Anos após a menopausa: estudo acha “assinatura” no sangue

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Foto editorial de pesquisadora madura usando equipamentos de proteção em laboratório clínico, analisando tubos de ensaio para estudos sobre o corpo feminino anos após a menopausa.

Se você sente que o corpo vai mudando com o passar dos anos — energia, composição corporal, colesterol, sono — saiba que a ciência está encontrando formas cada vez mais “mensuráveis” de entender essas mudanças. Um estudo grande publicado na Nature mostrou que os anos após a menopausa deixam uma assinatura metabólica no sangue (um padrão de substâncias), e que esse padrão se associa a sinais de envelhecimento biológico.

A boa notícia: esse tipo de descoberta não serve para assustar, e sim para aprimorar prevenção. Quando entendemos o “caminho” metabólico, fica mais fácil escolher exames, hábitos e acompanhamento que fazem diferença no dia a dia.

O que este estudo revela sobre anos após a menopausa

Pesquisadores analisaram dados de 46.463 mulheres pós-menopausa do UK Biobank e avaliaram 251 biomarcadores metabólicos medidos por uma plataforma de metabolômica (NMR). A ideia foi responder uma pergunta simples e poderosa:

  • Existe um padrão no sangue que acompanha o tempo (anos) desde a menopausa?
  • Se existir, esse padrão se relaciona com marcadores de envelhecimento biológico?

Eles encontraram uma “assinatura” composta por 115 metabólitos (um score que aumenta conforme o tempo desde a última menstruação) e observaram que esse score se conecta a três dimensões de envelhecimento biológico: telômeros, carga alostática e PhenoAge.

Anos após a menopausa: o que é metabolômica e “assinatura” no sangue

Metabolômica é como um “mapa” de moléculas no sangue que refletem o funcionamento do corpo naquele momento: gorduras circulantes, subtipos de colesterol (lipoproteínas e suas frações), aminoácidos, ácidos graxos e sinais relacionados à inflamação.

Quando cientistas falam em assinatura metabólica, estão dizendo: “Entre centenas de medidas, há um conjunto que, em combinação, se comporta de forma consistente com um fator”. Neste caso, o fator é o tempo em anos após a menopausa.

O estudo usou uma técnica estatística chamada elastic net (um método de seleção de variáveis) para escolher, entre muitos biomarcadores, aqueles que melhor compõem essa assinatura sem “forçar” resultados.

O que é envelhecimento biológico e por que ele importa nos anos após a menopausa

Idade no RG (cronológica) é uma coisa. Envelhecimento biológico é outra: são sinais de como o corpo está funcionando, por dentro, em diferentes sistemas.

O estudo avaliou três maneiras de olhar para isso:

Telômeros

Telômeros são estruturas nas pontas dos cromossomos. Em média, tendem a encurtar com o tempo e com exposições como estresse crônico, inflamação e outros fatores. No artigo, o desfecho foi “telômeros longos” versus “não longos”.

Carga alostática

É uma forma de estimar o “peso” da adaptação constante do corpo a desafios: estresse, sono ruim, alterações metabólicas, inflamação. Na prática, funciona como um indicador de desgaste fisiológico, somando biomarcadores de diferentes sistemas.

PhenoAge

É um índice que combina marcadores clínicos e laboratoriais para estimar “idade biológica”. Quando o PhenoAge fica acima do esperado para a idade cronológica, a interpretação é de um perfil biológico menos favorável.

Números-chave do estudo

  • A assinatura metabólica realmente acompanha o tempo: o score teve correlação com os anos desde a menopausa (e foi consistente em uma reavaliação de parte da amostra).
  • A cada 5 anos após a menopausa, houve associação com:
    • menor chance de “telômeros longos”
    • maior chance de “carga alostática alta”
  • A assinatura metabólica foi ainda mais ligada a:
    • maior chance de carga alostática alta
    • maior chance de PhenoAge alto
    • e menor chance de “telômeros longos”

Um detalhe importante: a relação entre anos após a menopausa e PhenoAge perdeu força quando a análise considerou a assinatura metabólica, sugerindo que parte desse caminho pode ser explicado por mudanças metabólicas.

O que, exatamente, muda no sangue com os anos após a menopausa?

O estudo aponta que a assinatura envolve principalmente:

  • Lipoproteínas e suas subfrações (como partículas de LDL, HDL, VLDL e seus componentes)
  • Triglicerídeos em diferentes frações
  • Fosfolipídios e outros lipídios
  • Aminoácidos e ácidos graxos
  • Marcadores relacionados a inflamação

Os autores também citam enriquecimento de vias metabólicas ligadas a aminoácidos e síntese de certos compostos (um sinal de que o corpo muda o “jeito de usar” nutrientes e energia ao longo do tempo após a menopausa).

O que muda na prática nos anos após a menopausa

1) Check-up que conversa com a ciência

Você não precisa de um exame de metabolômica para se cuidar bem. Mas o estudo reforça que, nos anos após a menopausa, faz sentido acompanhar com atenção:

  • Perfil lipídico (colesterol total, HDL, LDL, triglicerídeos)
  • Glicemia e, quando indicado, HbA1c
  • Pressão arterial
  • Circunferência abdominal e composição corporal
  • Marcadores de inflamação quando houver indicação clínica
  • Avaliação de sono e estresse (porque “carga alostática” não é só número — é vida real)

Se você já tem fatores de risco (histórico familiar, hipertensão, diabetes, tabagismo, ganho de peso importante), vale conversar com seu médico sobre uma estratégia de prevenção mais personalizada.

