Menopausa precoce e doenças do coração: qual a relação?

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A pergunta é direta e, para muitas mulheres, assustadora: menopausa precoce e doenças do coração têm mesmo alguma relação? A resposta da ciência hoje é sim – quem entra na menopausa mais cedo tem, em média, mais risco de desenvolver problemas cardíacos ao longo da vida. Mas isso não significa que o futuro esteja definido ou que não haja o que fazer.

Neste artigo, vamos explicar de forma clara por que a menopausa precoce aumenta o risco de doenças do coração, quais exames e cuidados merecem atenção especial e como o estilo de vida pode ajudar a proteger seu coração, mesmo depois do fim da menstruação.

Menopausa precoce e doenças do coração: o que já sabemos

Ao longo das últimas décadas, grandes estudos acompanharam milhares de mulheres em diferentes países e chegaram a uma conclusão importante: entrar na menopausa antes dos 45 anos está associado a um risco maior de doenças cardiovasculares, como:

  • Doença coronariana (angina e infarto)
  • Insuficiência cardíaca
  • Arritmias, como fibrilação atrial
  • Maior mortalidade por causas cardiovasculares

Em mulheres com menopausa prematura (antes dos 40 anos), esse risco é ainda mais expressivo. Em algumas pesquisas, a chance de desenvolver doença coronariana chega a ser cerca de 50% maior em comparação com mulheres cuja menopausa ocorre por volta dos 50 anos.

É importante reforçar que “maior risco” não é sinônimo de “certeza”. Em vez de alarmismo, essa informação serve como um alerta para antecipar o cuidado com o coração.

O que é menopausa precoce

Antes de seguir, vale alinhar conceitos. Em geral, consideramos:

  • Menopausa “normal”: quando acontece entre 45 e 55 anos (média em torno dos 50–51 anos).
  • Precoce: quando o último sangramento ocorre entre os 40 e 44 anos.
  • Prematura: quando acontece antes dos 40 anos, muitas vezes relacionada a falência ovariana precoce, cirurgias ou tratamentos como quimioterapia e radioterapia.

Além da idade, também existe a diferença entre:

  • Menopausa natural: quando os ovários param de funcionar espontaneamente.
  • Menopausa induzida ou cirúrgica: quando há retirada dos ovários (ooforectomia) ou danos importantes por tratamentos oncológicos.

Em todos esses cenários, a base é a mesma: queda acentuada na produção de estrogênio. Mas, quanto mais cedo isso acontece, mais longa será a fase da vida em que o corpo estará sem esse hormônio, o que ajuda a explicar a relação entre menopausa precoce e doenças do coração.

Menopausa precoce e doenças do coração: o que mostram os estudos

Risco de infarto e doença coronariana

Uma grande revisão de estudos observacionais mostrou que mulheres que entram em menopausa antes dos 45 anos têm cerca de 50% mais risco de desenvolver doença coronariana ao longo da vida em comparação com aquelas que entram na menopausa depois dos 45 anos.

Isso inclui quadros como:

  • Angina (dor ou aperto no peito por falta de sangue no coração)
  • Infarto agudo do miocárdio

Esse aumento de risco é mais evidente para eventos que acontecem antes dos 60 anos. Ou seja, quando a menopausa vem cedo, os problemas cardíacos também tendem a aparecer mais cedo.

Insuficiência cardíaca e arritmias

Estudos de coorte com centenas de milhares de mulheres mostram que menopausa precoce e, principalmente, menopausa prematura estão ligadas a um risco maior de:

  • Insuficiência cardíaca (quando o coração perde parte da capacidade de bombear o sangue)
  • Fibrilação atrial (uma arritmia relativamente comum, que aumenta o risco de AVC)

Em alguns desses trabalhos, mulheres com menopausa antes dos 40 anos tiveram cerca de 30% a mais de risco de insuficiência cardíaca e um aumento discreto, mas significativo, de fibrilação atrial, em comparação com aquelas que entraram na menopausa mais tarde.

AVC e outros eventos cardiovasculares

Quando falamos de acidente vascular cerebral (AVC), os resultados dos estudos são um pouco mais heterogêneos. Em algumas análises, a menopausa precoce se associa a maior risco de AVC isquêmico (por entupimento de artérias), enquanto em outras essa relação aparece com menos força.

Ainda assim, fica claro que mulheres com menopausa precoce acumulam fatores que aumentam o risco de AVC ao longo do tempo, como hipertensão, diabetes, alterações de colesterol e arritmias.

Em resumo

Para simplificar a relação entre menopausa precoce e doenças do coração, podemos pensar assim:

  • Quanto mais cedo a menopausa acontece, maior tende a ser o risco cardiovascular.
  • Esse risco é maior para:
    • Doença coronariana e infarto
    • Insuficiência cardíaca
    • Arritmias, como fibrilação atrial
  • Outros fatores (como tabagismo, obesidade, hipertensão e diabetes) podem aumentar ainda mais esse risco.

