Alterações cerebrais na menopausa: o que a ciência diz

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Ilustração artística de um busto feminino translúcido preenchido por uma rede de filamentos neurais brilhantes que transitam da cor azul para a dourada, simbolizando a adaptação energética e a reconfiguração da conectividade cerebral durante a menopausa.

A expressão alterações cerebrais na menopausa não é apenas uma metáfora para falar de memória falhando ou foco reduzido. Estudos de imagem publicados nos últimos anos mostram que o cérebro realmente passa por mudanças estruturais durante a transição menopausal – algumas transitórias, outras que merecem atenção de perto.

Neste artigo, vamos olhar para o que ressonâncias magnéticas, tomografias por emissão de pósitrons (PET) e outras técnicas têm revelado sobre o cérebro feminino entre o climatério e a pós-menopausa, e o que essas descobertas significam para a sua vida hoje.

Alterações cerebrais na menopausa: do sintoma à imagem

Quando falamos em menopausa e cérebro, muitas mulheres pensam imediatamente em fogachos, insônia, irritabilidade e “névoa mental”. Esses sintomas são reais e já foram abordados em detalhes em conteúdos como “Menopausa e o cérebro: o que muda e como cuidar”.

Aqui, o foco é outro: entender como as alterações cerebrais na menopausa aparecem nos exames de imagem – em termos de volume, lesões e metabolismo – e por que isso está ajudando a ciência a repensar o envelhecimento feminino.

De forma simples, os estudos mais recentes sugerem que:

  • o cérebro perde e recupera volume em algumas regiões ao longo da transição menopausal;
  • surgem alterações na substância branca que se relacionam a risco vascular e cognitivo;
  • o metabolismo de energia do cérebro muda para se adaptar à queda do estrogênio.

Esses achados não significam que toda mulher terá demência, mas sim que o cérebro atravessa um período sensível – e, justamente por isso, merece cuidado especial.

O que são alterações estruturais no cérebro?

Antes de mergulhar nos resultados dos estudos, vale traduzir alguns conceitos que aparecem sempre que falamos em alterações cerebrais na menopausa.

Matéria cinzenta é a parte do cérebro formada principalmente pelos corpos dos neurônios. Ela está fortemente ligada a funções como memória, atenção, linguagem e tomada de decisão. Regiões importantes de matéria cinzenta incluem o hipocampo, o córtex frontal e o córtex temporal.

Matéria branca é composta por fibras que conectam diferentes áreas cerebrais, funcionando como “cabos” que permitem a comunicação entre regiões distantes. A integridade da matéria branca é fundamental para que a informação circule com rapidez e precisão.

Em exames de ressonância, os pesquisadores também observam as chamadas lesões de substância branca ou white matter hyperintensities: pequenos pontos mais claros, que sugerem áreas de sofrimento ou microlesões, geralmente associados a alterações de fluxo sanguíneo, inflamação e envelhecimento vascular.

Quando falamos em alterações cerebrais na menopausa, estamos justamente descrevendo mudanças na quantidade de matéria cinzenta, na qualidade da matéria branca, na presença de lesões e na forma como o cérebro utiliza energia.

Alterações cerebrais na menopausa em estudos de 2020–2025

Entre 2020 e 2025, uma série de trabalhos foi reunida em revisões apresentadas em congressos internacionais de menopausa e neurociência. Elas combinaram dados de exames de imagem de centenas de mulheres em diferentes fases da menopausa.

Em linhas gerais, esses estudos mostram três grandes grupos de alterações cerebrais na menopausa:

  1. mudanças no volume de matéria cinzenta em regiões específicas;
  2. aumento de lesões de substância branca em alguns perfis de mulheres;
  3. ajustes no metabolismo de energia do cérebro.

Volume de matéria cinzenta: hipocampo, córtex frontal e temporal

O hipocampo é uma região-chave para a formação de novas memórias e para a navegação espacial. O córtex frontal está ligado ao planejamento, ao controle da atenção e à tomada de decisão. Já o córtex temporal participa de funções como linguagem e reconhecimento de estímulos.

Estudos de imagem apontam que:

  • durante a transição da pré-menopausa para o climatério, pode haver reduções de volume em partes do hipocampo e de regiões frontais e temporais;
  • em acompanhamentos ao longo de alguns anos, parte dessas áreas mostra sinais de recuperação parcial de volume após a menopausa, sugerindo um processo de adaptação;
  • essas oscilações de volume se correlacionam com desempenho em testes de memória, atenção e funções executivas, ainda que muitas mulheres se mantenham dentro da faixa considerada normal.

Uma forma de traduzir isso é dizer que o cérebro parece “afinar” certas estruturas quando o estrogênio cai, mas também é capaz de reorganizar-se depois, graças à neuroplasticidade.

