Pressão alta na menopausa: é culpa dos hormônios?

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Uma mulher de meia-idade está sentada em um sofá bege em uma sala de estar bem iluminada por janelas, medindo sua pressão arterial com um monitor digital no braço esquerdo. Ela olha atentamente para o aparelho. Ao redor dela há almofadas, plantas em vasos e uma mesa lateral com livros. A imagem ilustra o monitoramento da pressão alta na menopausa em um ambiente doméstico tranquilo.

A pressão alta na menopausa é uma das queixas mais comuns nos consultórios. Muitas mulheres escutam, de repente, que a pressão “subiu” justamente nessa fase da vida, mesmo sem grandes mudanças na rotina.

É natural surgir a pergunta: será que a culpa é só dos hormônios? A resposta é: os hormônios têm um papel importante, mas não estão sozinhos nessa história. Entender o que muda no corpo ajuda a tirar o peso da culpa e a focar no que realmente faz diferença para sua saúde.

Neste guia, vamos explicar por que a pressão alta na menopausa é tão frequente, como a queda do estrogênio influencia esse processo e o que você pode fazer, na prática, para cuidar melhor do seu coração.

Menopausa e pressão alta: por que essa relação preocupa tantas mulheres?

Antes da menopausa, as mulheres costumam ter menos pressão alta e menos eventos cardiovasculares do que os homens da mesma idade. Uma parte dessa proteção vem do estrogênio, hormônio que ajuda a manter os vasos sanguíneos mais saudáveis.

Depois da menopausa, esse cenário muda. Estudos mostram que a prevalência de hipertensão aumenta de forma importante, e uma grande parcela das mulheres acima de 60 anos terá pressão alta na menopausa ou na pós-menopausa. Em alguns levantamentos, mais da metade das mulheres nessa faixa etária apresenta algum grau de hipertensão.

Isso importa porque a pressão alta é um dos principais motores das doenças cardíacas mais comuns nessa fase, como infarto, insuficiência cardíaca e AVC. Ou seja, não se trata apenas de um número no aparelho: é um marcador de risco que merece atenção.

O que acontece com os hormônios na menopausa

A menopausa marca o fim definitivo das menstruações e está associada à queda intensa da produção de estrogênio pelos ovários. Ao mesmo tempo, hormônios como FSH e LH aumentam, e a proporção entre estrogênios e andrógenos (hormônios com ação semelhante à testosterona) se altera.

Esse novo equilíbrio hormonal influencia vários sistemas do corpo: metabolismo, distribuição de gordura, sono, temperatura, humor e, claro, a regulação da pressão arterial.

Para entender por que a pressão alta na menopausa se torna mais frequente, é útil visualizar o estrogênio como um conjunto de “freios” naturais para a pressão. Quando esses freios enfraquecem, fica mais fácil a pressão subir.

Como o estrogênio ajudava a controlar sua pressão

O estrogênio atua em diferentes pontos do sistema cardiovascular. A seguir, traduzimos os principais mecanismos em uma linguagem mais acessível.

Vasos mais relaxados: o papel do óxido nítrico

O estrogênio estimula a produção de óxido nítrico, uma substância produzida pela parede interna dos vasos sanguíneos que ajuda a dilatar as artérias. Vasos mais dilatados significam menor resistência à passagem do sangue e, portanto, pressão em níveis mais saudáveis.

Com a queda do estrogênio, a produção de óxido nítrico diminui e os vasos passam a dilatar menos. Isso contribui para que a pressão alta na menopausa se torne mais comum.

Menos retenção de sal e líquido: o sistema renina–angiotensina–aldosterona

Outro ponto importante é o chamado sistema renina–angiotensina–aldosterona, que regula a retenção de sódio e água no organismo. O estrogênio ajuda a manter esse sistema mais equilibrado.

Quando o estrogênio cai, esse mecanismo tende a ficar mais ativado. O corpo passa a reter mais sal e líquido, aumentando o volume de sangue circulante e favorecendo a elevação da pressão.

Menos inflamação e estresse oxidativo

O estrogênio também aumenta a atividade de enzimas antioxidantes, que combatem o excesso de radicais livres. Esse efeito protege a parede dos vasos contra um processo parecido com “ferrugem” interna, que chamamos de estresse oxidativo.

Com menos estrogênio, aumenta a inflamação crônica de baixo grau e o dano às células dos vasos sanguíneos, o que piora a capacidade de dilatação e contribui para a pressão alta na menopausa.

Freio na vasoconstrição e no “sistema de alerta”

Além disso, o estrogênio ajuda a reduzir substâncias vasoconstritoras potentes, como a endotelina, e modula o sistema nervoso simpático, responsável pelas respostas de alerta do organismo.

Sem esse freio hormonal, o corpo tende a ficar com os vasos mais contraídos e o sistema de alerta mais ativado, o que também empurra a pressão para cima.

Por que a pressão alta na menopausa não é só culpa dos hormônios

Os hormônios têm um papel central, mas não explicam tudo. A pressão alta na menopausa é o resultado de uma combinação de fatores hormonais, metabólicos, genéticos e de estilo de vida.

