Menopausa e esclerose múltipla: o que a ciência sabe

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Médico analisando exames de imagem do cérebro, com várias tomografias em lâmina, representando a investigação de menopausa e esclerose múltipla.

Quando menopausa e esclerose múltipla se encontram na mesma fase da sua vida, é provável que algumas perguntas estejam na cabeça: “A menopausa vai piorar minha doença?”, “O que é sintoma da EM e o que é da menopausa?”, “Posso usar terapia hormonal?”.

A verdade é que menopausa e esclerose múltipla formam uma combinação complexa. Estudos recentes sugerem que, para parte das mulheres, a menopausa pode ser um ponto de inflexão na trajetória da EM, com mudanças na função física, na cognição e em marcadores de lesão neuronal. Ao mesmo tempo, pesquisas maiores mostram que a menopausa não é, sozinha, o principal motor da progressão de incapacidade.

Neste artigo, vamos explicar, em linguagem clara, o que se sabe hoje sobre menopausa e esclerose múltipla, como os hormônios atuam no cérebro, por que alguns sintomas se confundem e quais perguntas vale levar para o consultório do neurologista e da ginecologista.

Leia também: Saúde mental na menopausa: o que é comum e o que preocupa

Menopausa e esclerose múltipla: por que essa conversa importa

A esclerose múltipla é uma doença autoimune que afeta cérebro e medula espinhal, causando inflamação e perda de mielina, a “capa protetora” dos neurônios. Ela é mais comum em mulheres, na proporção de 2 a 3 mulheres para cada homem diagnosticado.

Em geral, a EM começa entre os 20 e 40 anos, enquanto a idade mediana da menopausa natural gira em torno de 51 anos. Isso significa que a maioria das mulheres com EM chegará à menopausa convivendo com a doença.

Estima-se que cerca de 30 a 40% das pessoas que vivem com EM sejam mulheres em perimenopausa ou pós-menopausa. Nessa fase, o corpo passa por uma queda importante de estrogênio e progesterona, hormônios que têm efeitos no cérebro, no sistema imunológico, nos ossos e no metabolismo. Não é à toa que, nos últimos anos, a pergunta “o que acontece quando juntamos menopausa e esclerose múltipla?” ganhou espaço nas pesquisas.

Para a mulher, o impacto é bem concreto: cansaço, ondas de calor, dor, alterações de humor e problemas de memória podem vir tanto da menopausa quanto da EM. Entender essa interseção ajuda a evitar dois extremos perigosos: achar que “é tudo da idade” e atrasar o diagnóstico de agravamento da EM, ou entrar em pânico e supor que qualquer mudança é sinal de que a doença saiu de controle.

Menopausa e esclerose múltipla: a doença piora depois dessa fase?

Essa é, talvez, a pergunta que mais assusta quem vive com EM. A resposta curta é: depende, e os estudos não são todos iguais.

O que alguns estudos mostram sobre menopausa e esclerose múltipla

Alguns trabalhos acompanharam mulheres com EM por muitos anos e observaram que, após a menopausa, pode haver:

  • piora no Composto Funcional de Esclerose Múltipla (MSFC), que avalia desempenho motor, destreza manual e cognição
  • aumento nos níveis séricos de cadeia leve de neurofilamento (sNfL), um marcador de dano axonal no sistema nervoso central
  • piora em testes de mobilidade, como o Timed 25-Foot Walk (tempo para caminhar 7,6 metros)

Em linguagem do dia a dia, esses estudos sugerem que, para parte das mulheres, a transição menopausal pode marcar um momento em que o “desgaste” neurológico fica mais evidente.

E o que outros estudos mostram: nem sempre a culpa é da menopausa

Por outro lado, pesquisas com grupos maiores trazem um quadro mais tranquilizador. Um grande estudo longitudinal, com quase mil mulheres com EM de início em surtos (forma remitente-recorrente), comparou 583 mulheres em pré-menopausa e 404 em pós-menopausa.

Depois de ajustar por idade, tempo de doença e outros fatores, os pesquisadores não encontraram associação entre menopausa e maior risco de progressão sustentada de incapacidade nem maior risco de evolução para EM secundariamente progressiva.

A mensagem importante aqui é que, embora a menopausa possa somar-se ao envelhecimento do organismo, os dados atuais apontam que ela não é, isoladamente, o principal determinante da progressão da incapacidade em mulheres mais velhas com EM.

