Se você está na perimenopausa ou na menopausa e sente medo de perder a memória ou desenvolver Alzheimer, não está sozinha. A relação entre menopausa e demência está cada vez mais em destaque na ciência e na mídia.
A boa notícia é que entender essa conexão ajuda a tirar parte do medo. A menopausa é uma transição hormonal e também neurológica, e isso ajuda a explicar sintomas como fogachos, insônia, oscilações de humor, ansiedade e a famosa névoa mental.
Isso não significa que toda mulher na menopausa terá demência. Mas mostra que esse é um período crítico para o cérebro feminino – e uma janela importante para cuidar da saúde cerebral e reduzir riscos ao longo da vida.
Menopausa e demência: o que muda no cérebro feminino?
Os estrogênios não atuam apenas nos ovários. Eles funcionam como verdadeiros protetores neurais, ajudando a regular:
- o uso da glicose como combustível do cérebro
- o funcionamento das mitocôndrias (as “usinas de energia” das células)
- a comunicação entre neurônios
- o controle da inflamação no sistema nervoso
Na transição da menopausa, com a queda do estradiol, o cérebro entra em uma espécie de “crise energética”. Estudos de neuroimagem mostram redução de 20–25% no metabolismo da glicose em áreas ligadas à memória, como o hipocampo, em mulheres na perimenopausa e pós-menopausa.
Essa combinação de menos energia + mais inflamação está associada a:
- maior depósito de beta-amiloide (proteína ligada ao Alzheimer)
- maior acúmulo de proteína tau, envolvida na morte de neurônios
- redução de substância branca e cinzenta em regiões importantes para memória e atenção
Em outras palavras, a menopausa é um ponto de virada para o cérebro, especialmente em mulheres que já carregam outros fatores de risco.
Menopausa e demência: por que as mulheres são mais afetadas?
Os dados globais mostram que as mulheres representam cerca de dois terços dos casos de Alzheimer, e o risco ao longo da vida é maior em comparação aos homens da mesma idade.
Esse cenário é resultado de vários fatores que se somam:
- Longevidade: mulheres vivem mais, e idade avançada é o principal fator de risco para demência.
- Menopausa e demência: a perda de estrogênio retira uma camada importante de proteção do cérebro feminino.
- Genética: o gene APOE ε4, principal fator genético para Alzheimer tardio, parece ter impacto mais forte em mulheres do que em homens.
- Contexto social: desigualdades em educação, trabalho, renda e sobrecarga de cuidados ao longo da vida também influenciam o risco de demência.
Ou seja, não é “só porque as mulheres vivem mais”. A combinação de menopausa, demência, genética e desigualdade de gênero ajuda a explicar por que elas são mais vulneráveis.
Menopausa e demência na menopausa precoce e cirúrgica
Um ponto importante para a leitora – e para os profissionais de saúde – é que a idade da menopausa importa muito para o cérebro.
Estudos mostram que:
- Menopausa antes dos 40 anos aumenta o risco de demência em relação à menopausa em torno dos 50 anos.
- Entre 40 e 49 anos também está associada a maior risco, dependendo de outros fatores.
- Menopausa cirúrgica (remoção dos ovários) em idade jovem está ligada a declínio cognitivo mais rápido e maior carga de alterações típicas de Alzheimer no cérebro.
Nesses casos, a mulher perde anos de exposição ao estrogênio, justamente em uma fase em que o cérebro ainda poderia se beneficiar dessa proteção.
Por isso, diretrizes internacionais recomendam que mulheres com menopausa precoce ou insuficiência ovariana prematura sejam avaliadas com cuidado, incluindo impacto sobre saúde óssea, cardiovascular e cognitiva.
Terapia hormonal na menopausa e demência: vilã ou aliada?
Talvez você já tenha ouvido que “hormônio dá demência” ou, ao contrário, que “hormônio evita Alzheimer”. A verdade é que a relação entre terapia hormonal, menopausa e demência é mais complexa e depende principalmente de quando e como a terapia é usada.
A hipótese da “janela de oportunidade”
Estudos recentes reforçam a hipótese da janela crítica:
- Quando a terapia hormonal é iniciada na perimenopausa ou nos primeiros anos após a menopausa, o efeito parece ser protetor ou neutro para o risco de demência em muitas mulheres.