Rigidez das artérias: quando os vasos perdem elasticidade

Com o avançar da idade, as artérias vão, naturalmente, ficando mais rígidas. A queda do estrogênio acelera esse processo, favorecendo o acúmulo de colágeno e a perda de elastina na parede dos vasos.

Arterias mais rígidas absorvem menos o impacto de cada batida do coração. Resultado: a pressão sistólica (o primeiro número da medida) tende a subir, aumentando o risco de eventos cardiovasculares.

Sensibilidade ao sal: o corpo passa a “guardar” mais sódio

Após a menopausa, muitas mulheres se tornam mais sensíveis ao sal. Isso significa que uma mesma quantidade de sal na alimentação provoca aumento maior da pressão do que provocava antes.

Alguns estudos mostram que a prevalência de hipertensão sensível ao sal praticamente dobra após a menopausa. Em situações de menopausa cirúrgica, essa mudança pode ser observada poucos meses depois do procedimento.

Gordura na barriga e metabolismo mais lento

Mesmo quando o peso total muda pouco, é comum que a gordura passe a se concentrar mais na região abdominal depois dos 40–50 anos. Essa gordura da barriga, chamada de gordura visceral, está diretamente ligada ao aumento da pressão alta na menopausa, da resistência à insulina e do risco cardiovascular.

Além disso, o metabolismo tende a ficar mais lento. Somando tudo, o corpo passa a responder de forma diferente aos mesmos hábitos de antes.

Idade, genética e estilo de vida

Por fim, não podemos esquecer fatores como idade, histórico familiar, tabagismo, consumo de álcool, alimentação rica em ultraprocessados, sedentarismo e estresse crônico.

A mensagem mais importante aqui é: não se trata de “falta de cuidado” ou de algo que você fez de errado. A pressão alta na menopausa é um fenômeno multifatorial. Ao mesmo tempo, isso significa que existem vários pontos em que podemos atuar para reduzir o risco.

Terapia hormonal e pressão alta na menopausa: ajuda ou atrapalha?

A terapia hormonal da menopausa (THM) costuma gerar dúvidas: afinal, usar hormônios aumenta ou diminui o risco de pressão alta na menopausa?

A resposta não é simples, mas alguns pontos importantes são bem estabelecidos.

O que os estudos mostram sobre terapia hormonal e hipertensão

Estudos de grande porte indicam que mulheres em uso atual de terapia hormonal, especialmente quando iniciada perto da menopausa, não apresentam aumento importante do risco de hipertensão em comparação com quem nunca usou.

Em alguns cenários, o uso de terapia hormonal dentro da chamada “janela de oportunidade” (até 10 anos após a menopausa, em mulheres com menos de 60 anos e sem grandes doenças cardiovasculares) esteve associado a um perfil de pressão e risco cardiovascular mais favorável.

Por outro lado, algumas pesquisas sugerem que determinados esquemas de terapia, especialmente com estrogênios em comprimido e certos tipos de progestagênios, podem se associar a maior chance de desenvolver pressão alta ao longo do tempo.

Por que a via de administração importa

Um ponto central é a forma como o estrogênio é administrado:

  • estrogênios orais (comprimidos) passam primeiro pelo fígado, estimulando a produção de substâncias que podem elevar a pressão e aumentar a retenção de líquido;
  • estrogênios transdérmicos (adesivos, géis) e vaginais entram diretamente na circulação, com menor impacto sobre o fígado.

Estudos recentes mostram que o uso de estrogênio oral está associado a risco maior de hipertensão quando comparado às formas transdérmicas ou vaginais. Alguns trabalhos também apontam maior risco com estrogênios equinos conjugados em relação ao estradiol.

A tal “janela de oportunidade”

Outro conceito importante é o momento em que a terapia hormonal é iniciada. Iniciar muito tempo depois da menopausa, sobretudo após os 60 anos, não traz os mesmos benefícios observados em mulheres que começam o tratamento mais cedo e pode estar ligado a riscos maiores.

De forma geral, a terapia hormonal não deve ser usada como tratamento específico para pressão alta na menopausa, mas também não precisa ser vista como vilã automática do coração. A decisão sobre usar ou não THM deve ser individualizada, considerando:

  • idade e tempo desde a menopausa;
  • presença de fatores de risco cardiovascular;
  • histórico de trombose, AVC, infarto, câncer de mama e outras condições;
  • intensidade dos sintomas e impacto na qualidade de vida.

Como cuidar da pressão alta na menopausa na prática

A boa notícia é que, mesmo com o aumento do risco, há muito que pode ser feito para prevenir e tratar a pressão alta na menopausa. Pequenos passos consistentes fazem grande diferença ao longo dos anos.

Atividade física: remédio que não vem em comprimido

A prática regular de atividade física é uma das estratégias mais eficazes para reduzir a pressão. Estudos com mulheres pós-menopausa mostram que cerca de 2 meses de exercício aeróbico moderado, três vezes por semana, já podem reduzir a gordura abdominal e melhorar os níveis de pressão.

