A esclerose múltipla pode começar com sintomas que parecem pouco específicos: uma fadiga fora do habitual, visão embaçada, formigamentos, perda de força, dificuldade de equilíbrio ou mudanças na concentração. Como essas manifestações podem aparecer e desaparecer, nem sempre recebem atenção logo no início.
No Brasil, 30 de agosto é o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla, instituído pela Lei nº 11.303/2006 para ampliar o conhecimento sobre a doença e chamar atenção para a importância do diagnóstico e do tratamento adequados.
Isso não significa que sentir cansaço, esquecer uma palavra ou ter um formigamento seja sinal de esclerose múltipla. Esses sintomas têm muitas causas possíveis. O ponto é outro: quando algo é novo, persistente, recorrente ou vem acompanhado de outros sinais neurológicos, merece ser investigado.
Está percebendo sintomas que mudaram sua rotina ou não sabe por onde começar a investigação? No Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa, você encontra profissionais de diferentes áreas para uma avaliação individualizada.
O que é esclerose múltipla?
A esclerose múltipla é uma doença crônica que afeta o sistema nervoso central, principalmente o cérebro e a medula espinhal.
Para entender o que acontece, imagine os nervos como fios elétricos. Muitos deles são revestidos por uma camada protetora chamada mielina, que ajuda a mensagem elétrica a viajar de maneira rápida e organizada.
Na esclerose múltipla, o sistema imunológico passa a atacar estruturas do próprio sistema nervoso, incluindo a mielina. Isso provoca inflamação e pode formar áreas de lesão.
Quando a transmissão das mensagens nervosas é prejudicada, diferentes funções podem ser afetadas: visão, força, sensibilidade, equilíbrio, movimento, controle da bexiga, raciocínio e outras.
Por isso, não existe um único “sintoma típico” presente em todas as pessoas.
Por que a esclerose múltipla é mais comum em mulheres?
A esclerose múltipla pode ocorrer em pessoas de diferentes idades, mas costuma ser diagnosticada principalmente em adultos jovens.
Dados de órgãos de saúde indicam que ela ocorre com maior frequência em mulheres. No Brasil, materiais do Ministério da Saúde apontam ocorrência aproximadamente duas a três vezes maior em mulheres do que em homens, dependendo da população considerada.
A causa da doença ainda não é completamente conhecida. As evidências apontam para uma combinação de fatores genéticos, ambientais e imunológicos, e não para uma causa única.
Ser mulher, portanto, não significa que a doença irá acontecer. Significa apenas que, do ponto de vista epidemiológico, ela é mais frequente no sexo feminino.
Quais são os principais sintomas da esclerose múltipla?
Os sintomas da esclerose múltipla variam bastante porque dependem de quais regiões do sistema nervoso foram afetadas.
Algumas pessoas apresentam manifestações discretas. Outras percebem alterações mais evidentes. Os sintomas também podem surgir em momentos diferentes ao longo da vida.
Alterações de visão
Podem ocorrer:
- visão embaçada;
- visão dupla;
- redução da visão;
- alterações relacionadas ao nervo óptico.
Uma alteração visual nova, principalmente quando persistente ou acompanhada de outros sintomas neurológicos, precisa ser avaliada.
Formigamento e alterações de sensibilidade
Algumas pessoas relatam:
- dormência;
- formigamento;
- sensação de queimação;
- redução ou alteração da sensibilidade.
Um formigamento ocasional pode ter inúmeras explicações. O que chama mais atenção é um sintoma persistente, recorrente ou associado a outras alterações neurológicas.
Fraqueza e alterações de movimento
A esclerose múltipla também pode provocar:
- fraqueza em um ou mais membros;
- rigidez muscular;
- dificuldade para movimentar uma parte do corpo;
- dificuldade para caminhar.
Essas manifestações podem ter intensidades muito diferentes entre as pessoas.
Problemas de equilíbrio e coordenação
Desequilíbrio, tremores, falta de coordenação e instabilidade ao caminhar estão entre as manifestações possíveis da doença.
