Exame de testosterona feminina: como interpretar?

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Mulher de 50 anos conversando com médica sobre exame de testosterona feminina em consultório acolhedor, com resultados laboratoriais sobre a mesa.

Você fez um exame de testosterona feminina, abriu o resultado e encontrou um valor marcado como baixo. A primeira reação pode ser de preocupação: será que está faltando algum hormônio? Será que isso explica o cansaço, a queda da libido ou as mudanças que você percebeu depois dos 40 anos?

Essa dúvida é compreensível. Afinal, ouvimos cada vez mais sobre testosterona e saúde feminina, mas nem sempre recebemos explicações claras sobre o que os exames realmente mostram. A boa notícia é que você não precisa transformar um número em diagnóstico. Entender a diferença entre testosterona total, testosterona livre e SHBG ajuda a fazer perguntas melhores e a tomar decisões mais seguras sobre sua saúde.

Exame de testosterona feminina: o que ele avalia?

Embora seja frequentemente associada ao organismo masculino, a testosterona também está presente no corpo feminino.

Ela é produzida pelos ovários e pelas glândulas suprarrenais, além de ser formada pela transformação de outros hormônios em diferentes tecidos.

A testosterona participa de processos relacionados à função sexual e a outras funções fisiológicas. Entretanto, isso não significa que exista um nível ideal de testosterona capaz de garantir energia, disposição ou desejo sexual.

O exame de testosterona feminina avalia a concentração desse hormônio no sangue. Dependendo da solicitação, o laboratório pode apresentar diferentes medidas.

Testosterona total: a quantidade circulante

A testosterona total corresponde à soma da testosterona que circula no sangue, tanto ligada a proteínas quanto na forma livre.

Imagine que a testosterona seja uma passageira que circula pelo organismo. Parte dela viaja acompanhada de proteínas transportadoras, enquanto uma pequena quantidade permanece livre.

A testosterona total considera todas essas formas.

Por isso, costuma ser a principal medida utilizada quando existe indicação clínica para avaliar a concentração do hormônio.

Entretanto, um resultado de testosterona total considerado baixo pelo laboratório não confirma, por si só, uma deficiência hormonal feminina.

Para aprofundar o papel desse hormônio e as indicações de tratamento, leia também Testosterona na menopausa: quando vale a pena?.

Testosterona livre: o que significa?

A testosterona livre corresponde à pequena fração do hormônio que não está ligada às proteínas transportadoras.

Essa fração pode interagir com os tecidos, mas a ação da testosterona no organismo é mais complexa do que simplesmente medir quanto hormônio está livre no sangue.

Outro detalhe importante é que existem diferentes maneiras de obter esse resultado.

Alguns laboratórios utilizam métodos de medição direta. Outros calculam a testosterona livre a partir de informações como testosterona total, SHBG e albumina, outra proteína presente no sangue.

Os métodos diretos mais comuns podem apresentar baixa precisão nas concentrações normalmente encontradas em mulheres.

Por isso, o resultado precisa ser interpretado considerando a técnica utilizada. A testosterona livre calculada também depende da qualidade das medidas usadas no cálculo.

SHBG: a proteína que transporta hormônios

SHBG é a sigla em inglês para Sex Hormone-Binding Globulin, ou globulina ligadora de hormônios sexuais.

Seu papel é transportar e se ligar a hormônios, especialmente testosterona e estradiol.

Quando a SHBG está mais elevada, uma proporção maior da testosterona pode permanecer ligada a essa proteína.

Quando está reduzida, a distribuição entre testosterona ligada e livre pode ser diferente.

Mas atenção: SHBG alta não significa automaticamente deficiência de testosterona, assim como SHBG baixa não representa necessariamente uma condição favorável.

A concentração dessa proteína pode variar conforme características metabólicas, funcionamento da tireoide, uso de medicamentos e tratamentos hormonais.

Como interpretar o exame de testosterona feminina?

Ao observar um resultado laboratorial, é comum procurar imediatamente o intervalo de referência e comparar o próprio valor com os limites apresentados.

Esse é um ponto de partida, mas não deve ser a conclusão.

O exame de testosterona feminina exige alguns cuidados porque as concentrações do hormônio nas mulheres são relativamente pequenas.

O método laboratorial faz diferença

Nem todos os exames medem testosterona com a mesma precisão.

Um método chamado cromatografia líquida associada à espectrometria de massas, conhecido pela sigla LC-MS/MS, apresenta melhor desempenho analítico para quantificar testosterona total em baixas concentrações.