Como juntar essas peças

Reunindo essas duas linhas de evidência, chegamos a um cenário mais realista:

  • há sinais de que, em algumas mulheres, a menopausa coincide com um momento de declínio mais rápido em certos marcadores de função e estrutura do sistema nervoso
  • ao mesmo tempo, quando olhamos para grandes grupos e ajustamos por idade, a menopausa por si só não parece ser gatilho inevitável de piora para todas as mulheres

Na prática, isso significa que:

  • a transição menopausal é um período em que vale intensificar o acompanhamento neurológico, em vez de “deixar rolar”
  • cada mulher terá uma trajetória própria, e não existe sentença automática de que a EM vai “disparar” depois da menopausa

Leia também: Menopausa e doenças autoimunes: o que muda?

Hormônios femininos, cérebro e esclerose múltipla

Para entender por que menopausa e esclerose múltipla podem se influenciar, é preciso olhar para o papel dos hormônios sexuais no sistema nervoso e no sistema imunológico.

Estrogênio como “manta protetora” do cérebro

Diversos estudos sugerem que o estrogênio tem efeitos neuroprotetores, como:

  • proteger neurônios contra danos
  • reduzir a neuroinflamação
  • favorecer a remielinização (reparação da mielina)

Em modelos experimentais e em estudos com pessoas, níveis mais altos de estrogênio parecem se associar a menos inflamação e a um ambiente mais favorável à recuperação do tecido nervoso.

Durante a menopausa, especialmente na transição para a pós-menopausa, há uma queda importante do estradiol, a principal forma de estrogênio em idade reprodutiva. Quando essa “manta protetora” vai ficando mais fina, é possível que o cérebro de mulheres com EM fique mais vulnerável à progressão da doença.

Leia também: Menopausa e o cérebro: o que muda e como cuidar

Para se aprofundar nesse tema, você pode ouvir o episódio Hora da Menopausa EP 01 – Saúde cerebral e mental na menopausa, no canal @vivakefi, onde especialistas explicam como o cérebro sente as mudanças hormonais dessa fase.

Efeitos imunológicos: afinando o sistema de defesa

O estrogênio também atua no sistema imunológico. Em geral, ele:

  • favorece um perfil imunológico mais regulador e menos inflamatório
  • modula a atividade de linfócitos T e B, reduzindo a produção de certas citocinas pró-inflamatórias

Na EM, que é uma doença mediada pelo sistema imunológico, perder essa modulação pode contribuir para um ambiente mais propício à inflamação crônica e à neurodegeneração.

Isso não significa que toda queda de estrogênio vá, obrigatoriamente, piorar a EM. Mas ajuda a explicar por que menopausa e esclerose múltipla são temas que hoje caminham juntos nas discussões de neurologia, ginecologia e saúde da mulher.

Menopausa precoce e esclerose múltipla: quando a atenção precisa ser redobrada

Outro ponto importante é o timing da menopausa. Não é apenas o fato de entrar na menopausa que importa, mas também quando isso acontece.

Envelhecimento ovariano e hormônio anti-Mülleriano (AMH)

O hormônio anti-Mülleriano (AMH) é um marcador da reserva ovariana. Níveis mais baixos indicam envelhecimento ovariano mais avançado.

Estudos com mulheres que vivem com EM mostram que níveis baixos de AMH se associam a:

  • maior incapacidade medida pela escala EDSS
  • maior perda de volume de substância cinzenta em exames de imagem

O interessante é que essa associação aparece independentemente da idade cronológica e da duração da doença, sugerindo que o envelhecimento ovariano por si pode ter papel na evolução da EM.

Menopausa precoce e progressão da EM

Mulheres com menopausa precoce (antes dos 46 anos) parecem ter riscos adicionais, como:

  • início mais precoce da fase progressiva da EM
  • intervalo mais curto entre os primeiros surtos e o início da forma progressiva
  • idade mais jovem ao atingir EDSS 6 (quando a pessoa passa a precisar de apoio unilateral constante para caminhar)

Além disso, estudos sugerem um possível efeito dose-resposta das gestações: um número menor de gestações foi associado a início mais precoce de formas progressivas da doença, o que reforça a ideia de que a exposição cumulativa a estrogênios ao longo da vida pode ser protetora em algum grau.

Gravidez como “modelo natural” de proteção

A gravidez é um exemplo marcante de como os hormônios modulam a EM. Vários estudos mostram que, no terceiro trimestre, quando os níveis de estrogênio e progesterona estão altíssimos, há uma queda importante nas recaídas, seguida de aumento no período pós-parto, quando esses hormônios despencam.

