A masturbação na menopausa ainda é um tema envolto em silêncio, tabus e desinformação. Mas um novo estudo científico — o maior já realizado sobre o assunto — traz conclusões importantes sobre como o autoprazer pode influenciar sintomas como insônia, alterações de humor, secura vaginal e até dores. Entender essa relação pode ser uma forma poderosa de recuperar o bem-estar durante o climatério.
Esse estudo, publicado na última semana na revista Menopause, mostra que a masturbação não é apenas uma prática sexual: ela pode ser uma ferramenta de autocuidado físico e emocional, com potencial para melhorar o sono, reduzir a tensão, aumentar a lubrificação e elevar a sensação de vitalidade. Ao mesmo tempo, reforça que cada mulher é única — e que prazer é saúde.
O que o novo estudo revela sobre a masturbação na menopausa
A pesquisa The Role of Masturbation in Relieving Symptoms Associated with Menopause reuniu dados de 1.178 mulheres entre 40 e 65 anos, em diferentes fases do climatério. Conduzido pela equipe do Kinsey Institute, o estudo buscou entender como a masturbação afetava sintomas da menopausa e como ela se comparava a outras estratégias comuns, como exercício físico, TRH, suplementos e mudanças alimentares.
Trata-se de um estudo transversal baseado em autorrelato, mas com uma amostra robusta e metodologia transparente, publicado em um dos periódicos mais respeitados sobre menopausa. Isso dá peso científico aos achados e permite avançar no debate sobre saúde sexual feminina.
Referência: Lehmiller, Justin J.; Graham, Cynthia A.; Ferrall, Louise; Mendelson, Emily A.; Prine, Merissa S. The role of masturbation in relieving symptoms associated with menopause. Menopause ():10.1097/GME.0000000000002675, November 11, 2025. | DOI: 10.1097/GME.0000000000002675
Evidências que se somam
No mês passado, uma outra pesquisa com 1.500 mulheres de 40 a 65 anos analisou frequência, motivos e qualidade do orgasmo na masturbação. Os resultados mostraram que mais de 80% das mulheres alcançam orgasmo na maioria das vezes, e que, para muitas, a qualidade do orgasmo melhora ou permanece estável ao longo dos anos. Esse estudo também mostrou que a masturbação é usada para reduzir estresse, melhorar o sono e aliviar tensão, especialmente na perimenopausa.
Referência: Graham, Cynthia A.; Ferrall, Louise; Lehmiller, Justin J.. Masturbation frequency and experiences among US women aged 40-65 years: comparisons across different stages of the menopause transition. Menopause 32(10):p 903-912, October 2025. | DOI: 10.1097/GME.0000000000002597
Leia também: Masturbação alivia sintomas da menopausa? Estudo surpreende
Agora, o novo estudo aprofunda o tema ao investigar se a masturbação pode aliviar sintomas da menopausa. Juntos, esses dois estudos trazem uma visão consistente: o autoprazer continua sendo uma parte importante da vida sexual de muitas mulheres e pode oferecer benefícios reais para o bem-estar físico e emocional durante o climatério.
Como a masturbação na menopausa foi estudada
O desenho do estudo foi simples e direto: um questionário online avaliou frequência de masturbação, sintomas, estratégias de manejo e percepção de eficácia.
- Amostra: 1.178 mulheres peri e pós-menopausa.
- Idades: 40 a 65 anos.
- Critérios: status menopausal determinado por histórico menstrual.
- Comparações: masturbação, sexo com parceiro, TRH, exercícios, dieta, vitaminas, sono, lubrificantes.
- Limitações: autorrelato, amostra dos EUA, ausência de confirmação clínica de sintomas.
Mesmo com essas limitações, os dados revelam tendências consistentes e clinicamente relevantes.
As mulheres realmente se masturbam durante o climatério?
Frequência e perfis
Quase 20% das mulheres afirmaram nunca ter se masturbado. Entre as que se masturbam:
- 61% fizeram isso no último ano;
- Frequência mais comum: algumas vezes por mês;
- 32% se masturbam pelo menos 1 vez por semana.
Mulheres na perimenopausa relataram maior frequência e mais abertura ao tema do que mulheres na pós-menopausa — indicando um possível efeito geracional.
Tabu e silêncio no consultório
O estudo mostra que médicos raramente abordam sexualidade de forma prática:
- Apenas metade das mulheres já recebeu orientação médica sobre menopausa.
- Menos de 8% já conversaram com um médico sobre masturbação.
Ao mesmo tempo, 66% das mulheres na perimenopausa e 47% na pós-menopausa dizem que masturbariam mais se soubessem que isso poderia ajudar nos sintomas.
Masturbação na menopausa: quais sintomas melhoram mais?