Por que a falta precoce de estrogênio afeta o coração

O estrogênio é um hormônio com papel importante não só na menstruação e na fertilidade, mas também na proteção do sistema cardiovascular. Entre suas funções, podemos destacar:

  • Vasos mais saudáveis: ajuda os vasos sanguíneos a se dilatarem com mais facilidade, o que favorece o controle da pressão arterial.
  • Perfil de gorduras mais favorável: contribui para manter níveis mais equilibrados de colesterol e triglicerídeos.
  • Menos gordura abdominal: a queda de estrogênio facilita o acúmulo de gordura na região da barriga, que é mais inflamatória e ligada a risco cardiometabólico.
  • Efeito anti-inflamatório e antioxidante: o estrogênio participa da modulação da inflamação e do estresse oxidativo, dois processos envolvidos na aterosclerose.

Quando a menopausa chega mais cedo, a mulher passa mais anos da vida sem esse “escudo hormonal”. Com o tempo, isso favorece:

  • Aumento da pressão arterial
  • Piora do colesterol (especialmente aumento do LDL e redução do HDL funcional)
  • Maior resistência à insulina e risco de diabetes tipo 2
  • Maior inflamação crônica de baixo grau

Tudo isso somado contribui para que a ligação entre menopausa precoce e doenças do coração seja tão consistente nas pesquisas.

Quem deve ficar especialmente atenta ao coração

Nem toda mulher com menopausa precoce vai ter um problema cardíaco, mas alguns perfis pedem uma atenção ainda maior. Vale acender o sinal de alerta se você:

  • Teve menopausa prematura (antes dos 40 anos)
  • Teve menopausa precoce (entre 40 e 44 anos)
  • Passou por retirada dos ovários ou tratamentos oncológicos que levaram à menopausa
  • Além disso, tem um ou mais destes fatores:
    • Hipertensão arterial
    • Diabetes ou pré-diabetes
    • Colesterol alto ou triglicerídeos elevados
    • Sobrepeso ou obesidade (especialmente com gordura abdominal)
    • Tabagismo atual ou passado
    • Histórico familiar de infarto ou AVC em idade precoce
    • Doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide

Se você se reconhece em parte desse quadro, isso não é motivo para pânico – é um convite para colocar o coração no centro do autocuidado.

Como proteger o coração se você teve menopausa precoce

A boa notícia é que, embora a relação entre menopausa precoce e doenças do coração seja real, há muito que pode ser feito para reduzir esse risco. A seguir, alguns pontos importantes para conversar com sua equipe de saúde.

Check-up: exames que valem a conversa com o médico

Se você entrou em menopausa precoce ou prematura, vale discutir com o(a) médico(a):

  • Pressão arterial: aferida regularmente, em consultório e, quando indicado, em casa ou em monitorização de 24 horas.
  • Perfil lipídico: colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos.
  • Glicemia de jejum e hemoglobina glicada: para avaliar risco de diabetes.
  • Avaliação de peso e composição corporal: IMC, circunferência abdominal e, se disponível, análise de composição.
  • Sintomas cardiológicos: falta de ar, dor no peito, palpitações, cansaço fora do padrão.

Em alguns casos, o(a) médico(a) pode solicitar exames complementares, como teste ergométrico, ecocardiograma ou avaliação mais detalhada em cardiologia, especialmente se já houver outros fatores de risco.

Estilo de vida cardioprotetor: pequenas mudanças, grande impacto

Mesmo quando herdamos uma parte do risco (pela genética ou pela idade da menopausa), o estilo de vida continua sendo um dos pilares mais importantes para a saúde do coração:

  • Alimentação equilibrada
    • Priorize vegetais, frutas, grãos integrais, leguminosas, oleaginosas, azeite de oliva e peixes.
    • Reduza ultraprocessados, excesso de açúcar, frituras e gorduras trans.
    • Se possível, conte com a ajuda de uma nutricionista para adaptar tudo à sua realidade.
  • Atividade física regular
    • Busque, com orientação profissional, pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica (caminhada, dança, bicicleta, natação) em intensidade leve a moderada.
    • Inclua exercícios de força 2 vezes por semana, importantes para a massa muscular, metabolismo e controle da glicose.
  • Sono de qualidade
    • Distúrbios do sono, como insônia e apneia, aumentam o risco de hipertensão e doenças cardiovasculares.
    • Se você sente que não descansa bem, vale investigar a causa – inclusive sintomas típicos da menopausa, como ondas de calor e suor noturno.
    • Leia também: Sono na menopausa: como dormir bem protege o coração.
  • Manejo do estresse
    • Terapia, grupos de apoio, práticas de relaxamento, meditação e atividades prazerosas ajudam a equilibrar o impacto emocional dessa fase.

