A conversa sobre testosterona na menopausa vem ganhando força nas redes sociais, nos consultórios e até nos grupos de amigas. Muitas mulheres ouvem que seu cansaço, a queda da libido ou a dificuldade para emagrecer seriam “falta de testosterona” – e que um gel, um implante ou um “chip da beleza” resolveriam tudo.
Mas afinal: o que a ciência realmente diz sobre testosterona na menopausa? Quando ela pode ajudar, quando é excesso e quais são os cuidados necessários?
Neste artigo, vamos explicar de forma clara e baseada em evidências o papel da testosterona na vida da mulher 40+, com foco em segurança, escolhas informadas e respeito ao seu ritmo.
O que é testosterona na menopausa, afinal?
Testosterona também é hormônio feminino
Embora seja conhecida como “hormônio masculino”, a testosterona sempre fez parte da vida hormonal da mulher. Durante a fase reprodutiva, ela é o esteroide sexual mais abundante na circulação feminina, em níveis bem mais altos do que o estradiol.
Ela é produzida principalmente:
- Nos ovários
- Nas glândulas suprarrenais
- E também convertida em outros tecidos periféricos
Na mulher, a testosterona participa de funções importantes, como:
- Desejo e resposta sexual
- Energia e sensação de vitalidade
- Massa muscular e óssea
- Bem-estar geral e motivação
Ou seja: não é um “hormônio de homem”, e sim parte do equilíbrio hormonal feminino.
A queda começa antes da menopausa
Um ponto importante para entender a testosterona na menopausa é que a queda não começa aos 50, mas bem antes.
Estudos mostram que os níveis de testosterona começam a diminuir a partir da terceira década de vida. Por volta dos 40 anos, muitas mulheres já têm cerca de metade da testosterona que tinham aos 20.
Isso significa que:
- A queda é gradual, não um “apagão hormonal” súbito.
- Sintomas atribuídos à testosterona baixa podem se misturar com fatores como estresse, sobrecarga de trabalho, sono ruim e mudanças de vida.
Menopausa natural x menopausa cirúrgica
Nem toda menopausa tem o mesmo impacto sobre a testosterona.
- Na menopausa natural, o ovário deixa de produzir estrogênio em grande quantidade, mas continua produzindo androgênios, incluindo testosterona, sob estímulo do LH.
- Já na menopausa cirúrgica, quando os ovários são retirados (ooforectomia), há uma queda abrupta nos níveis de testosterona – muitas vezes em torno de 50% da produção.
Por isso, mulheres em menopausa cirúrgica podem sentir mudanças mais intensas na energia, na libido e no bem-estar em pouco tempo, enquanto na menopausa natural o processo tende a ser mais lento e cumulativo.
Testosterona na menopausa: quando a falta é realmente um problema?
Baixa libido na menopausa: nem sempre é só hormônio
É comum associar imediatamente baixa libido à falta de testosterona na menopausa. Mas o desejo sexual feminino é influenciado por muitos fatores, como:
- Qualidade do relacionamento e comunicação com o parceiro(a)
- Estresse crônico, sobrecarga mental e cuidado com filhos, pais ou netos
- Dores na relação, especialmente por secura vaginal e atrofia genital
- Uso de medicamentos, como certos antidepressivos
- Autoestima, imagem corporal e saúde mental
Por isso, quando a libido cai, o primeiro passo não é pedir “uma receita de testosterona”, mas investigar o contexto como um todo.
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O que é Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH)?
As principais diretrizes internacionais não falam em “deficiência androgênica da mulher” como diagnóstico. O foco é outro: o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH).
O TDSH é definido por:
- Desejo sexual reduzido ou ausente
- Presente por pelo menos 6 meses
- Que causa sofrimento significativo para a mulher
- Não explicado apenas por conflitos de relacionamento, uso de medicamentos ou outras doenças
Um ponto essencial: se a mulher tem pouco desejo, mas não se sente incomodada com isso, não estamos falando de um transtorno.
Como o médico avalia esse quadro?
Na prática, a avaliação do desejo sexual na menopausa é bem mais ampla do que um exame de sangue. Um atendimento responsável inclui:
- Conversa detalhada sobre história sexual, relacionamento, rotina e estresse
- Revisão de medicamentos em uso
- Avaliação de dor na relação, secura vaginal e atrofia genital
- Avaliação de saúde mental e possíveis quadros de ansiedade ou depressão
- Exames laboratoriais para afastar níveis de testosterona excessivamente altos (por exemplo, por uso de anabolizantes) ou outras alterações relevantes
Só depois dessa visão global é que se considera se a testosterona na menopausa pode ter um papel terapêutico.
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O que a ciência já sabe sobre testosterona na menopausa
Onde a testosterona ajuda: desejo sexual e TDSH
Um consenso global publicado em 2019, assinado por várias sociedades de menopausa e endocrinologia do mundo todo, concluiu que a única indicação com evidência robusta para o uso de testosterona na mulher é o tratamento do TDSH em mulheres na pós-menopausa.