Já alguns imunoensaios, frequentemente utilizados em laboratórios, podem apresentar limitações importantes nessa faixa.

Isso significa que dois resultados obtidos por métodos diferentes podem não ser diretamente comparáveis.

Além disso, os intervalos de referência variam conforme o laboratório, a técnica e a população utilizada para estabelecer esses limites.

As recomendações da International Menopause Society ressaltam que não existe uma concentração sanguínea abaixo da qual seja possível classificar uma mulher, automaticamente, como deficiente em testosterona.

O valor marcado em vermelho no laudo merece interpretação, não uma prescrição automática.

Por que os resultados podem variar?

Diversos fatores podem modificar a concentração de testosterona ou sua interpretação:

  • Idade: a testosterona tende a diminuir gradualmente durante a vida adulta, sem necessariamente apresentar uma queda abrupta na menopausa natural.
  • Horário da coleta: pode influenciar a concentração hormonal, especialmente durante a fase reprodutiva.
  • Fase do ciclo menstrual: pode contribuir para variações em mulheres que ainda menstruam.
  • Anticoncepcionais combinados: podem reduzir a produção de androgênios e aumentar a concentração de SHBG.
  • Estrogênios por via oral: podem elevar a SHBG, modificando a distribuição da testosterona circulante.
  • Condições metabólicas: obesidade, resistência à insulina e diabetes tipo 2 podem estar associadas a concentrações menores de SHBG.
  • Alterações da tireoide: também podem influenciar essa proteína.
  • Método laboratorial: pode produzir diferenças entre resultados, especialmente quando as concentrações são baixas.

Por isso, comparar um exame atual com outro realizado anos antes exige atenção ao contexto clínico e à metodologia.

Também não é recomendado suspender anticoncepcionais, terapia hormonal ou outros medicamentos por conta própria para tentar modificar o resultado.

Exame de testosterona feminina baixo: devo me preocupar?

Encontrar um resultado abaixo do intervalo de referência não significa, necessariamente, que exista uma doença.

Na prática clínica, é importante distinguir duas situações.

A primeira é uma alteração laboratorial que precisa ser compreendida. A segunda é uma condição clínica efetivamente diagnosticada.

Essas situações não são equivalentes.

Durante muito tempo, o termo “deficiência androgênica feminina” foi utilizado para tentar explicar sintomas como falta de energia, cansaço, redução do desejo sexual e alterações de humor.

Entretanto, não existe um critério laboratorial validado que permita diagnosticar essa suposta deficiência apenas pela concentração de testosterona.

Em maio de 2025, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e o Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia publicaram uma nota conjunta reforçando que a dosagem de testosterona não deve ser utilizada rotineiramente para procurar níveis baixos como justificativa para reposição hormonal.

Isso não torna o exame inútil. Significa que ele deve responder a uma pergunta clínica específica.

Recebeu um resultado alterado e não sabe o que significa? Uma avaliação individualizada pode ajudar a compreender o laudo sem conclusões precipitadas. Conheça o Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa.

Médica explicando exame de testosterona feminina para mulher no climatério, destacando testosterona total, testosterona livre e SHBG em uma tela.
Figura 1 – Formas de circulação da testosterona no sangue feminino. A testosterona circula em três formas principais: livre (à esquerda), ligada à globulina ligadora de hormônios sexuais — SHBG (ao centro) e ligada à albumina (à direita). A testosterona livre e a fração ligada à albumina constituem a chamada testosterona biodisponível. Já a ligação à SHBG limita sua disponibilidade imediata para os tecidos. Ilustração esquemática, sem representação de proporções quantitativas reais.

Exame de testosterona feminina e baixa libido

Uma das principais razões pelas quais mulheres procuram dosar testosterona é a percepção de redução do desejo sexual.

A associação parece intuitiva: se a testosterona participa da função sexual, níveis menores deveriam significar menos libido.

Mas o organismo feminino não funciona de maneira tão simples.

O desejo sexual é influenciado por fatores biológicos, psicológicos, emocionais e relacionais.

Entre eles estão:

  • Ressecamento vaginal e dor durante as relações.
  • Qualidade do sono e cansaço persistente.
  • Estresse e sobrecarga mental.
  • Ansiedade, depressão e autoestima.
  • Uso de determinados medicamentos, incluindo alguns antidepressivos.
  • Qualidade do relacionamento e comunicação com a parceria.
  • Mudanças corporais e sintomas do climatério.