- Quando a terapia é iniciada tardiamente (após os 65 anos ou mais de 10 anos depois da menopausa), o risco de demência pode aumentar em alguns cenários.
Além do momento de início, outros fatores importam:
- Via de administração:
- estrogênio oral está mais associado a risco cardiovascular e, em alguns estudos, a maior risco de demência vascular;
- estrogênio transdérmico (adesivo ou gel) tem perfil mais seguro para coagulação e vasos, e não mostrou aumento consistente de risco de demência.
- Tipo de progesterona: progesterona micronizada (mais próxima do hormônio natural) parece ter perfil mais amigável para o cérebro do que algumas progestinas sintéticas.
Estudos também sugerem que mulheres com APOE ε4 (alta carga genética para Alzheimer) podem se beneficiar de terapia hormonal iniciada cedo, com redução relativa do risco de demência em comparação a mulheres semelhantes que não usam hormônio. Mas essa área ainda está em intensa pesquisa.
💬 Resumo prático:
- Terapia hormonal não deve ser usada apenas “para prevenir demência”, mas o manejo adequado da menopausa – incluindo THM quando bem indicada – pode fazer parte de uma estratégia de proteção cerebral.
- A decisão é sempre individual, feita com ginecologista ou endocrinologista, considerando histórico de câncer, risco cardiovascular, intensidade dos sintomas e preferências da mulher.
Menopausa, demência e o contexto brasileiro
No Brasil, estimativas sugerem que uma parcela importante dos casos de demência está ligada a fatores de risco modificáveis, como baixa escolaridade, hipertensão, diabetes, perda auditiva, obesidade e sedentarismo.
Ao mesmo tempo:
- muitas mulheres atravessam a menopausa com sintomas intensos, sem acesso a informação de qualidade;
- uma parte significativa não recebe nenhum tratamento, seja hormonal ou não hormonal;
- o acesso a terapias mais modernas (como estrogênio transdérmico) ainda é desigual entre sistema público e privado.
Isso significa que um grande número de brasileiras vive a transição menopausal em meio a sono ruim, estresse crônico, pressão alta descontrolada ou glicemia elevada – fatores que também pesam na saúde do cérebro.
Cuidar da menopausa, especialmente em mulheres 40+, é também cuidar da prevenção de demência nas próximas décadas.
Fatores que aumentam o risco de demência na menopausa
Além da própria transição hormonal, alguns fatores se somam e ampliam o risco de demência em mulheres na meia-idade e pós-menopausa:
- menopausa precoce (antes dos 40–45 anos)
- menopausa cirúrgica sem reposição adequada
- hipertensão mal controlada
- diabetes tipo 2
- colesterol alto e doença cardiovascular
- sedentarismo e obesidade
- tabagismo
- depressão não tratada
- baixa escolaridade e pouca estimulação cognitiva ao longo da vida
A boa notícia é que muitos desses fatores são modificáveis. E é aqui que entram as estratégias de proteção.
Como proteger o cérebro na menopausa e reduzir o risco de demência
Mesmo com a influência da genética e do envelhecimento, há muito que pode ser feito para apoiar o cérebro durante e após a menopausa.
1. Cuidar do coração é cuidar do cérebro
O que protege o coração, protege o cérebro:
- controlar pressão arterial
- manter glicemia sob supervisão, especialmente em caso de pré-diabetes ou diabetes tipo 2
- checar colesterol e triglicerídeos com regularidade
- tratar arritmias e outras doenças cardiovasculares quando presentes
Esses cuidados reduzem o risco de demência vascular e de quadros mistos (vascular + Alzheimer).
2. Alimentação amiga do cérebro
Padrões alimentares como a dieta mediterrânea e a dieta MIND (focada em saúde do cérebro) estão associados a menor risco de demência. Em geral, eles priorizam:
- frutas e vegetais, com destaque para folhas verdes escuras
- azeite de oliva como principal fonte de gordura
- peixes, nozes e sementes
- leguminosas (feijões, lentilha, grão-de-bico)
- redução de ultraprocessados, frituras, excesso de açúcar e carnes muito gordurosas
Esse tipo de alimentação ajuda a controlar inflamação e melhora a saúde dos vasos que irrigam o cérebro.