Essas ações não substituem a avaliação médica, mas são parte essencial da estratégia para reduzir o risco de doenças do coração.

Terapia hormonal na menopausa precoce: quando faz sentido discutir

Quando a menopausa acontece muito cedo, muitas diretrizes sugerem considerar, caso não haja contraindicações, o uso de terapia hormonal da menopausa (THM) até a idade esperada da menopausa natural.

O objetivo é:

  • Reduzir o impacto da falta precoce de estrogênio sobre ossos, cérebro e coração.
  • Aliviar sintomas intensos, como ondas de calor, secura vaginal, insônia e irritabilidade.

Por outro lado, a terapia hormonal não é livre de riscos (como trombose e, em alguns contextos, certos tipos de câncer), e a decisão deve ser sempre individualizada. Alguns pontos importantes:

  • Nunca inicie ou interrompa a terapia hormonal por conta própria.
  • Discuta seus sintomas, histórico pessoal e familiar com ginecologista/endocrinologista.
  • Em mulheres com alto risco cardiovascular estabelecido, a avaliação conjunta com um cardiologista é especialmente recomendada.

A mensagem central é: ter menopausa precoce não significa que você precise, obrigatoriamente, de terapia hormonal, mas significa que esse é um assunto que vale ser colocado na mesa com o(a) especialista que cuida de você.

Menopausa precoce e doenças do coração na prática: converse sobre isso

Se a sua menstruação parou cedo, vale levar para a próxima consulta as seguintes perguntas:

  • A idade em que entrei na menopausa muda a forma como você avalia meu risco cardiovascular?
  • Meus exames de sangue (colesterol, glicemia) e minha pressão estão dentro de metas adequadas para o meu perfil?
  • Há algo no meu estilo de vida que posso ajustar para proteger melhor meu coração?
  • No meu caso, faz sentido discutir terapia hormonal para atenuar os efeitos da menopausa precoce?

Essa conversa honesta e informada é uma das formas mais poderosas de transformar a relação entre menopausa precoce e doenças do coração em uma oportunidade de cuidado antecipado.

PodKefi 23 | Saúde cardiovascular da mulher na menopausa

Para se aprofundar ainda mais nesse tema, vale assistir ao PodKefi 23 | Saúde cardiovascular da mulher na menopausa.

Neste episódio, a equipe Kefi conversa com especialista em cardiologia feminina sobre:

  • Por que o coração da mulher precisa de um olhar diferente do coração do homem
  • O impacto da queda hormonal na pressão, no colesterol e na circulação
  • Sinais de alerta que não devem ser ignorados
  • Como criar, na prática, uma rotina amiga do coração após os 40

Se você se preocupa com a relação entre menopausa precoce e doenças do coração, o episódio é um complemento perfeito para este conteúdo.

Leia também

Se você quer seguir cuidando do coração com informação de qualidade, aproveite para ler também:

Essas leituras se conversam e ajudam você a enxergar o coração como parte central da saúde na meia-idade.

Quando procurar ajuda com urgência

Embora boa parte da prevenção seja feita no consultório e no dia a dia, alguns sinais exigem atendimento médico imediato. Procure pronto atendimento se você tiver:

  • Dor ou aperto no peito que não melhora com repouso
  • Falta de ar intensa ou que surge de repente
  • Palpitações fortes e prolongadas
  • Desmaio ou sensação de quase desmaio
  • Fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar ou assimetria no rosto (sinais de possível AVC)

Mesmo que os exames anteriores estejam normais, esses sintomas não devem ser ignorados.

Informação como aliada

A mensagem principal deste artigo é clara: existe, sim, uma relação importante entre menopausa precoce e doenças do coração. Entrar na menopausa antes dos 45 anos, especialmente antes dos 40, aumenta o risco de infarto, insuficiência cardíaca e outros problemas cardiovasculares ao longo da vida.

Mas esse risco não é uma sentença. Ele é um convite para cuidar do coração mais cedo, com acompanhamento regular, exames atualizados, ajuste de estilo de vida e, quando indicado, terapia hormonal ou outras estratégias discutidas em conjunto com a equipe de saúde.

Se você chegou até aqui, já deu um passo essencial: buscar informação confiável. Agora, leve esse conteúdo para sua próxima consulta, compartilhe com amigas que também vivem a menopausa e lembre-se de que cuidar do coração é uma forma de honrar a mulher que você é hoje e a que ainda quer ser daqui a 10, 20 ou 30 anos.

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Referências bibliográficas

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