Se você está na faixa dos 40+ e sente que dorme, mas não descansa, saiba que isso pode ir além da insônia. A apneia do sono na menopausa pode aparecer (ou piorar) justamente quando muitos sintomas são atribuídos “só aos hormônios”.
E tem um detalhe importante: em mulheres, a apneia nem sempre vem com o “pacote clássico” de ronco alto e sonolência evidente. Às vezes, ela se disfarça de cansaço, irritabilidade, ansiedade, acordares frequentes e névoa mental.
Apneia do sono na menopausa: por que o risco sobe?
A transição menopausal costuma vir com mudanças hormonais e metabólicas que podem favorecer a apneia: redistribuição de gordura (principalmente abdominal/visceral), mudanças anatômicas e maior instabilidade do sono.
Um achado relevante é que os sintomas/diagnóstico aumentam da peri para a pós-menopausa (ex.: 36% → 53%) e que a gordura visceral parece ter papel mediador importante (relato de ~29,76%).
O papel da gordura visceral (mesmo sem “grande mudança” no IMC)
Você pode até não notar grandes mudanças no peso da balança, mas perceber que a gordura “migrou” para a barriga. A gordura visceral está associada a maior risco cardiometabólico e pode contribuir para piora da apneia.
Apneia do sono na menopausa: sinais que passam batido
Em estudos populacionais, até 40% das mulheres com apneia (IAH > 15) não relatam sintomas clássicos — o que atrasa o diagnóstico.
Sinais comuns em mulheres (incluindo os “atípicos”)
Fique atenta se vários destes sinais acontecem com frequência:
- Insônia (dificuldade para dormir ou manter o sono)
- Cansaço persistente e sensação de sono não reparador
- Dor de cabeça ao acordar
- Palpitações e/ou pesadelos
- Boca seca ou garganta irritada ao despertar
- Névoa mental (esquecimento, dificuldade de concentração)
- Nictúria (levantar para urinar várias vezes à noite)
- Ronco e pausas respiratórias observadas por outra pessoa (podem ser menos percebidos/relatados)
Por que parece “só menopausa”?
Há sobreposição: distúrbios do sono, fadiga, alterações cognitivas e de humor podem ocorrer tanto na menopausa quanto na apneia; daí a importância de investigar quando o sono não restaura.
Apneia do sono na menopausa: como é o diagnóstico
O exame mais completo é a polissonografia noturna em laboratório, considerada padrão-ouro, porque monitora respiração, oxigenação, estágios do sono e despertares.
O que é o IAH e como a gravidade é classificada?
O Índice de Apneia-Hipopneia (IAH) é uma medida central para diagnóstico e gravidade:
- Normal: IAH < 5/h
- Leve: 5–14/h
- Moderada: 15–29/h
- Grave: ≥ 30/h
Por que mulheres podem “escapar” dos critérios tradicionais?
Mulheres tendem a ter IAH mais baixo, eventos mais curtos e mais despertares antes de quedas significativas de oxigênio. Por isso, critérios expandidos (ex.: AHI-3A) podem aumentar a detecção e reduzir disparidades.
Tratamento da apneia do sono na menopausa: o que realmente funciona
A boa notícia: tratar a apneia costuma melhorar energia, humor, foco e reduzir riscos de longo prazo. E o plano pode (e deve) ser individualizado.
CPAP (padrão-ouro)
Para apneia moderada a grave, o CPAP é o padrão-ouro e costuma reduzir mais o IAH e melhorar a oxigenação.
Aparelhos orais (avanço mandibular)
Podem ser opção em casos selecionados (por exemplo, apneia leve a moderada, ou quando há baixa tolerância ao CPAP), sempre com avaliação especializada.
Perda de peso e estilo de vida (quando há sobrepeso/obesidade)
Uma perda de 10–15% do peso pode reduzir a gravidade da apneia aproximadamente pela metade em muitas pessoas. Dieta equilibrada (incluindo padrão mediterrâneo) e exercício regular tendem a ajudar.
Medidas com melhor custo-benefício no dia a dia:
- rotina de sono consistente (higiene do sono)
- reduzir álcool e parar de fumar
- atividade física regular
Tratamentos complementares
Dependendo do caso, podem entrar:
- terapia posicional (evitar dormir de barriga para cima)
- tratamento de congestão nasal
- e, em casos refratários, estratégias avançadas (conforme avaliação médica)
E a terapia hormonal (TRH)?
A evidência é cautelosa: quando controlamos envelhecimento e composição corporal, o papel da TRH no risco de apneia pode ser fraco ou ausente em algumas análises. Ou seja: TRH não é “tratamento de apneia”, e a decisão é médica e individualizada.
Apneia do sono na menopausa e coração: por que vale investigar
A apneia não tratada se associa a pior saúde cardiovascular e pode se relacionar com hipertensão e maior risco de eventos cardiovasculares ao longo do tempo.
Além disso, podem existir impactos em humor/saúde mental e em funções cognitivas, especialmente quando há hipóxia intermitente (quedas repetidas de oxigênio).
Se você já tem fatores como pressão alta, diabetes, colesterol alterado, aumento da circunferência abdominal e cansaço diurno, investigar o sono pode ser uma peça que faltava no cuidado.
Quando procurar avaliação (um guia simples)
Considere conversar com clínica médica, ginecologista, cardiologista ou especialista do sono se você:
- acorda cansada quase todos os dias, mesmo dormindo “horas suficientes”
- tem despertares frequentes, nictúria e/ou dor de cabeça matinal
- percebe piora de memória/atenção e irritabilidade
- tem relato de ronco e/ou pausas respiratórias
Leia também
- Insônia na menopausa: causas, fadiga e como melhorar
- Cansaço na menopausa: causas e como recuperar a energia
- Ondas de calor na menopausa: causas, gatilhos e como aliviar
- Suor noturno na menopausa: causas e alívio
Dicas extras
- Quer continuar aprendendo com a gente? Assine a newsletter do Blog da Menopausa e receba conteúdos práticos para viver os 40+ com mais leveza.
- Se este texto te acendeu um alerta, converse com seu médico sobre investigação do sono — tratar apneia muda qualidade de vida e ajuda a proteger o coração.
- Para aprofundar o tema de prevenção, assista ao PodKefi 23 | Saúde cardiovascular da mulher na menopausa.
- Compartilhe este artigo com uma amiga: muita mulher passa anos achando que é “só menopausa”, quando pode ser apneia.
Referências bibliográficas
- Wang Y, et al. Menopause and Obstructive Sleep Apnea: mediation analysis of visceral fat. BMC Endocrine Disorders. 2025.
- American Academy of Sleep Medicine (AASM). Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea. 2017.
- Ramar K, et al. Clinical Practice Guideline for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea with Oral Appliance Therapy. Journal of Clinical Sleep Medicine (AASM). 2015.
- StatPearls/NCBI Bookshelf. Obstructive Sleep Apnea (overview, diagnóstico e manejo). Atualizações contínuas.
- Garg R, Munshi A. Sleep and Brain Function at Menopause. J Midlife Health. 2024 Oct-Dec;15(4):221-224. doi: 10.4103/jmh.jmh_201_24. Epub 2025 Jan 2. PMID: 39959736; PMCID: PMC11824937.