3. Movimento: exercício como “remédio” neurológico
A atividade física é um dos pilares mais consistentes na prevenção de demência:
- exercício aeróbico (caminhada rápida, dança, bicicleta, natação) melhora a circulação cerebral;
- treino de força estimula a produção de fatores que favorecem a plasticidade do hipocampo, região crítica para a memória.
Mulheres na pós-menopausa que se exercitam regularmente tendem a apresentar melhor desempenho cognitivo e menor risco de declínio ao longo do tempo.
4. Sono, saúde emocional e névoa mental
Insônia, sono fragmentado, fogachos noturnos e sintomas depressivos estão ligados a pior desempenho cognitivo, especialmente quando se prolongam por meses ou anos.
Por isso, faz diferença:
- cuidar da higiene do sono (rotina, luz, telas, cafeína)
- tratar ondas de calor que atrapalham o descanso noturno
- buscar apoio psicológico ou psiquiátrico quando necessário
Lembrar que névoa mental na menopausa não é “frescura” nem sinal de fracasso pessoal – é um sintoma real e merece acolhimento e cuidado.
Além das abordagens comportamentais, algumas mulheres conversam com seus profissionais de saúde sobre o uso de nutracêuticos como apoio ao cérebro e ao sono. A fosfatidilserina, por exemplo, é um fosfolipídeo presente naturalmente nas membranas dos neurônios e vem sendo estudada como coadjuvante na função cognitiva (atenção, foco e memória). O Balance, suplemento da Kefi, combina fosfatidilserina a outros nutrientes pensados para o período do climatério, podendo ser uma opção a ser discutida com o time de saúde quando a queixa principal é “cansaço mental” ou dificuldade de concentração na menopausa, especialmente no contexto de medo de demência.
Já para o sono, que é um eixo central na relação entre menopausa e demência, produtos como o Sleepy foram formulados para ajudar na rotina noturna, favorecendo a indução e a qualidade do sono. Eles não substituem higiene do sono, terapia ou medicamentos quando necessários, mas podem compor uma estratégia integrada de cuidado, sempre com orientação profissional.
Nem Balance nem Sleepy são medicamentos nem têm indicação de tratar ou prevenir demência; o objetivo é apoiar sintomas do climatério, como névoa mental e insônia, que impactam o bem-estar no dia a dia.
Leia também
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Ouça também – Hora da Menopausa EP 01: Saúde cerebral e mental na menopausa: neste episódio, a Dra. Andressa Stuart e a Dra. Ana Bettega conversam sobre como o climatério impacta o cérebro, explicam sinais de alerta e trazem orientações práticas para cuidar da saúde mental e cognitiva após os 40.
Menopausa e demência: quando conversar com a médica?
Vale buscar uma avaliação mais detalhada quando você:
- passou por menopausa precoce (antes dos 40–45 anos)
- fez cirurgia com retirada dos ovários
- percebe piora progressiva da memória, da atenção ou da organização do dia a dia
- tem histórico familiar forte de Alzheimer ou outras demências
- acumula fatores de risco cardiovasculares (hipertensão, diabetes, colesterol alto, tabagismo)
O acompanhamento pode incluir:
- revisão de medicações em uso
- avaliação de sono, humor e nível de estresse
- exames laboratoriais e de imagem, quando indicados
- discussão sobre terapia hormonal ou alternativas não hormonais, sempre de forma individualizada
O que levar dessa conversa sobre menopausa e demência
- Sim, existe uma relação entre menopausa e demência, especialmente Alzheimer, por causa da perda do efeito protetor dos estrogênios no cérebro.
- Não, isso não é uma sentença. É um convite para olhar com mais carinho para a saúde na meia-idade.
- Menopausa precoce, menopausa cirúrgica e fatores cardiovasculares mal controlados aumentam o risco – mas também são oportunidades de intervenção.
- Terapia hormonal, quando bem indicada e iniciada no momento certo, pode ser uma aliada da saúde cerebral em algumas mulheres, mas não é solução única.
- Estilo de vida, sono, saúde emocional e educação ao longo da vida continuam sendo pilares fundamentais de prevenção.
Encarar a menopausa como um ponto estratégico de cuidado, e não apenas como o fim de um ciclo reprodutivo, pode ajudar a proteger não só o corpo, mas também a mente pelas próximas décadas.
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Referências científicas
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