Sono: um dos maiores benefícios relatados
A masturbação aparece como uma das estratégias mais eficazes para:
- dormir mais rápido;
- manter o sono;
- relaxar antes de dormir.
Mulheres que perceberam melhora relataram notas acima de 4 em 5 na escala de eficácia.
Humor e ansiedade
Os efeitos emocionais foram consistentes. Entre as que relataram melhora:
- 42,8% citaram melhora no humor;
- 11% relataram menos ansiedade;
- 13,5% sentiram menos irritabilidade.
Os autores sugerem que a liberação de endorfinas e ocitocina após o orgasmo pode explicar esses efeitos.
Prazer, libido e lubrificação
O estudo também destaca:
- aumento da libido em 13,1% das mulheres;
- melhora da lubrificação em 10,8%;
- redução de dor ou desconforto sexual em parte da amostra.
Esse é um ponto importante, considerando que secura vaginal e queda de libido são queixas comuns no climatério.
Dor, tensão pélvica e desconfortos
A masturbação ajudou a aliviar:
- cefaleia;
- dor geniturinária;
- tensão pélvica;
- dor ao urinar.
As médias de eficácia ficaram entre 3,8 e 4,2, indicando benefícios moderados a intensos para parte das mulheres.
Nem sempre funciona: quando a masturbação pode piorar
Uma minoria relatou piora dos sintomas:
- 3,7% das mulheres na perimenopausa;
- 1,6% na pós-menopausa.
As razões identificadas foram:
- dor crônica;
- desconforto pélvico;
- dificuldade de atingir o orgasmo;
- frustração por não alcançar prazer.
Nesses casos, os autores sugerem orientação médica e investigação de condições como atrofia vaginal.
Masturbação x outras estratégias: como ela se compara
O estudo comparou a eficácia subjetiva da masturbação com outras formas de cuidado:
- Masturbação: 4,1 a 4,3
- Sexo com parceiro: 4,3 a 4,5
- TRH (terapia hormonal): 4,2
- Exercícios físicos: 4,0
- Dieta saudável: 4,0
- Suplementos: 3,7
Para quem utiliza, a masturbação foi percebida como tão eficaz quanto exercícios e dieta — e próxima da TRH.
Como começar (ou retomar) a masturbação na menopausa com conforto e segurança
Ambiente e tempo
Crie um momento sem pressa. O corpo no climatério responde melhor a estímulos gentis, progressivos.
Lubrificantes e hidratantes vaginais
Fundamentais para o conforto — especialmente para mulheres com secura vaginal.
Brinquedos sexuais adaptados a mulheres 40+
Preferir modelos com:
- controle de intensidade;
- superfícies macias;
- ergonomia para mãos com menor força.
Quando procurar atendimento
Considere avaliação profissional caso haja:
- dor persistente;
- sangramento;
- desconforto urinário recorrente;
- dificuldade prolongada em atingir o orgasmo.
Leia também: Masturbação na menopausa: mitos, verdades e como praticar
Conversar sobre prazer também é saúde
O estudo deixa claro: prazer não é luxo, é parte do autocuidado.
Mulheres estão abertas ao diálogo, mas o sistema de saúde ainda não oferece espaço para essa conversa.
A sexualidade pode mudar com a idade — mas não precisa desaparecer. Em muitos casos, o autoprazer recupera a sensação de vida, presença e conexão com o próprio corpo.
O que ainda precisamos pesquisar
O estudo é robusto, mas não prova causalidade. Ainda faltam:
- estudos clínicos de longo prazo;
- medidas objetivas de sono, humor e temperatura corporal;
- análises hormonais:
- integração com TRH e testosterona.
Ainda assim, os dados abrem caminho para incluir sexualidade e prazer nas orientações de saúde feminina.
Onde a masturbação se encaixa no autocuidado do climatério
Ela não substitui outras estratégias — mas compõe um conjunto de práticas:
- sono de qualidade;
- movimento regular;
- alimentação equilibrada;
- saúde mental;
- TRH quando indicada;
- hidratação vaginal.
É uma ferramenta a mais — acessível, gratuita e respaldada por evidências crescentes.
Assista também: PodKefi 15
No episódio PodKefi 15 | Fisioterapia Pélvica: Saúde, Sexualidade e Autoestima para Mulheres 40+ conversamos com a fisioterapeuta pélvica Patrícia Marafão sobre as soluções para o escape de urina, as dores na relação, e como o cuidado com o assoalho pélvico pode revolucionar sua vida íntima.
Conclusão
A masturbação na menopausa é uma prática segura, acessível e com potencial real de aliviar sintomas que afetam o dia a dia de muitas mulheres. Mais do que isso: pode ser uma forma de reconexão, liberdade e cuidado íntimo.
Falar sobre prazer é falar sobre saúde — e cada mulher merece acessar esse conhecimento sem culpa ou vergonha.
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