Vale caminhar de forma mais vigorosa, pedalar, dançar, fazer hidroginástica ou outra atividade que você goste e consiga manter. O ideal é somar pelo menos 150 minutos por semana de exercício aeróbico, além de exercícios de fortalecimento muscular duas vezes por semana.

Alimentação amiga do coração

Padrões alimentares como a dieta Mediterrânea ou a dieta DASH são exemplos de estratégias com boa evidência para reduzir a pressão arterial e proteger o coração.

Na prática, isso significa:

  • consumir frutas, verduras e legumes em boa quantidade todos os dias;
  • priorizar grãos integrais, como arroz integral, aveia, quinoa e pão integral;
  • incluir fontes de proteína magra (peixes, aves, ovos, leguminosas);
  • usar gorduras de melhor qualidade, como azeite de oliva, castanhas e abacate;
  • reduzir ultraprocessados, embutidos, frituras, refrigerantes e excesso de açúcar.

Diminuir o consumo de sal é especialmente importante depois dos 40–50 anos, já que muitas mulheres se tornam mais sensíveis ao sódio nessa fase.

Peso, circunferência abdominal e sal

Mais do que o número na balança, o que pesa para a pressão alta na menopausa é a gordura acumulada na barriga. Mesmo uma perda de 5–7% do peso pode trazer melhora significativa da pressão, do colesterol e da glicose.

Medir a circunferência abdominal, acompanhar mudanças ao longo do tempo e buscar apoio profissional (nutrição, educação física) pode ser uma forma concreta de acompanhar o progresso.

Sono, estresse e saúde emocional

Insônia, despertares noturnos, apneia do sono e estresse crônico também têm impacto direto na pressão alta na menopausa. Noites mal dormidas aumentam a ativação do sistema nervoso simpático e dificultam o controle da pressão.

Vale investir em higiene do sono, buscar avaliação para apneia quando houver roncos intensos ou pausas respiratórias e, se possível, considerar suporte psicológico para lidar com ansiedade, irritabilidade e sobrecarga emocional.

Quando entram os remédios para pressão

Em muitos casos, mudanças de estilo de vida não são suficientes sozinhas para controlar a pressão alta na menopausa, especialmente quando os níveis estão muito elevados ou quando já existem outras doenças associadas.

Nessas situações, o uso de medicamentos anti-hipertensivos é uma ferramenta fundamental de proteção do coração, do cérebro e dos rins. Tomar remédio não é fracasso: é cuidado.

Perguntas para levar à consulta

Levar perguntas preparadas pode ajudar a aproveitar melhor o encontro com o médico. Algumas sugestões:

  • Minha pressão está realmente alta ou estou vendo apenas variações em momentos de estresse?
  • Qual é a meta de pressão ideal para a minha idade e meu histórico de saúde?
  • Com os meus fatores de risco, faz sentido discutir terapia hormonal? Em qual via e por quanto tempo?
  • Que exames devo fazer para avaliar se a pressão já impactou meu coração, meus rins ou meus olhos?
  • Com que frequência devo medir a pressão em casa ou no consultório?

Anotar essas dúvidas e levar um registro das medidas de pressão pode deixar a consulta mais produtiva e direcionada.

Sinais de alerta: quando a pressão alta é emergência

Alguns sinais exigem busca imediata por atendimento de urgência. Procure ajuda rapidamente se você notar:

  • dor forte, aperto ou queimação no peito, especialmente se irradiar para braço, costas, pescoço ou mandíbula;
  • falta de ar intensa ou que surge de repente, mesmo em repouso;
  • dor de cabeça súbita e muito forte, acompanhada de visão embaçada ou confusão mental;
  • dificuldade súbita para falar, sorrir ou mexer um lado do corpo (possíveis sinais de AVC);
  • desmaio ou tontura intensa associados a palpitações ou mal-estar importante.

Nessas situações, não espere “ver se melhora”. É melhor errar pelo excesso de cuidado do que atrasar um atendimento que pode fazer diferença.

Quer continuar aprendendo sobre menopausa e coração?

Cuidar da pressão alta na menopausa não é sobre ser perfeita, e sim sobre fazer o melhor possível com as informações e recursos que você tem hoje. Cada ajuste de hábito, cada consulta em dia e cada escolha de autocuidado contam.

Se este conteúdo fez sentido para você, alguns próximos passos podem ajudar:

Acompanhe também nossas conversas no PodKefi e no programa de rádio Hora da Menopausa. No PodKefi 23 | Saúde cardiovascular da mulher na menopausa, a Dra. Andressa conversa com a geriatra Dra. Kamilla Medeiros sobre sinais que muitas vezes passam despercebidos, como dor no peito atípica, falta de ar, palpitações e cansaço fora do comum, além de fatores de risco que mudam com a queda do estrogênio (pressão alta, colesterol, diabetes, inflamação, apneia do sono, estresse, sedentarismo e álcool) e o que realmente ajuda na prevenção: atividade física regular, alimentação anti-inflamatória, sono de qualidade e acompanhamento médico regular.

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Referências científicas

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