Como reconhecer um relacionamento abusivo e sair dele

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Uma fotografia atmosférica e sombria em uma sala antiga, mostrando a silhueta de uma mulher idosa parada sozinha em frente a uma janela iluminada. Atrás dela, uma sombra gigantesca e ameaçadora de uma figura masculina usando chapéu é projetada na parede e sobre o sofá, dominando o ambiente e simbolizando a presença opressiva e o controle em um relacionamento abusivo.

Viver um relacionamento abusivo não significa apenas apanhar. Muitas vezes, o relacionamento abusivo começa de forma sutil, com pequenas críticas, ciúmes “por cuidado” e controle disfarçado de amor. Quando a mulher percebe, já está presa em um ciclo de culpa, medo, vergonha e esperança de que a pessoa vai mudar.

Se este tema te toca de alguma forma — porque você vive isso, já viveu ou quer ajudar alguém — este texto é para te informar, te acolher e te lembrar de um ponto essencial: é possível sair de um relacionamento abusivo com apoio, planejamento e técnica. Você não está sozinha.

Quando o amor vira armadilha: como começa um relacionamento abusivo

Nem todo relacionamento abusivo começa com um tapa. Na maioria das vezes, ele começa com encantamento, atenção extrema e a sensação de finalmente ter encontrado alguém que “te entende como ninguém”.

O início idealizado: intensidade, promessas e fusão

Muitas mulheres relatam que, no começo, o parceiro parecia perfeito:

  • mensagens o tempo todo;
  • elogios intensos;
  • frases do tipo “nunca amei ninguém assim”;
  • planos rápidos de morar junto, casar ou ter filhos.

Essa fase é conhecida, em alguns contextos, como love bombing: uma explosão de afeto e atenção que cria sensação de exclusividade e destino. A relação vai ficando rápida, intensa e, aos poucos, a mulher começa a organizar a própria vida em função dessa nova pessoa.

O cuidado que se transforma em controle

Depois dessa fase idealizada, certos comportamentos começam a mudar:

  • comentários sobre roupas: “isso está chamando atenção demais”;
  • críticas a amigos e família: “não gosto de como te tratam”;
  • questionamentos constantes: “com quem você estava?”, “por que demorou para responder?”.

À primeira vista, isso pode parecer ciúme por amor ou preocupação. Com o tempo, porém, esses gestos se tornam controle: a mulher passa a evitar saídas, a mudar seu jeito de falar, se vestir e se comportar para evitar conflitos.

O ciclo da violência: tensão, explosão e lua de mel

A dinâmica abusiva costuma seguir um ciclo, que se repete e tende a piorar com o tempo:

  1. Acúmulo de tensão
    Pequenas discussões, indiretas, críticas, silêncios prolongados. A mulher passa a andar “pisando em ovos”, tentando não irritar o parceiro.
  2. Explosão
    Pode ser um ataque de raiva, gritos, xingamentos, empurrões, agressão física ou sexual. É a fase em que a violência aparece de forma mais clara.
  3. Lua de mel
    Depois da explosão, o agressor se mostra arrependido: chora, pede desculpas, promete mudar, diz que “foi a última vez”, compra presentes, volta a ser carinhoso. A mulher sente alívio, acredita na mudança e permanece.

Esse ciclo pode se repetir inúmeras vezes. A cada volta, a violência tende a ser mais intensa, enquanto a autoestima da mulher diminui. É como um laço traumático: a mesma pessoa que machuca é a que “conforta” depois.

Por que é tão difícil sair? Os vieses psicológicos que prendem

Do lado de fora, muitas pessoas perguntam: “por que ela não vai embora?”. Mas, por dentro, a experiência é complexa. Existem mecanismos psicológicos e emocionais que tornam a saída muito difícil.

Dissonância cognitiva: “ele não é assim o tempo todo”

Dissonância cognitiva é o nome dado ao desconforto mental que sentimos quando duas coisas que acreditamos entram em conflito.

No contexto do relacionamento abusivo, isso aparece assim:

  • de um lado, a mulher lembra dos momentos de carinho, cuidado e afeto;
  • de outro, enfrenta episódios de agressão, humilhação e medo.