Alterações urinárias e intestinais
O sistema nervoso participa do controle da bexiga e do intestino. Por isso, algumas pessoas com esclerose múltipla podem apresentar alterações urinárias ou intestinais.
Esses sintomas também são muito frequentes em várias outras condições, portanto não devem ser interpretados isoladamente como sinais da doença.
Alterações cognitivas
A esclerose múltipla também pode afetar funções cognitivas, aquelas relacionadas ao processamento das informações pelo cérebro.
Podem aparecer dificuldades em áreas como:
- atenção;
- concentração;
- memória;
- velocidade de raciocínio;
- organização de tarefas.
Isso não significa necessariamente perda importante de capacidade intelectual. As manifestações cognitivas também variam muito de pessoa para pessoa.
Fadiga na esclerose múltipla é apenas cansaço?
Não necessariamente.
A fadiga é uma das manifestações mais relatadas na esclerose múltipla e pode ser diferente daquele cansaço esperado depois de um dia muito movimentado.
Ela pode surgir de maneira intensa, ser desproporcional ao esforço realizado e interferir em atividades simples do cotidiano. Materiais de conscientização do Ministério da Saúde também destacam que a fadiga pode piorar durante esforço físico ou exposição ao calor.
Mas existe um cuidado importante: fadiga não é específica da esclerose múltipla.
Anemia, alterações da tireoide, distúrbios do sono, infecções, problemas emocionais, medicamentos, deficiências nutricionais e muitas outras condições também podem provocar cansaço.
Por isso, o padrão dos sintomas e a avaliação clínica são muito mais importantes do que uma manifestação isolada.
Leia também: Cansaço na menopausa: causas, sinais e o que fazer.
Esclerose múltipla e calor: o que é o fenômeno de Uhthoff?
Um aspecto menos conhecido da esclerose múltipla é que o aumento da temperatura corporal pode piorar temporariamente alguns sintomas neurológicos.
Isso pode acontecer, por exemplo, durante:
- dias muito quentes;
- febre;
- banho muito quente;
- exercícios que elevam bastante a temperatura corporal.
Essa reação é conhecida como fenômeno de Uhthoff.
De maneira simplificada, nervos que já tiveram perda de mielina podem ter mais dificuldade para transmitir os sinais quando a temperatura aumenta. A pessoa pode perceber temporariamente maior fadiga, visão pior, fraqueza ou outros sintomas que já havia apresentado.
Piora com calor significa que a doença está avançando?
Não necessariamente.
No fenômeno de Uhthoff, a piora costuma ser temporária e reversível, melhorando quando a temperatura corporal retorna ao normal.
Isso é diferente de concluir automaticamente que ocorreu uma nova lesão ou um novo surto da doença.
Por outro lado, sintomas novos ou uma piora persistente devem ser discutidos com o neurologista.
Quais sinais merecem investigação?
Uma lista de sintomas nunca deve funcionar como um teste doméstico para esclerose múltipla.
Muitas condições podem provocar alterações semelhantes.
Ainda assim, alguns padrões justificam procurar avaliação médica, especialmente quando surgem pela primeira vez:
- perda ou alteração persistente da visão;
- visão dupla;
- fraqueza nova em braço ou perna;
- dormência ou formigamento persistente;
- dificuldade nova para caminhar;
- desequilíbrio ou perda de coordenação;
- alterações neurológicas que aparecem repetidamente;
- combinação de sintomas sensitivos, visuais ou motores;
- sintomas que interferem de maneira importante nas atividades diárias.
Também importa observar como o quadro começou, quanto tempo dura, se desaparece e volta, se está evoluindo e quais sintomas aparecem juntos.
Se algum sintoma está persistindo, se repetindo ou comprometendo suas atividades, evite tentar encaixá-lo sozinha em uma lista de doenças. O Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa pode ajudar você a encontrar profissionais para iniciar uma investigação adequada.
Importante: sintomas neurológicos intensos e de início súbito exigem avaliação imediata, porque outras condições agudas também precisam ser consideradas.
Como a esclerose múltipla é diagnosticada?