Em estudos clínicos controlados, mulheres pós-menopausadas usando testosterona transdérmica em doses fisiológicas apresentaram:
- Aumento modesto, mas consistente, no número de eventos sexuais satisfatórios
- Melhora nos domínios de desejo, excitação, orgasmo e responsividade sexual
- Redução do sofrimento emocional associado à baixa libido
Não é um “milagre hormonal”, mas pode ser uma ferramenta importante para algumas mulheres, quando bem indicada.
Onde a testosterona NÃO é solução
Por outro lado, o mesmo consenso e outras revisões sistemáticas apontam que faltam evidências confiáveis para usar testosterona na menopausa com objetivos como:
- Ganho de massa muscular ou tratamento de sarcopenia
- Emagrecimento ou “definição corporal”
- Tratamento de fadiga inespecífica ou falta de energia
- Tratamento direto de depressão
- Prevenção de demência, Alzheimer ou declínio cognitivo
Ou seja, quando alguém promete que a testosterona na menopausa “vai secar gordura, ganhar músculo, rejuvenescer e ainda turbinar a cabeça”, está indo além do que a ciência comprova até agora.
E a memória, o foco e a “névoa mental”?
Muitas mulheres relatam névoa mental na menopausa: dificuldade de concentração, lapsos de memória, sensação de “cabeça embaralhada”.
Estudos sobre o papel da testosterona nesses sintomas ainda são conflitantes. Até o momento, não há evidência suficiente para recomendar testosterona especificamente para tratar névoa mental.
Isso não significa que o sofrimento não seja real – só quer dizer que, por enquanto, outras abordagens têm mais respaldo, como higiene do sono, manejo do estresse, atividade física e, em alguns casos, terapia hormonal estrogênica.
Leia também: Névoa mental na menopausa: conheça as causas e como aliviar
Riscos, efeitos colaterais e limites de segurança
Efeitos colaterais mais comuns
Mesmo em doses fisiológicas, o uso de testosterona na menopausa pode trazer alguns efeitos colaterais, principalmente na pele e nos pelos:
- Acne
- Pele mais oleosa
- Aumento discreto de pelos em áreas como buço, queixo ou abdômen
Geralmente, esses efeitos são reversíveis com ajuste de dose ou suspensão do tratamento.
Sinais de alerta: quando a dose está alta demais
Alguns sinais indicam que a dose de testosterona na menopausa está acima do desejado:
- Queda de cabelo em padrão masculino (entrada nas têmporas, rarefação no topo da cabeça)
- Aumento importante de pelos em áreas típicas do padrão masculino
- Engrossamento da voz
- Aumento do clitóris (clitoromegalia)
Principalmente voz mais grossa e aumento do clitóris podem ser irreversíveis. Se algum desses sinais surgir, é fundamental procurar o médico imediatamente e discutir a suspensão do tratamento.
Coração, colesterol e via de administração
A forma como a testosterona na menopausa é administrada faz diferença no perfil de segurança.
- Via oral (comprimidos): tende a piorar o perfil de colesterol, reduzindo HDL (“bom colesterol”) e aumentando LDL. Por isso, as diretrizes não recomendam o uso de testosterona oral para mulheres.
- Via transdérmica (gel, creme, adesivo): em doses fisiológicas, apresenta um perfil mais neutro sobre pressão arterial, glicemia e colesterol, sendo a via preferida nos estudos.
Mesmo assim, mulheres com histórico de doença cardiovascular, trombose, doença hepática importante ou câncer de mama devem ter avaliação individualizada e criteriosa antes de qualquer terapia hormonal.
E o risco de câncer de mama?
Até o momento, estudos de curto prazo com testosterona na menopausa em doses fisiológicas não mostram um aumento claro do risco de câncer de mama. Porém, ainda faltam dados de longo prazo para afirmar que o risco é nulo.
Por isso:
- Mulheres com história pessoal de câncer de mama costumam ser consideradas de maior risco, e muitas diretrizes não recomendam o uso de testosterona nesses casos.
- Em mulheres com história familiar importante, a decisão deve ser ainda mais cuidadosa e compartilhada.
Em qualquer cenário, a mensagem central é: terapia com testosterona na menopausa exige avaliação individual, seguimento próximo e transparência sobre incertezas.
“Chip da beleza”: por que ele foi proibido?
O que são os “chips” hormonais?
Os chamados “chips da beleza” são, na verdade, implantes hormonais colocados sob a pele. Eles podem conter diferentes combinações de hormônios, como:
- Testosterona
- Gestrinona
- Outros esteroides androgênicos e anabolizantes
Esses implantes costumam ser fabricados como fórmulas manipuladas, sem padronização rigorosa de dose e liberação, e foram divulgados com promessas de:
- Emagrecimento rápido
- Ganho de massa magra
- Aumento de libido
- “Rejuvenescimento” global
O que ANVISA e CFM decidiram
Diante do aumento de complicações graves, como trombose, alterações hepáticas, sangramentos irregulares e quadros de virilização, entidades médicas brasileiras pressionaram por medidas mais rígidas.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) publicou normas proibindo a manipulação, comercialização e uso de implantes hormonais manipulados à base de esteroides androgênicos e anabolizantes para fins estéticos ou de performance.