Para diminuir esse conflito interno, é comum que ela:

  • minimize a violência (“não foi tão grave assim”);
  • racionalize o abuso (“ele estava nervoso”, “bebe demais”, “teve uma infância difícil”);
  • se culpe (“se eu não tivesse falado aquilo, ele não teria explodido”).

A mente tenta proteger a imagem da relação e do parceiro, mesmo que isso custe a segurança da própria mulher.

Normalização do abuso e esperança de mudança

Quando a violência cresce aos poucos — de piadas cruéis para humilhações mais abertas, depois empurrões, até agressões mais severas — é comum que a vítima naturalize esse processo.

Além disso, muitas mulheres:

  • cresceram vendo violência em casa;
  • ouviram a vida inteira que “relacionamento é assim mesmo”;
  • aprenderam que é papel da mulher “aguentar” e “manter a família unida”.

Essas mensagens culturais alimentam a ideia de que “nenhum relacionamento é perfeito” e de que é possível “consertar” o parceiro com paciência e amor. A esperança de mudança se torna uma âncora emocional poderosa.

Laço traumático: quando o abuso parece vício

O chamado trauma bonding (laço traumático) é um vínculo profundo que se forma em relações onde amor e violência se misturam.

Funciona como um reforço intermitente:

  • momentos de terror e humilhação;
  • seguidos de arrependimento, carinho e declarações intensas;
  • seguidos de novas tensões e explosões.

Esse sobe-e-desce emocional ativa mecanismos parecidos com os de um vício. A mulher passa a esperar “a fase boa” de novo, como se, em algum momento, o relacionamento voltasse a ser perfeito “como era no começo”.

Culpa, medo e autodesvalorização

Com o tempo, muitas mulheres passam a acreditar que:

  • não encontrarão ninguém melhor;
  • não conseguirão se sustentar sozinhas;
  • os filhos “precisam do pai/mãe”;
  • a culpa pelo que acontece é delas.

Essas ideias não surgem do nada. São repetidas e reforçadas pelo agressor, que frequentemente diz frases como:

  • “sem mim você não é nada”;
  • “ninguém vai te querer com filhos”;
  • “se você me deixar, acaba para você”.

Tudo isso alimenta um estado de desamparo aprendido: a sensação de que não adianta tentar sair, porque nada vai dar certo.

Sinais de alerta: como identificar um relacionamento tóxico

Nem todo conflito é sinal de abuso. Mas alguns comportamentos são bandeiras vermelhas claras. Se você se reconhece em vários desses sinais, vale acender o alerta.

Controle, ciúme e isolamento

  • O parceiro quer saber onde você está e com quem o tempo todo.
  • Ele implica com suas amizades, família ou colegas.
  • Faz você se sentir culpada por sair sem ele.
  • Fala frases como: “não gosto daquela sua amiga”, “sua família só atrapalha nossa vida”.

Aos poucos, você se afasta de pessoas importantes. Quando percebe, está quase sozinha, tendo apenas o parceiro como referência.

Manipulação emocional e gaslighting

Gaslighting é uma forma de abuso em que o agressor faz a vítima duvidar da própria percepção. Exemplos:

  • você lembra de algo que ele fez, e ele responde: “isso nunca aconteceu, você está louca”;
  • ele nega fatos óbvios ou muda versões de acordo com o interesse;
  • diz que você é exagerada, sensível demais ou instável.

Além disso, é comum que ele:

  • faça chantagem emocional (“se você me deixar, eu me mato”);
  • use o seu passado contra você;
  • desmoralize suas emoções (“você é fraca”, “você é doida”).

O objetivo é quebrar sua confiança em si mesma.

Abuso psicológico, sexual e financeiro

Algumas formas de abuso que nem sempre são reconhecidas de imediato:

  • Psicológico: xingamentos, humilhações, ironias constantes, ridicularizar sua aparência, sua profissão ou sua história.
  • Sexual: forçar relações sem consentimento, chantagear para sexo, fazer práticas que você não deseja, usar sua sexualidade como arma de controle.
  • Financeiro/patrimonial: tomar seu salário, impedir você de trabalhar ou estudar, fazer dívidas no seu nome, quebrar seus objetos, controlar cada gasto.