Duas mulheres com concentrações semelhantes de testosterona podem apresentar experiências sexuais completamente diferentes.

Da mesma forma, uma mulher com resultado dentro do intervalo de referência pode relatar dificuldades importantes relacionadas ao desejo.

Existe um exame que confirma a causa da baixa libido?

Não.

O consenso internacional sobre o uso de testosterona em mulheres, publicado em 2019, estabelece que nenhum valor sanguíneo de androgênio permite diferenciar, com segurança, mulheres com e sem disfunção sexual.

Isso significa que o exame de testosterona feminina não consegue confirmar nem excluir, sozinho, uma causa hormonal para a baixa libido.

Existe uma condição clínica chamada Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH), caracterizada pela redução persistente do desejo sexual, acompanhada de sofrimento pessoal significativo e avaliada a partir de critérios clínicos.

Seu diagnóstico exige uma investigação abrangente.

É importante destacar que nem toda mulher com desejo sexual reduzido apresenta um transtorno. O desejo varia ao longo da vida, e essa diversidade não deve ser automaticamente transformada em doença.

Se você deseja compreender melhor essas mudanças, recomendamos a leitura de Libido na menopausa: dor, desejo e reconexão.

Um exemplo prático: quando o exame não conta toda a história

Imagine Helena, uma mulher de 49 anos que percebeu uma redução importante do desejo sexual.

Ela solicita um exame de testosterona feminina e encontra a testosterona livre abaixo do intervalo de referência.

Preocupada, começa a pesquisar tratamentos hormonais.

Entretanto, durante a consulta, surgem outras informações relevantes.

Helena utiliza um medicamento hormonal que pode aumentar a SHBG. Também apresenta noites mal dormidas, estresse profissional e desconforto durante as relações.

Nesse cenário, o resultado laboratorial precisa ser analisado junto com esses fatores.

A prioridade pode incluir investigar e tratar a dor, avaliar os efeitos dos medicamentos e melhorar o sono, antes de considerar qualquer tratamento específico para o desejo sexual.

O exemplo é fictício, mas ilustra uma situação frequente: a vida da mulher não cabe em uma única linha do exame.

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Quando o exame de testosterona feminina é útil?

Embora não seja recomendado como rastreamento de uma suposta deficiência hormonal, o exame pode ter indicações específicas.

Uma delas é a investigação de sinais de excesso de androgênios.

Nessas situações, o profissional pode avaliar o exame diante de manifestações como:

  • Crescimento excessivo de pelos em regiões como queixo e tórax.
  • Acne importante ou de início recente.
  • Queda de cabelo com padrão androgenético.
  • Alterações menstruais associadas a suspeitas hormonais.
  • Mudanças rápidas, como engrossamento da voz ou outros sinais de virilização.

Esses sintomas podem estar associados a diferentes condições, e não significam necessariamente que exista algo grave.

Entretanto, alterações intensas ou de aparecimento rápido exigem avaliação médica oportuna.

Outra utilização do exame ocorre no acompanhamento de mulheres que já possuem indicação clínica de terapia com testosterona.

E quando a testosterona é prescrita?

As principais diretrizes reconhecem evidências para considerar o tratamento com testosterona em mulheres na pós-menopausa com diagnóstico de Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, após avaliação clínica completa.

Nesses casos selecionados, a testosterona total pode ser medida antes de iniciar a terapia e durante o acompanhamento.

O objetivo não é diagnosticar a baixa libido por um número, mas identificar concentrações inicialmente elevadas e monitorar a segurança do tratamento, evitando níveis excessivos.

As recomendações internacionais não apoiam o uso indiscriminado de testosterona para emagrecimento, ganho de massa muscular, melhora da disposição ou rejuvenescimento.

Também alertam para os riscos de implantes hormonais, doses excessivas e formulações sem controle adequado.

No Brasil, não há formulação de testosterona aprovada pela Anvisa especificamente para uso feminino, conforme a nota conjunta das sociedades médicas brasileiras de 2025.

Por isso, qualquer proposta terapêutica exige discussão cuidadosa sobre indicação, benefícios, riscos, limitações e acompanhamento.

Exame de testosterona feminina: como se preparar?

O preparo depende da finalidade da investigação e do método utilizado pelo laboratório.

Para investigar excesso de androgênios, algumas diretrizes recomendam a coleta pela manhã, em condições padronizadas e, quando aplicável, em determinado período do ciclo menstrual.

Isso não significa que todas as mulheres precisem seguir exatamente o mesmo preparo.