O Conselho Federal de Medicina (CFM), por sua vez, já havia vetado a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou melhora de desempenho esportivo.
Em resumo:
- O “chip da beleza” não é tratamento padrão para sintomas da menopausa.
- Seu uso para fins estéticos e de performance foi proibido pelas autoridades sanitárias.
- As promessas de resultado rápido, sem riscos, não se sustentam na ciência.
O que isso significa para você
Se alguém oferece testosterona na menopausa na forma de “chip”, prometendo emagrecimento, ganho de massa e libido “de volta aos 20 anos” sem falar de riscos, desconfie.
Você merece um cuidado transparente, baseado em evidências e com acompanhamento contínuo – não soluções mágicas.
Quando considerar terapia com testosterona na menopausa
Perfil de mulher em que pode fazer sentido
De forma geral, os estudos e consensos mais recentes apontam que a testosterona na menopausa pode ser considerada quando a mulher:
- Está na pós-menopausa (natural ou cirúrgica)
- Tem diagnóstico de Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) confirmado
- Apresenta sofrimento importante relacionado à baixa libido
- Já avaliou e tentou outras abordagens (psicoterapia sexual, ajuste de medicamentos, tratamento de dor na relação, melhora do sono etc.)
- Não tem contraindicações importantes, como histórico de câncer de mama ou doença hepática grave
Mesmo nesses casos, a decisão é compartilhada entre paciente e médico, com exposição clara dos riscos e das incertezas.
Como é, na prática, uma terapia responsável
Uma conduta responsável com testosterona na menopausa costuma incluir:
- Uso de preparações transdérmicas em dose baixa
- Meta de manter a testosterona dentro da faixa fisiológica feminina pré-menopausa, nunca em níveis masculinos
- Monitorização clínica e laboratorial periódica (sintomas, efeitos colaterais, exames de sangue)
- Reavaliação em 3 a 6 meses
- Suspensão do tratamento se não houver benefício clínico ou se surgirem efeitos adversos relevantes
Essa abordagem é bem diferente da ideia de “aplicar um chip e esquecer”, sem reforço de acompanhamento.
Perguntas para levar ao consultório
Se você está pensando em conversar com sua médica ou médico sobre testosterona na menopausa, algumas perguntas podem ajudar:
- Meu quadro se encaixa em Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo?
- Que outros fatores (relacionais, emocionais, medicamentosos) podem estar afetando minha libido?
- Tenho algum fator de risco que torne a testosterona mais perigosa para mim?
- A terapia proposta é transdérmica? Em qual dose e por quanto tempo?
- Como será feito o acompanhamento e quando vamos reavaliar se vale a pena continuar?
Levar essas dúvidas anotadas para a consulta é um ato de autocuidado e protagonismo na sua saúde.
Muito além da testosterona: outros pilares do desejo e do bem-estar
Mesmo quando a testosterona na menopausa é considerada, ela não é a única peça do quebra-cabeça do desejo e da qualidade de vida.
Outros pilares importantes incluem:
- Sono: noites mal dormidas prejudicam hormônios, humor, energia e libido.
- Estresse e sobrecarga: cuidar de todo mundo e nunca de si mesma é receita para o esgotamento.
- Exercício físico: melhora humor, circulação, composição corporal e autoimagem.
- Saúde mental: ansiedade, depressão e baixa autoestima impactam diretamente o desejo sexual.
- Comunicação no relacionamento: falar sobre desejo, limites, prazer e fantasias ainda é tabu para muitas mulheres – e isso pesa na vida sexual.
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Além disso, conteúdos como o PodKefi e o programa de rádio Hora da Menopausa podem ser aliados nessa jornada, trazendo histórias reais, explicações de especialistas e acolhimento para dúvidas que muitas vezes não aparecem na consulta.
Informação, cautela e protagonismo
A testosterona na menopausa não é vilã, nem solução milagrosa. É uma ferramenta terapêutica que pode fazer diferença para algumas mulheres com desejo sexual hipoativo, desde que usada na dose certa, pela via adequada e com acompanhamento próximo.
Ao mesmo tempo, seu uso indiscriminado – principalmente em implantes e “chips da beleza” com promessas estéticas e de performance – já mostrou riscos reais e motivou proibições por parte das autoridades sanitárias.
Se você está considerando esse tipo de tratamento, o caminho mais seguro é:
- Buscar informação de qualidade
- Conversar abertamente com uma profissional de confiança
- Avaliar todo o contexto da sua vida, não apenas um exame de sangue
Você merece decisões cuidadosas, baseadas em ciência e alinhadas com seus valores – não em modismos.
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Referências bibliográficas
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- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Implantes hormonais: novas medidas vão impor mais rigor à manipulação. Resolução 4.353/2024. Publicado em 26/11/2024.