Se algo te constrange, dói, te diminui ou te coloca em medo constante, isso não é normal. É abuso.

Frases comuns que são sinais de alerta

Algumas frases parecem “normais” no cotidiano, mas revelam padrões abusivos:

  • “Você não vive sem mim.”
  • “Ninguém vai te amar como eu.”
  • “Se você sair por essa porta, não volte mais.”
  • “Olha o que você me obriga a fazer.”

Essas falas revelam controle, ameaça e responsabilização da vítima pelo comportamento agressivo.

É possível sair: técnicas e estratégias para romper com segurança

Sair de um relacionamento abusivo não é um ato único, é um processo. Envolve planejamento, apoio e, muitas vezes, ajuda profissional. E, sim, é possível.

Passo 1: reconhecer que o que você vive é violência

O primeiro passo é interno: dar nome ao que está acontecendo.

  • Não é “briga de casal”, é abuso.
  • É violência, não é “gênio forte”.
  • Não é “ciúme por amor”, é controle.

Reconhecer que a situação é abusiva não significa que você não amou essa pessoa. Significa apenas que ninguém merece viver com medo.

Passo 2: reconstruir sua visão sobre si mesma

A violência corrói a autoestima. Por isso, é muito importante buscar ajuda para reconstruir sua imagem interna.

A terapia psicológica, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), pode ajudar você a:

  • identificar pensamentos distorcidos (“a culpa é minha”, “não vou conseguir sozinha”);
  • entender como o ciclo de abuso se mantém;
  • desenvolver novas formas de se ver e se posicionar;
  • fortalecer sua capacidade de tomar decisões.

Se não for possível acesso imediato à terapia particular, procure:

  • serviços públicos de saúde mental (CAPS, ambulatórios);
  • clínicas-escola de universidades;
  • ONGs e centros de referência para mulheres.

Se você sente que a autoestima foi abalada pelos relacionamentos e pelas mudanças dessa etapa da vida, vale ouvir também o PodKefi 14 | Autoestima e Inteligência Emocional na Menopausa.

Nesse episódio do PodKefi, nossa convidada Maria Rafart, psicóloga e especialista em inteligência emocional e empoderamento feminino, conversa sobre:

  • a importância da inteligência emocional no climatério;
  • estratégias práticas para fortalecer a autoconfiança e enfrentar os desafios emocionais;
  • caminhos de desenvolvimento pessoal, como a Academia Honre Suas Escolhas.

Esse episódio pode ser um apoio importante para te ajudar a olhar para si com mais gentileza, entender o que você sente e começar a construir limites mais saudáveis — inclusive em relacionamentos que te machucam.

Passo 3: buscar redes de apoio e grupos de mulheres

Isolamento é ferramenta de controle. Romper o isolamento é um ato de proteção.

Você pode:

  • retomar contato com uma amiga ou familiar de confiança;
  • contar, aos poucos, o que está acontecendo;
  • entrar em grupos de apoio para mulheres que sofreram violência.

Estudos mostram que grupos de apoio ajudam mulheres a:

  • compreender que não estão sozinhas;
  • reconhecer padrões que não viam antes;
  • ressignificar a culpa;
  • fortalecer autoestima e senso de capacidade.

Ouvir outras histórias e ser ouvida com respeito é profundamente curativo.

Passo 4: planejar a saída com segurança

Em muitos casos, sair de um relacionamento abusivo pode aumentar o risco imediato, especialmente quando o agressor é controlador e violento. Por isso, é importante planejar.

Algumas estratégias que podem fazer parte desse planejamento:

  • deixar cópias de documentos (seus e dos filhos) em local seguro com alguém de confiança;
  • ter uma pequena reserva de dinheiro fora do alcance do agressor;
  • combinar um código com alguém de confiança (uma palavra, emoji, ligação em branco) para pedir ajuda em caso de emergência;
  • mapear locais seguros para ir em situação de risco (casa de familiares, amigos, abrigo, centro de referência);
  • se possível, falar com um profissional ou serviço especializado antes de confrontar o agressor.