Matéria branca e conectividade: muito além dos neurônios

Quando os pesquisadores analisam a matéria branca, eles avaliam tanto a integridade das fibras quanto a presença de lesões visíveis na ressonância.

Os achados mais frequentes incluem:

  • alterações microestruturais em tratos que ligam regiões frontais, temporais e parietais, possivelmente refletindo uma reorganização das rotas de comunicação;
  • aumento da carga de lesões de substância branca em algumas mulheres, especialmente naquelas com fatores de risco vascular (pressão alta, diabetes, colesterol elevado, tabagismo) e em perfis específicos de menopausa, como veremos adiante;
  • associação entre maior carga de lesões e desempenho ligeiramente pior em testes de velocidade de processamento, atenção sustentada e equilíbrio.

Essas mudanças não significam, por si só, que a mulher terá um declínio cognitivo grave. Mas reforçam a ideia de que cérebro e vasos sanguíneos estão intimamente ligados, e que cuidar da saúde cardiovascular é uma das melhores formas de proteger o cérebro na menopausa.

Metabolismo cerebral: menos glicose, mais compensação

Outro conjunto importante de estudos avaliou como o cérebro utiliza energia durante a transição menopausal.

Os resultados indicam que, em algumas regiões – como o córtex temporo-parietal –, há redução do uso de glicose. Em resposta, o cérebro:

  • aumenta o fluxo sanguíneo cerebral em áreas estratégicas;
  • mobiliza vias alternativas de produção de energia, como maior uso de corpos cetônicos em determinadas condições;
  • mantém, na maioria dos casos, a cognição global dentro de faixas consideradas normais.

Na prática, isso ajuda a entender por que muitas mulheres relatam fadiga mental, dificuldade de concentração e sensação de “lento para pensar”, mesmo que os testes formais ainda estejam bons.

Fogachos, menopausa precoce e risco cerebral: o que os dados sugerem

Uma das descobertas mais discutidas nos últimos anos é a relação entre fogachos intensos, menopausa precoce e alterações cerebrais na menopausa.

Alguns estudos observacionais encontraram que mulheres com:

  • fogachos muito frequentes e perturbadores, especialmente à noite;
  • menopausa antes dos 45 anos, principalmente quando cirúrgica e sem reposição hormonal adequada, podem apresentar maior carga de lesões de substância branca e mudanças mais marcantes em medidas de conectividade cerebral.

Esses resultados ainda não estabelecem causa e efeito, mas levantam hipóteses importantes:

  • fogachos intensos podem refletir uma maior sensibilidade do sistema nervoso à queda hormonal e a flutuações de temperatura;
  • menopausa precoce, ao abreviar anos de exposição ao estrogênio, pode antecipar processos de envelhecimento vascular e neurológico.

A mensagem prática não é de alarmismo, e sim de vigilância: se você teve menopausa precoce ou sofre com fogachos severos, vale redobrar o cuidado com fatores cardiovasculares e conversar com sua equipe de saúde sobre estratégias de proteção cerebral.

Alterações cerebrais na menopausa e risco de demência

Diante de tantas informações sobre alterações cerebrais na menopausa, é natural que surja a pergunta: isso significa que toda mulher terá demência no futuro?

A resposta curta é não.

O que os estudos indicam até agora é que:

  • mudanças estruturais e metabólicas no cérebro durante a menopausa podem modular o risco de declínio cognitivo ao longo da vida, especialmente quando se somam a fatores como genética, estilo de vida e doenças crônicas;
  • algumas alterações (como lesões extensas de substância branca) são marcadores conhecidos de risco vascular e estão relacionadas a maior probabilidade de demência de origem vascular;
  • em muitas mulheres, porém, as alterações cerebrais na menopausa são parcialmente reversíveis ou compensadas por mecanismos de neuroplasticidade, principalmente quando o estilo de vida é protetor.

Em outras palavras: a menopausa é uma janela de vulnerabilidade, não uma sentença. É um período em que o cérebro fica mais sensível, mas também mais responsivo às escolhas que fazemos em relação à saúde geral.

Neuroplasticidade: o lado adaptativo das alterações cerebrais na menopausa

Um dos pontos mais encorajadores das pesquisas recentes é a evidência de neuroplasticidade – a capacidade do cérebro de se adaptar e criar novas conexões – mesmo em mulheres na meia-idade e além.

Estudos longitudinais sugerem que:

  • áreas que perdem volume durante o climatério podem mostrar recuperação parcial alguns anos após a menopausa;
  • a reconfiguração de redes de conectividade ajuda a manter o desempenho cognitivo mesmo diante de pequenas perdas estruturais;
  • fatores como atividade física regular, estímulo cognitivo e vida social ativa parecem apoiar essa plasticidade.

Isso reforça uma mensagem central: embora as alterações cerebrais na menopausa sejam reais e mensuráveis, elas ocorrem em um cérebro que continua vivo, dinâmico e capaz de aprender – inclusive a funcionar de modo diferente com menos estrogênio.