Não existe um único exame de sangue, imagem ou teste capaz de responder sozinho: “você tem esclerose múltipla”.
O diagnóstico é como montar um quebra-cabeça.
O neurologista combina informações sobre:
- história dos sintomas;
- exame neurológico;
- localização das possíveis alterações;
- resultados de exames;
- evolução do quadro ao longo do tempo;
- exclusão de outras doenças capazes de provocar sintomas semelhantes.
Os critérios internacionais atuais utilizam evidências clínicas e exames complementares para demonstrar características compatíveis com lesões do sistema nervoso central.
Ressonância magnética
A ressonância magnética é um dos principais exames utilizados na investigação.
Ela permite observar cérebro e, quando necessário, medula espinhal em busca de lesões com características e distribuição que possam ser compatíveis com a doença.
Encontrar uma alteração na ressonância, porém, não significa automaticamente ter esclerose múltipla. Existem outras causas de alterações na substância branca do cérebro.
Exames de sangue
Exames laboratoriais podem ajudar principalmente a procurar outras doenças que poderiam explicar aqueles sintomas.
Deficiências nutricionais, doenças inflamatórias, infecções e outras condições neurológicas podem entrar nessa investigação, dependendo de cada caso.
Punção lombar
Em determinadas situações, o neurologista pode solicitar uma punção lombar para analisar o líquido que circula ao redor do cérebro e da medula, chamado liquor ou líquido cefalorraquidiano.
Esse exame pode mostrar sinais de atividade do sistema imunológico no sistema nervoso e complementar a investigação.
Ele não é necessário em todos os casos e seu resultado também não deve ser interpretado isoladamente.

Menopausa ou esclerose múltipla? Onde pode haver confusão
Algumas mulheres chegam aos 40 ou 50 anos justamente quando começam a perceber alterações de sono, memória, energia e temperatura corporal relacionadas ao climatério.
Ao mesmo tempo, mulheres que já vivem com esclerose múltipla também passam pela transição menopausal.
Isso pode gerar sobreposição de sintomas.
Revisões científicas apontam que cognição, fadiga, humor, sono, função urinária e outros sintomas podem se sobrepor entre menopausa e esclerose múltipla, tornando a avaliação individual particularmente importante. Uma revisão publicada em 2026 reforçou essa dificuldade de distinguir determinadas manifestações apenas pela percepção da paciente.
| Sintoma | Pode acontecer no climatério | Pode acontecer na esclerose múltipla |
|---|---|---|
| Fadiga | Sim, especialmente com sono ruim, fogachos e alterações de humor | Sim, podendo ser intensa e desproporcional ao esforço |
| Dificuldade de concentração | Sim, especialmente na perimenopausa | Sim, por alterações cognitivas relacionadas à doença |
| Memória | Lapsos e sensação de “névoa mental” podem ocorrer | Alguns domínios da memória e processamento podem ser afetados |
| Calor | Fogachos provocam sensação súbita de calor e suor | O calor pode piorar temporariamente sintomas neurológicos já existentes |
| Alterações urinárias | Podem ocorrer no contexto da síndrome geniturinária da menopausa | Também podem ocorrer por alteração neurológica do controle da bexiga |
A tabela serve apenas para mostrar por que não é possível diferenciar as duas situações por um sintoma isolado.
A menopausa não deve ser tratada como causa de esclerose múltipla. E ter fadiga, névoa mental ou ondas de calor durante o climatério não significa que exista uma doença neurológica.
O que merece atenção é o conjunto dos sintomas, especialmente quando há manifestações neurológicas novas, persistentes ou progressivas.
Leia também: Esclerose múltipla e menopausa: sinais de alerta.
Esclerose múltipla tem tratamento?
Sim.
Embora atualmente não exista cura para a esclerose múltipla, existem tratamentos capazes de modificar a atividade da doença e reduzir a ocorrência de surtos em muitas pessoas.
Também podem ser utilizados tratamentos específicos para sintomas, além de fisioterapia, atividade física orientada, terapia ocupacional, cuidados com saúde mental e outras estratégias de reabilitação, conforme a necessidade individual.