Se você está em risco imediato, procure ajuda urgente da polícia (190) e dos serviços especializados da sua cidade.

Passo 5: conhecer seus direitos e buscar apoio jurídico

A Lei Maria da Penha, no Brasil, é uma das legislações mais avançadas do mundo em proteção à mulher em situação de violência. Ela prevê:

  • medidas protetivas de urgência (afastamento, proibição de contato, saída do agressor do lar);
  • atendimento especializado em delegacias da mulher;
  • encaminhamento para rede de apoio psicossocial.

Você pode buscar orientação por meio de:

  • Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 (funciona 24h, em todo o Brasil);
  • Delegacias da Mulher e delegacias comuns;
  • Defensorias públicas e serviços jurídicos gratuitos.

Saber que você tem direitos garantidos por lei ajuda a romper a sensação de impotência.

Passo 6: empoderamento financeiro e projeto de vida

Muitas mulheres permanecem na relação abusiva porque dependem financeiramente do agressor. Fazer um movimento de autonomia econômica, por menor que pareça, importa muito:

  • procurar cursos gratuitos de capacitação;
  • buscar recolocação profissional ou trabalho informal;
  • organizar finanças pessoais, mesmo que com valores pequenos;
  • construir, aos poucos, um plano de vida sem o agressor.

O objetivo não é resolver tudo de uma vez, mas dar passos consistentes na direção da sua liberdade.

As marcas que ficam: impactos na saúde e o risco de feminicídio

Permanecer em um relacionamento abusivo não é “apenas uma fase difícil”. A violência prolongada tem efeitos profundos na saúde da mulher.

Impactos emocionais e mentais

Mulheres que vivem violência por longo tempo podem desenvolver:

  • depressão e ansiedade;
  • síndrome do pânico;
  • insônia crônica;
  • Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT);
  • ideação suicida e comportamentos autodestrutivos.

Essas condições não são sinal de fraqueza. São respostas do corpo e da mente a uma situação extrema de estresse e medo.

Impactos físicos e na saúde sexual e reprodutiva

A violência também pode se manifestar no corpo como:

  • dores crônicas (cabeça, costas, músculos);
  • problemas gastrointestinais (gastrite, intestino irritável);
  • alterações de sono e apetite;
  • lesões, fraturas, hematomas;
  • infecções sexualmente transmissíveis e problemas ginecológicos.

Durante a gestação, a violência aumenta o risco de complicações como parto prematuro, baixo peso ao nascer e perda gestacional.

O extremo da violência: feminicídio

Em muitos países, inclusive o Brasil, uma parcela significativa dos homicídios de mulheres é cometida por parceiros ou ex-parceiros.

Isso significa que, muitas vezes, o agressor que ameaça, humilha, empurra e controla é o mesmo que pode tirar a vida dessa mulher. A progressão do abuso — psicológico, depois físico e ameaças mais graves — é um alerta importante.

Por isso, levar a sério cada sinal de violência é uma forma de prevenção ao feminicídio.

Você não está sozinha: caminhos possíveis a partir de agora

Se você se reconheceu em alguma parte deste texto, respire fundo. Reconhecer já é um passo enorme.

Alguns próximos passos possíveis:

  • conversar com alguém de confiança e quebrar o silêncio;
  • buscar um profissional de saúde mental ou serviço público na sua cidade;
  • ligar para o 180 para se informar sobre seus direitos e opções de ajuda;
  • procurar grupos de apoio ou coletivos de mulheres.

Você não precisa ter todas as respostas hoje. Mas pode, a partir de agora, decidir não normalizar mais o que dói, o que humilha e o que te coloca em risco. Relacionamento saudável não é perfeito, mas nunca é baseado em medo.

Sua vida, seu corpo e sua história têm valor. E merecem ser vividos com respeito, segurança e dignidade.

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