2) Hábitos com melhor “custo-benefício” para metabolismo e longevidade

Sem promessas mágicas: a ciência do envelhecimento aponta caminhos consistentes, e eles costumam ser simples (não fáceis, mas simples).

  • Treino de força 2–3x por semana (músculo é “órgão metabólico” e protege contra resistência à insulina)
  • Movimento aeróbio regular (caminhada, bike, dança, natação)
  • Padrão alimentar anti-inflamatório (com boas gorduras, fibras, proteínas adequadas)
  • Sono como prioridade (não como “luxo”)
  • Manejo de estresse (respiração, terapia, tempo de pausa, relações mais seguras)

Se você quer um caminho alimentar bem fundamentado e possível, a dieta mediterrânea costuma ser uma boa referência:

E para quem está retomando o treino (ou começando agora), estes conteúdos ajudam a evitar erros comuns:

3) Por que isso também conversa com o coração

Grande parte da assinatura do estudo envolve gorduras no sangue e lipoproteínas — justamente o eixo mais importante para risco cardiovascular ao longo do tempo.

Se você quer entender o “porquê” desse cuidado extra após os 40, aqui estão dois guias do blog:

Como entender essa notícia sem alarmismo

Antes de concluir “então vou envelhecer mais rápido”, vale lembrar:

  • O estudo é observacional. Ele encontra associações, não prova causa e efeito.
  • A amostra é grande, mas o UK Biobank tem predominância de mulheres brancas e perfil específico de voluntárias, o que pode limitar generalizações.
  • A idade da menopausa pode ter sido auto-relatada, o que sempre traz alguma margem de erro.
  • “Assinatura” não é destino: ela descreve um padrão populacional, não uma sentença individual.

A leitura mais útil é: metabolismo e envelhecimento se conversam, e os anos após a menopausa são uma janela importante para ajustar prevenção.

Perguntas que sempre aparecem

Isso significa que a menopausa acelera o envelhecimento?

A menopausa é um marco biológico relevante e traz mudanças hormonais e metabólicas. Este estudo sugere que, ao longo dos anos após a menopausa, há um padrão metabólico associado a marcadores de envelhecimento biológico. Mas isso não significa que exista um “relógio único” nem que tudo seja inevitável.

Eu preciso fazer exames mais caros?

Na maioria dos casos, não. O básico bem feito (lipídios, glicemia, pressão, composição corporal, hábitos) já entrega muito. A metabolômica, por enquanto, é mais uma ferramenta de pesquisa e tendência.

Terapia hormonal muda isso?

O estudo avaliou estratificações (por exemplo, por status de terapia hormonal e obesidade) e observou achados consistentes com a análise principal. Na vida real, decisão de terapia hormonal é individual, com riscos e benefícios discutidos com a ginecologista/endocrinologista.

Próximos passos: por que isso é uma tendência importante

O que aparece aqui é uma tendência forte em saúde: usar dados “ômicos” (como metabolômica) para construir indicadores de risco e personalizar prevenção.

Nos próximos anos, é provável que a ciência avance em:

  • identificar quais componentes metabólicos são mais “modificáveis”
  • testar intervenções (alimentação, exercício, sono, estresse, tratamentos) para ver se mudam essa assinatura
  • entender diferenças por etnia, contexto socioeconômico e histórico reprodutivo

Conclusão

Este estudo reforça uma mensagem que acolhe (e empodera): os anos após a menopausa são uma fase em que o metabolismo muda de forma detectável — e isso ajuda a explicar por que cuidar de coração, composição corporal, sono e estresse faz tanta diferença.

No Blog da Menopausa, a gente gosta de lembrar que informação boa não serve para pressionar: serve para abrir caminhos. Um passo por vez, com acompanhamento e escolhas possíveis.

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Ouça também: no PodKefi 23 | Saúde cardiovascular da mulher na menopausa, a conversa aprofunda por que coração, colesterol, sono e estresse merecem atenção especial depois dos 40

Referências

  1. Xie B, Li M, Wang Q, Fu C, Wang X, Zhu D. Years since menopause and its metabolomic signature with biological aging in women at midlife: a population-based study. NPJ Aging. 2025 Jul 1;11(1):58. doi: 10.1038/s41514-025-00249-6. PMID: 40595729; PMCID: PMC12216968.
  2. Levine ME, Lu AT, Quach A, Chen BH, Assimes TL, Bandinelli S, Hou L, Baccarelli AA, Stewart JD, Li Y, Whitsel EA, Wilson JG, Reiner AP, Aviv A, Lohman K, Liu Y, Ferrucci L, Horvath S. An epigenetic biomarker of aging for lifespan and healthspan. Aging (Albany NY). 2018 Apr 18;10(4):573-591. doi: 10.18632/aging.101414. PMID: 29676998; PMCID: PMC5940111.
  3. McEwen BS, Stellar E. Stress and the individual. Mechanisms leading to disease. Arch Intern Med. 1993 Sep 27;153(18):2093-101. PMID: 8379800.
  4. Seeman TE, McEwen BS, Rowe JW, Singer BH. Allostatic load as a marker of cumulative biological risk: MacArthur studies of successful aging. Proc Natl Acad Sci U S A. 2001 Apr 10;98(8):4770-5. doi: 10.1073/pnas.081072698. Epub 2001 Apr 3. PMID: 11287659; PMCID: PMC31909.
  5. Karppinen JE, Törmäkangas T, Kujala UM, Sipilä S, Laukkanen J, Aukee P, Kovanen V, Laakkonen EK. Menopause modulates the circulating metabolome: evidence from a prospective cohort study. Eur J Prev Cardiol. 2022 Aug 5;29(10):1448-1459. doi: 10.1093/eurjpc/zwac060. PMID: 35930503.
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