O tratamento deve ser definido pelo neurologista de acordo com o tipo de doença, atividade, características individuais, outras condições de saúde e riscos e benefícios de cada opção.
A área continua evoluindo. Em abril de 2026, por exemplo, a Anvisa aprovou mais uma terapia modificadora da doença para adultos com formas recorrentes de esclerose múltipla, mostrando como as opções terapêuticas continuam avançando.
Diagnóstico não significa um único futuro
Receber um diagnóstico de esclerose múltipla pode assustar, principalmente porque muitas pessoas ainda associam a doença automaticamente à perda grave de mobilidade.
Mas a evolução é muito variável.
Existem pessoas que permanecem com pouca incapacidade durante muitos anos, enquanto outras precisam de acompanhamento e suporte mais intensos.
Além disso, os tratamentos atuais permitem controlar melhor a atividade da doença do que era possível décadas atrás.
A mensagem da conscientização, portanto, não deve ser de medo.
Deve ser de informação, reconhecimento dos sinais e acesso ao cuidado adequado.
Perguntas frequentes sobre esclerose múltipla
A esclerose múltipla pode aparecer depois dos 40 anos?
Sim. Embora seja mais frequentemente diagnosticada entre adultos jovens, ela pode ser identificada em outras faixas etárias.
A idade, sozinha, não confirma nem exclui o diagnóstico.
Sentir muito calor é sintoma de esclerose múltipla?
Não exatamente.
Na esclerose múltipla, o que pode acontecer é o calor piorar temporariamente sintomas neurológicos existentes, fenômeno conhecido como Uhthoff.
Isso é diferente de uma onda de calor ou fogacho.
Esquecimento significa esclerose múltipla?
Não.
Problemas de atenção, memória e processamento podem fazer parte da doença, mas são sintomas extremamente inespecíficos e possuem muitas outras causas.
A investigação depende do contexto e de outros sinais associados.
A menopausa causa esclerose múltipla?
Até o momento, não há evidência de que a menopausa seja causa da esclerose múltipla.
Em mulheres que já convivem com a doença, entretanto, alguns sintomas da transição menopausal podem se sobrepor às manifestações neurológicas, o que torna o acompanhamento individualizado importante.
Esclerose múltipla tem cura?
Atualmente, não.
Mas existem tratamentos que podem reduzir a atividade inflamatória, diminuir surtos e ajudar a controlar sintomas e preservar qualidade de vida.
Leia também: Névoa mental na menopausa: foco e memória no dia a dia.
Informação ajuda a reconhecer quando investigar
No Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla, a mensagem mais importante não é observar cada sensação do corpo com medo.
É entender que sintomas neurológicos merecem escuta.
Fadiga pode ser apenas fadiga. Um formigamento pode ter diversas causas. Um esquecimento pode acontecer em uma semana de sono ruim.
Mas quando mudanças são persistentes, recorrentes, progressivas ou aparecem combinadas com alterações de visão, sensibilidade, força, equilíbrio ou coordenação, procurar avaliação é a maneira mais segura de encontrar a verdadeira causa.
Seu corpo não precisa caber em um autodiagnóstico. Se algo mudou e merece investigação, o Diretório de Especialistas do Blog da Menopausa pode ajudar você a encontrar profissionais habilitados para olhar o quadro completo.
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Referências
- Ministério da Saúde — Biblioteca Virtual em Saúde. Dia Nacional de Conscientização Sobre a Esclerose Múltipla.
- World Health Organization (WHO). Multiple sclerosis. Fact sheet. 2023.
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — Esclerose Múltipla. 2025.
- Cleveland Clinic Mellen Center. Diagnosing MS Using the 2024 McDonald Criteria.
- Davis SL et al. Thermoregulatory dysfunction in multiple sclerosis. Handbook of Clinical Neurology.
- Morgan D et al. Menopause and multiple sclerosis: a scoping review of symptoms, disease course, and lived experience. Maturitas. 2026.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Esclerose múltipla tem novo tratamento aprovado pela Anvisa. 2026.