Esse padrão não é uma “receita” de tratamento, mas reforça que hormônios sexuais têm papel real na atividade da EM e ajudam a entender por que a transição menopausal merece tanta atenção.

Menopausa e esclerose múltipla: quando os sintomas se confundem

Um dos grandes desafios na prática clínica é diferenciar o que é sintoma da EM e o que é sintoma da menopausa. Há muita sobreposição, o que pode atrasar intervenções importantes.

Sintomas comuns às duas condições

Tanto na menopausa quanto na EM podem aparecer:

  • fadiga intensa
  • “névoa mental” ou dificuldade de concentração
  • alterações de humor (depressão, ansiedade, irritabilidade)
  • distúrbios do sono
  • dores difusas
  • disfunção vesical (urgência para urinar, escapes)

Por isso, muitas mulheres ouvem que “é coisa da idade” ou “é só menopausa”, quando, na verdade, pode haver também atividade de doença ou progressão da EM.

Sintomas mais típicos da menopausa

Alguns sinais apontam mais fortemente para a menopausa do que para a EM:

  • ondas de calor
  • suores noturnos
  • secura vaginal e dor na relação sexual
  • irregularidade menstrual (na perimenopausa)

Esses sintomas não são típicos da EM e, quando aparecem, indicam que a transição menopausal provavelmente está em curso.

Sintomas que sugerem EM ou surto neurológico

Por outro lado, alguns sinais merecem avaliação neurológica mais urgente, pois são mais sugestivos de EM ou de surto:

  • alterações visuais persistentes (como visão turva, perda visual em um olho, dor ao movimentar os olhos)
  • dificuldade de equilíbrio e coordenação, quedas frequentes
  • fraqueza em um lado do corpo ou em membros específicos
  • formigamentos, choques ou dormências que não melhoram
  • sintomas neurológicos que pioram progressivamente ao longo de semanas ou meses

O fenômeno de Uhthoff: calor que “acende” sintomas antigos

Um ponto pouco conhecido é o fenômeno de Uhthoff. Em pessoas com EM, o aumento da temperatura corporal (por febre, exercício intenso, banho quente ou até ondas de calor intensas) pode piorar temporariamente sintomas neurológicos antigos, sem que isso represente um novo surto.

Na prática, isso significa que, na mulher que vive com menopausa e esclerose múltipla, as ondas de calor podem trazer à tona formigamentos, visão embaçada ou fraqueza que já existiram antes. Esses sintomas costumam melhorar quando a temperatura volta ao normal, mas merecem ser discutidos com o neurologista para diferenciar de um surto verdadeiro.

Menopausa ou EM? Quando procurar o neurologista

Alguns sinais que exigem avaliação especializada:

  • dificuldade para andar ou manter o equilíbrio que vem piorando com o tempo
  • perda visual ou visão muito embaçada que não melhora em poucos dias
  • fraqueza ou dormência em membros que atrapalham atividades do dia a dia
  • sintomas neurológicos associados a queda de desempenho no trabalho, nos estudos ou em tarefas simples

Na dúvida, é sempre melhor investigar do que assumir que é “só menopausa”.

Terapia hormonal na menopausa em mulheres com esclerose múltipla

Com tanta interação entre hormônios, cérebro e sistema imunológico, é natural que surja a pergunta: vale a pena usar terapia hormonal (TH) na menopausa se eu tenho EM?

A resposta é: depende, e a decisão deve ser sempre individualizada.

Estudos com estriol e outros esquemas hormonais

O estriol, uma forma de estrogênio predominante na gravidez, vem sendo estudado como possível tratamento complementar na EM. Em alguns ensaios clínicos, combinações como estriol + acetato de glatirâmer mostraram:

  • redução de taxa de surtos
  • melhora em alguns marcadores de lesão neuronal
  • possível benefício em testes cognitivos

Outros estudos observacionais com terapia hormonal sistêmica em mulheres com EM na pós-menopausa encontraram melhora na qualidade de vida física e no funcionamento relatado pelas pacientes, especialmente em sintomas vasomotores (ondas de calor) e bem-estar geral.

Por outro lado, a evidência ainda é limitada e heterogênea. Não há, até o momento, consenso de que a terapia hormonal reduza de forma sustentada a progressão da incapacidade ou mude, por si só, o curso da EM.