Antes da coleta, vale esclarecer:

  • Qual é a finalidade do exame?
  • Existe horário recomendado para a coleta?
  • Há necessidade de jejum?
  • O uso de anticoncepcionais ou terapia hormonal interfere na interpretação?
  • Qual método o laboratório utiliza?
  • Como o resultado será usado na avaliação clínica?

Se você ainda tem dúvidas sobre quais exames realmente fazem sentido durante o climatério, leia também Exames hormonais na menopausa: quando pedir?.

Como conversar sobre o resultado na consulta?

Levar o exame para avaliação é importante, mas algumas informações adicionais podem fazer toda a diferença.

Antes da consulta, procure organizar um pequeno histórico com:

  • Sua idade e fase do climatério.
  • Data da última menstruação, quando aplicável.
  • Medicamentos, anticoncepcionais e hormônios utilizados.
  • Sintomas que motivaram a solicitação do exame.
  • Mudanças no sono, no humor ou na sexualidade.
  • Presença de dor durante as relações.
  • Exames anteriores, se disponíveis.
  • Suas principais dúvidas e expectativas.

Você também pode perguntar diretamente: “Esse resultado está realmente alterado para meu contexto? Ele muda alguma decisão sobre minha saúde?”

Uma boa consulta não precisa terminar com uma receita. Às vezes, seu maior benefício será compreender por que determinado tratamento não é necessário.

Quer uma avaliação que considere seus sintomas, seus exames e sua história de saúde? No Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa, você encontra profissionais que podem ajudar a construir um cuidado individualizado e baseado em evidências.

FAQ sobre exame de testosterona feminina

1. Testosterona baixa no exame significa que preciso de reposição?

Não. Um resultado abaixo do intervalo de referência não comprova deficiência de testosterona nem representa indicação automática de tratamento. É necessário considerar a indicação do exame, o método utilizado e o contexto clínico.

2. Posso ter baixa libido mesmo com testosterona normal?

Sim. A libido depende de diversos fatores, incluindo saúde física, emoções, sono, medicamentos, conforto durante as relações e relacionamento. Um valor de testosterona dentro do intervalo de referência não exclui dificuldades sexuais.

3. Preciso estar em jejum para fazer o exame?

Depende da indicação e do protocolo utilizado. Algumas investigações hormonais exigem condições específicas de coleta. Confirme as orientações com o profissional solicitante e o laboratório.

4. Devo repetir um exame de testosterona feminina que veio baixo?

Nem sempre. A necessidade de repetir depende da finalidade do teste, da qualidade da medição e da avaliação clínica. Repetir exames indiscriminadamente pode produzir mais dúvidas sem contribuir para o cuidado.

Sua saúde é muito maior do que um número

O exame de testosterona feminina pode trazer informações relevantes em situações específicas. Mas seu resultado precisa ser interpretado com cuidado, especialmente quando surgem dúvidas sobre libido, disposição e mudanças hormonais após os 40 anos.

A ciência demonstra que não existe um valor isolado capaz de explicar toda a complexidade do desejo sexual feminino ou estabelecer uma deficiência de testosterona que justifique automaticamente sua reposição.

Isso não significa ignorar sintomas ou aceitar desconfortos como parte inevitável do envelhecimento.

Significa investigar com atenção, valorizar sua experiência e buscar soluções que considerem sua saúde de maneira integral.

Você merece compreender seu corpo sem medo, sem promessas milagrosas e sem precisar se encaixar em um número de laboratório.

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Referências científicas

  1. Davis SR et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. 2019;104(10):4660–4666.
  2. Parish SJ et al. International Society for the Study of Women’s Sexual Health Clinical Practice Guideline for the Use of Systemic Testosterone for Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women. Journal of Sexual Medicine. 2021;18(5):849–867. Acessar publicação.
  3. International Menopause Society. IMS recommendations and key messages on women’s midlife health and menopause. Climacteric. DOI: 10.1080/13697137.2025.2585487.
  4. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, FEBRASGO e Departamento de Cardiologia da Mulher da SBC. Nota conjunta sobre o uso de testosterona na mulher. 3 de maio de 2025
  5. Elhassan YS et al. Society for Endocrinology Clinical Practice Guideline for the Evaluation of Androgen Excess in Women. Clinical Endocrinology. 2025.
  6. Pilnik S et al. Androgen therapy in midlife and older women: a position statement of the Latin American Association of Gynecological Endocrinology. Climacteric. 2025.

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