quando um coágulo chega aos pulmões, os sintomas podem surgir de maneira súbita.
Sinais de alerta incluem:
- falta de ar inesperada;
- respiração acelerada;
- palpitações ou batimentos muito rápidos;
- dor no peito;
- tosse com sangue;
- tontura ou desmaio;
- dor incomum no peito ou nas costas.
A dor nas costas, isoladamente, pode ter inúmeras causas e não deve ser tratada como sinal específico de embolia pulmonar. Porém, dor nova e incomum nas costas acompanhada de falta de ar, dor no peito, palpitação, desmaio ou outros sintomas respiratórios precisa de avaliação imediata.
Nesses casos, não espere para ver se melhora.
É possível reduzir o risco de trombose?
Alguns fatores não podem ser modificados, como genética ou eventos anteriores. Outros podem ser trabalhados.
Manter-se fisicamente ativa, evitar longos períodos sem movimentar as pernas, cuidar do peso e não fumar contribuem para reduzir fatores associados ao risco vascular.
Durante viagens longas, especialmente acima de quatro horas, movimentar as pernas e levantar-se periodicamente ajuda a manter o fluxo sanguíneo. Para pessoas com fatores adicionais de risco, meias de compressão graduada podem ser recomendadas, mas elas não precisam ser usadas por todas as pessoas e o tamanho e a compressão adequados devem ser orientados.
Depois de cirurgias, internações ou períodos de imobilidade, a estratégia de prevenção pode ser diferente e, em alguns casos, incluir medicamentos anticoagulantes. Isso deve ser definido pela equipe de saúde.
E um ponto essencial: hábitos saudáveis não anulam uma contraindicação médica ao uso de determinada formulação hormonal.
Mitos e verdades sobre anticoncepcional e terapia hormonal
“Todo hormônio causa trombose.”
Mito.
A relação depende do hormônio, da dose, da formulação, da via e do risco individual. Anticoncepcionais combinados, métodos somente com progestagênio, estrogênio oral da menopausa, estradiol transdérmico e estrogênio vaginal não podem ser colocados todos na mesma categoria.
“Se é adesivo, sempre tem menor risco.”
Mito.
O adesivo de estradiol usado na terapia hormonal da menopausa não é equivalente ao adesivo anticoncepcional combinado. São tratamentos diferentes.
“Se ninguém na minha família teve trombose, meu risco é zero.”
Mito.
História familiar é apenas uma parte da avaliação. Idade, doenças, cirurgia, imobilidade, obesidade, câncer, medicamentos e outros fatores também podem contribuir.
Anticoncepcional e terapia hormonal: o que levar para a consulta?
Antes de conversar sobre anticoncepcional e terapia hormonal, tente organizar algumas informações simples: quais medicamentos e hormônios você usa atualmente, se fuma, se já teve trombose, se algum familiar próximo teve trombose, cirurgias recentes, períodos de imobilização, doenças em acompanhamento e seu objetivo naquele momento, contracepção, tratamento dos sintomas da menopausa ou ambos.
Essa conversa também precisa incluir suas preferências.
A escolha mais segura não é simplesmente a que apresenta o menor risco teórico. É aquela em que benefícios, riscos, alternativas e necessidades reais daquela mulher foram avaliados em conjunto.
Informação também é prevenção
O Dia Nacional de Combate e Prevenção à Trombose existe para lembrar que conhecer fatores de risco e reconhecer sintomas pode fazer diferença.
Quando o assunto envolve anticoncepcional e terapia hormonal, prevenção também significa evitar conclusões simplistas.
Anticoncepcionais e terapia hormonal não são tratamentos equivalentes. Dentro de cada grupo existem formulações diferentes. Uma mulher com histórico de trombose não recebe a mesma avaliação daquela sem fatores importantes de risco. E escolher entre comprimido, adesivo, gel, DIU ou outras alternativas exige olhar para muito mais do que o nome “hormônio”.
Ter um fator de risco também não significa automaticamente que nenhuma opção hormonal seja possível.
Significa que aquela decisão merece individualização, acompanhamento e uma conversa clara sobre riscos e benefícios.
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Referências
- Ministério da Saúde. Trombose — Saúde de A a Z. Informações sobre fatores de risco, sintomas, diagnóstico e complicações.
- Biblioteca Virtual em Saúde — Ministério da Saúde. Dia Nacional de Combate e Prevenção à Trombose, 2026.
- Centers for Disease Control and Prevention. U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024.
- Faculty of Sexual & Reproductive Health-care. Combined Hormonal Contraception Guideline, amended 2023.
- National Institute for Health and Care Excellence — NICE. Menopause: identification and management. Recomendações atualizadas.
- American Society of Hematology. Clinical Practice Guidelines on Venous Thromboembolism: Thrombophilia Testing, 2023.
- American College of Obstetricians and Gynecologists — ACOG. Postmenopausal Estrogen Therapy: Route of Administration and Risk of Venous Thromboembolism.
- CDC. Understanding Your Risk for Blood Clots with Travel;
- CDC. Yellow Book 2026 — Deep Vein Thrombosis and Pulmonary Embolism.