Riscos e benefícios: o mesmo cuidado de qualquer mulher, com alguns detalhes a mais

Para mulheres com EM, os riscos e benefícios da terapia hormonal precisam ser avaliados como em qualquer outra mulher, com algumas camadas extras de atenção:

  • histórico pessoal e familiar de câncer de mama, trombose e doenças cardiovasculares
  • presença de outras comorbidades (hipertensão, obesidade, diabetes)
  • tipo de terapia modificadora da doença (DMT) em uso e seus riscos específicos

Além disso, como a EM é uma doença crônica, é importante pensar a TH dentro de um plano de longo prazo, e não apenas como solução rápida para ondas de calor.

Hoje, as principais revisões científicas reforçam que não existe recomendação de terapia hormonal para todas as mulheres com EM na menopausa. A decisão deve ser compartilhada entre paciente, neurologista e ginecologista, considerando sintomas, qualidade de vida, riscos e preferências pessoais.

Perguntas para levar à consulta

Na hora de conversar com os profissionais de saúde, pode ajudar chegar com algumas perguntas preparadas:

  • No meu caso específico, a terapia hormonal é considerada segura?
  • Quais seriam os objetivos principais do tratamento (ondas de calor, sono, humor, ossos, possível impacto na EM)?
  • Por quanto tempo, em tese, seria indicado usar hormônios?
  • Que exames preciso fazer antes e durante o uso?
  • Existem alternativas não hormonais para os sintomas que mais me incomodam?

Organizando o cuidado: neurologista, ginecologista e você no centro

Diante de tudo isso, fica claro que menopausa e esclerose múltipla pedem um cuidado integrado. Algumas estratégias práticas podem ajudar:

Acompanhamento mais próximo na transição menopausal

Se possível, converse com seu neurologista sobre:

  • ajustar a frequência de consultas nessa fase
  • monitorar de forma mais sistemática a função motora, a cognição e a fadiga
  • reavaliar periodicamente a estratégia de terapias modificadoras da doença

Em paralelo, mantenha um acompanhamento ginecológico atento, com foco em:

  • saúde óssea (risco aumentado de osteopenia e osteoporose em mulheres com EM, potencialmente agravado após a menopausa)
  • rastreios de rotina (colo do útero, mama), considerando possíveis efeitos imunológicos de algumas medicações

Estratégias não hormonais que ajudam nas duas frentes

Algumas medidas têm benefício tanto para a menopausa quanto para a EM:

  • Atividade física adaptada: exercícios de força, equilíbrio e aeróbico leve, respeitando limites individuais, ajudam na função muscular, saúde óssea, humor e fadiga.
  • Alimentação equilibrada: foco em proteínas de boa qualidade, cálcio, vitamina D, gorduras boas (como ômega-3) e frutas e verduras variadas.
  • Sono e manejo do estresse: higiene do sono, rotinas de relaxamento, terapia cognitivo-comportamental quando indicada.
  • Suporte emocional: psicoterapia, grupos de apoio, comunidades de pacientes.

Leia também: Insônia na menopausa: guia prático para recuperar o sono

Menopausa e esclerose múltipla: o que levar deste artigo

Para fechar, vale recapitular os principais pontos sobre menopausa e esclerose múltipla:

  • A EM afeta principalmente mulheres, e a maioria delas passará pela menopausa convivendo com a doença.
  • Alguns estudos sugerem que a menopausa pode ser um ponto de inflexão na trajetória da EM, com declínio funcional e aumento de marcadores de lesão; outros mostram que, quando controlamos por idade, a menopausa não é o principal determinante da progressão de incapacidade.
  • O estrogênio tem efeitos neuroprotetores e imunomoduladores, o que ajuda a explicar por que queda hormonal pode impactar a EM, especialmente quando ocorre de forma precoce.
  • Sintomas de menopausa e EM se sobrepõem, e isso pode confundir diagnósticos e atrasar intervenções. Na dúvida, é melhor investigar do que atribuir tudo à idade.
  • A terapia hormonal pode ser uma opção para algumas mulheres com EM, mas não é indicada automaticamente para todas. A decisão deve ser individualizada.
  • Estratégias não hormonais, como atividade física, alimentação adequada, sono e apoio psicológico, são pilares importantes para atravessar essa fase com mais qualidade de vida.

Você não precisa enfrentar tudo isso sozinha. Procurar informação confiável, organizar suas dúvidas e construir, junto com sua equipe de saúde, um plano de cuidado para a fase da menopausa e esclerose múltipla é um ato de autocuidado e autonomia.

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Referências científicas

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