Alterações cerebrais na menopausa: o que muda na prática para você

Diante desse panorama, o que essas descobertas significam para o seu dia a dia?

Em primeiro lugar, elas ajudam a tirar o peso da culpa. Se você sente lapsos de memória, fadiga mental ou oscilação de humor, não é falta de esforço ou “fraqueza de caráter”. Existem alterações cerebrais na menopausa que explicam parte dessas experiências.

Em segundo lugar, os dados reforçam a importância de cuidar, com carinho, de alguns pilares:

  • Pressão arterial, glicemia e colesterol: manter esses parâmetros sob controle protege tanto o coração quanto o cérebro.
  • Sono de qualidade: noites mal dormidas pioram fogachos, aumentam a inflamação e sobrecarregam o sistema nervoso.
  • Movimento corporal: atividade aeróbica e fortalecimento estão associados a melhor fluxo sanguíneo cerebral e menor risco de declínio cognitivo.
  • Alimentação equilibrada: padrões como a dieta mediterrânea, ricos em vegetais, frutas, grãos integrais, peixes e azeite, se relacionam a melhor saúde cerebral.
  • Saúde mental: depressão e ansiedade não tratadas impactam o cérebro e podem amplificar a percepção de névoa mental.

Para um passo a passo detalhado de rotinas, hábitos e estratégias para cuidar do cérebro na menopausa, vale retomar o artigo “Menopausa e o cérebro: o que muda e como cuidar” e o conteúdo “Névoa mental na menopausa: conheça as causas e como aliviar”.

Perguntas em aberto e próximos passos da ciência

Apesar do avanço significativo, ainda há muitas perguntas sem resposta sobre as alterações cerebrais na menopausa.

Entre os principais pontos em estudo estão:

  • até que ponto a recuperação de volume em algumas regiões se mantém ao longo de décadas;
  • quais combinações de fatores (genética, estilo de vida, uso de terapia hormonal, doenças crônicas) determinam maior ou menor risco individual;
  • quais intervenções específicas – hormonais, medicamentosas ou baseadas em estilo de vida – têm maior impacto em proteger o cérebro nessa fase.

Novas coortes de mulheres estão sendo acompanhadas por mais tempo, com exames de imagem seriados e avaliações cognitivas detalhadas. A expectativa é que, nos próximos anos, tenhamos respostas mais finas e recomendações ainda mais personalizadas.

Enquanto isso, o melhor caminho continua sendo a informação de qualidade, o acompanhamento com profissionais de confiança e o cuidado ativo com sua saúde geral.

Assista também: saúde cerebral e mental na Hora da Menopausa

Se você quer aprofundar esse tema em formato de conversa, vale ouvir o episódio “Hora da Menopausa – EP 01: Saúde cerebral e mental na menopausa” nos canais da Kefi. Nele, especialistas discutem de forma acolhedora o que acontece no cérebro durante essa transição, como diferenciar sinais de alerta de mudanças esperadas e quais caminhos de cuidado estão disponíveis hoje.

Você pode encontrar o episódio no YouTube e nas principais plataformas de áudio, buscando por “Hora da Menopausa EP 01 saúde cerebral”.

Seu cérebro está se adaptando, não falhando

Saber que existem alterações cerebrais na menopausa pode, à primeira vista, causar apreensão. Mas, quando olhamos de perto, a mensagem é mais positiva do que parece:

  • as mudanças são parte de um processo de adaptação do cérebro ao novo cenário hormonal;
  • há espaço real para proteção e recuperação, especialmente com hábitos saudáveis e suporte clínico adequado;
  • você não está sozinha – a ciência nunca investigou tanto o cérebro feminino quanto agora.

No Blog da Menopausa, a proposta é caminhar ao seu lado nessa jornada, traduzindo estudos complexos em informação acessível, responsável e sem alarmismo.

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Referências científicas

  1. Rodriguez AP, Pereira A, Martinez K, Barros B. Menopause and Brain Structural Changes: A bibliographical revision. Abstract P-148 apresentado no The Menopause Society 2025 Annual Meeting; 2025.
  2. The Menopause Society. How Menopause Restructures a Woman’s Brain. Press release. Cleveland, OH; 21 de outubro de 2025.
  3. Mosconi L, Berti V, Dyke J, et al. Menopause impacts human brain structure, connectivity, energy metabolism, and amyloid-beta deposition. Scientific Reports. 2021;11:10867.
  4. Mishra A, Wang Y, Yin F, et al. A tale of two systems: Lessons learned from female mid-life aging with implications for Alzheimer’s prevention & treatment. Ageing Research Reviews. 2022;74:101542.
  5. Schelbaum E, Loughlin L, Jett S, et al. Association of Reproductive History With Brain MRI Biomarkers of Dementia Risk in Midlife. Neurology. 2021;97(23):e2328-e2339.
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